30.7.12

O Sol Negro

Esse ontem como se hoje na memória,
a cela da prisão tão presa à vida,
e o nó cego da esperança quando a história
calçava uma bota desmedida,

quando o tempo feroz da ditadura
denegria o sol e o sol negro
espalhava uma luz cuja negrura
se afundava e perdia nesse pego,

esse ontem como se hoje não morreu,
ronda a esquina dos dias qual secreta
e pode desabar do próprio céu
se o passo perde o pé, não fica alerta:

(se há mesmo assassinos, tantos, tantos
que são feitos beatos e até santos).

Domingos da Mota

a partir das leituras: do poema "hoje há 28 anos fui preso", de Júlio Saraiva, e da crónica de Manuel António Pina, "Fila à porta do Paraíso", no Jornal de Notícias de 29. 10. 2008

3 comentários:

  1. Um bom poema, caro Domingos da Mota.

    José Félix

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  2. Joaquim Paulo Silva e José Félix, grato pelas visitas e pelos comentários.

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