30.11.11

A MORTE VAI LEVANDO OS MEUS AMIGOS

A morte vai levando os meus amigos
e, com eles, também eu vou morrendo;
já cada vez me sinto menos sendo
     gramática de vivos.

António Barahona

RASPAR O FUNDO DA GAVETA E ENFUNAR UMA GÁVEA, Averno, Lisboa, Setembro de 2011

26.11.11

BIPOLAR

I

Juxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
-- eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
-- e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

II

Quem entende isto? Bastará dizer como diria
o meu amigo psiquiatra americano
(se acaso eu tivesse um):
sorry, pá, bipolar, nada a fazer --

-- e com desplante lavar daí as mãos
como um Pilatos de segunda escolha?

Não sei que responder a isto. Sei é que
vou ficando cansado de ter
no meu próprio interior uma arena onde sem brio
nem progresso visível para qualquer dos lados
nos defrontamos eu e o meu touro,
perpetuamente empatados -- muito embora
eu tenha a meu favor o factor casa.

A. M. Pires Cabral

COBRA-D'ÁGUA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Outubro de 2011

25.11.11

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011

23.11.11

[abrupto termo dito último pesado poema do mundo]

abrupto termo dito último pesado poema do mundo

Herberto Helder

A FACA NÃO CORTA O FOGO súmula & inédita, Assírio & Alvim, Setembro de 2008

19.11.11

MUROS

Vivemos a dois
passos, tão distantes, com
muros de silêncio

de permeio.
Os muros altos, farpados,
arrogantes.

Domingos da Mota

18.11.11

As cadeiras

                                                   pousou uma mosca aqui

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me caladas
(as costas muito direitas).
É bom ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem bem mais maduras (mais
pés 
assentes na terra).

João Luís Barreto Guimarães

Poesia Reunida, Posfácio de José Ricardo Nunes, Quetzal Editores, Lisboa, Outubro de 2011

13.11.11

PAISAGEM

A névoa que desde manhã fechava
as portas todas ao rio foi-se embora.
A luz é fria: esta é agora
a minha terra, o outono.
Todas as terras são afinal as mesmas
folhas cobrindo a relva, às vezes
cintilando quando o sol rasga a névoa.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1977

11.11.11

A CONTRALUZ

Desnudo o meu olhar, este
olhar cerzido com longos,

longos fios num tear de luz:
nesse corpo aceso, ateado,

vivo que amadura o fogo
e o fulgor -- reluz: rútila

vertigem que amotina o trigo,
alucina o sol e mesmo a

contraluz, ai dos olhos ávidos
(ai de mim cativo) quando chego

ao cimo de teus seios nus

Domingos da Mota

de Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

10.11.11

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada

Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê

A morte
desconta-se
vivendo

Giuseppe Ungaretti

SENTIMENTO DO TEMPO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1971

5.11.11

INSETO

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
                        que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
                        (o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
               ou quem sabe
                                     uma vida

Ferreira Gullar

Em alguma parte alguma, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

2.11.11

[O rio corre]

1.


O rio corre
da fonte seca
como se rio
de fonte morta
chegasse ao mar
quebrada a ponte
das águas turvas
na torva treva
que o ramo quebra
onde pousassem
aves que houvesse
se ali cantassem
vindas do monte
que o rio leva
de engano em dano
por terra seca
ao mar sem praias
que corre e morre
sem vale ou serra
do mar à fonte

Helder Macedo

COLAGENS (2010-11), in POEMAS NOVOS E VELHOS, Editorial Presença, Lisboa, Setembro, 2011