25.3.12

A pura verdade

óleo sobre cimento, 534 x 261 cm



O motor do automóvel anda a trabalhar
num óleo no
seu lugar de garagem. Expressionista abstracto.
Sobre bagos de óleo escuro (de
mais uma noite em claro) dobro
os pneus do carro ao sair pela manhã apondo
ao seu Pollock  gestos de um
Gracinda Candeias. Nesta tela abstracta
(que é o concreto do chão) os
olhos teimam em crer um archote um
fuzil
unindo as manchas mais cruas. Também assim
esta poesia.

João Luís Barreto Guimarães

LUZ ÚLTIMA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2006

23.3.12

DA EPISTOLOGRAFIA

Chegou uma carta. Trazia
muitas folhas escritas. Só uma delas
vinha em branco, não sei se
por esquecimento ou cortesia, a oferecer
um vestíbulo para os olhos
incinerados.

Inês Lourenço

TEORIA DA IMUNIDADE  [ALGUNS SORTILÉGIOS], Edição Felício & Cabral - Publicações, Lda, Porto, Dezembro de 1966

22.3.12

AS SETE BICAS

O silêncio com as suas sete bicas
ou o lume anunciando a neve
sabem da cumplicidade
do sol e da cal, da boca e da sede.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Fevereiro de 1997

21.3.12

RUMOR

          a Eugénio de Andrade


Servias o silêncio
decantado num
cálice de luz,
sílaba a sílaba:

rumor quase
nu, agasalhado
com duas, três
palavras em

surdina: breves
como as aves: livres,
roucas desceram por aí
a debicar: poisaram

nos meus olhos
e na boca:
mas prestes a subir
e a voar

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Edição Temas Originais, Coimbra, 2010

18.3.12

A CRIANÇA QUE RI

LXV

Nunca nada dito. Sempre  nada dito. Calar  de vez o silêncio. Se eu che-
gar até onde não  cheguei, cheguei. Se não até mim tu chegas. Se fosse
minha a tua noite, seria nossa a nossa noite.

Sempre nada dito.

Concretizar  o sonho  de ir contigo  até ao quarto  da luz  clara. Tal e qual
o cântico da  manhã. O que resta, desdenhemo-lo. Desdenhemos a cabe-
ça pensante de quatro patas. A bactéria assassina que  anda nos nossos
passos e  o mundo da fantasia negra. Esqueçamos  tudo, rapariga, juntos
faremos uma  viagem de comboio  até à tua e  até à minha terra. Temos o
pincel e a espátula. A folha e a caneta. O  gesto certeiro. Nenhum vestígio
deixaremos  para trás deste  mal  que nos aflige. Aonde tu  foste os meus
olhos seguir-te-ão. Serei uma sombra  parda a abrir-te caminho até ao sol.

Não te  enganes  que na  terra  do  nunca  nada  dito se  não falarmos  eu 
não  te  encontro. Na  terra do  nunca  nada  dito se as palavras  falharem
eu não te encontro. É uma  questão  de ângulo. E de eu te  dizer, está na
hora. E de tu mo dizeres.

Carlos Torres Figueiredo

A CRIANÇA QUE RI, PRÉMIO DE POESIA EUGÉNIO DE ANDRADE 2011, Modo de Ler - Editores e Livreiros, Lda, Porto, 2012

14.3.12

FUMO

Sigo-te:
Perco o rumo


Olhas-me:
Fico  cego


Prendes-me:
Sou a algema


Ardes-me:
Já sou fumo


João Habitualmente


Os Animais Antigos, edição objecto cardíaco - casa para as artes, Sociedade Unipessoal, Lda, Vila do Conde, Janeiro de 2006

10.3.12

A CONSTRUÇÃO DO CORPO

Sempre a tentativa nunca vã...
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia.
Entre a calma e a luz o movimento é livre.

Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.

No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.

António Ramos Rosa

A CONSTRUÇÃO DO CORPO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969

8.3.12

MULHER

Metade mulher  metade pássaro
Metade anémona  metade névoa

Metade água  metade mágoa
Metade silêncio  metade búzio

Metade manhã  metade fogo
Metade jade  metade tarde

Metade mulher  metade sonho

Jorge Sousa Braga

A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2001

7.3.12

ANIMAIS DOMÉSTICOS

Deixas os sapatos pelo chão
e eu tropeço neles
como se duas serpentes
trocassem de olhar entre si
para me puxarem o corpo
para o vazio soerguido dos tempos

abertos na carpete os livros
a lareira a várias vozes
indiferente ao mar
como resina branda e atenta
suspensa da garganta muda

o mel da luz passada
exagera o meu lado fora de mim
qual cigarra arremessando sedimentos
domésticos e alheios

os sapatos mordem a canela dos meus nervos
improváveis, penetrantes
tilintam nesta memória
de quem respira sempre no escuro

José Manuel de Vasconcelos

A MÃO NA ÁGUA QUE CORRE, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2011

4.3.12

50 ANOS

Talvez escreva
poemas
que já li
que outros já escreveram
que eu mesma já escrevi
esqueço-me
da minha vida

Adília Lopes

APANHAR AR, exemplar n.º 358, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 2010

2.3.12

A Terceira Miséria

23.


A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

Hélia Correia

A Terceira Miséria, Relógio D'Água Editores, Fevereiro de 2012