26.8.12

aula

o teu corpo
é uma aula
de natureza.

ensina-me
a ouvir
a queda da chuva.

o voo das folhas

a canção
do outono
à flor
da pele.

Alberto Serra

morrer de vagar, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2012

23.8.12

AS CINZAS (CICLO PRIMEIRO)

1

Uma caverna de luz e de fogo branco,
a lava iluminada por cima das nuvens
de cinza. É ali que o pintor situa as suas
tintas, com as duas mãos pousadas num
balcão.

Três corvos seguem um caminho definido
pelas árvores roubando o alimento dos
pássaros pequenos.

De uma calçada sai um fumo azedo que se
dispersa pelos chapéus-de-sol. As oliveiras
estão paradas, sem vento, sem frutos.
Secam como um peixe_____________

Jaime Rocha

Telhados de Vidro, N.º 16 . Abril . 2012, Averno, Lisboa

18.8.12

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco       gasto       frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi feto       que foi um peixe
que foi o ar    que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio

Manuel de Castro

EDOI LELIA DOURA antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, Janeiro de 1985

15.8.12

O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.

Paul Celan

A Morte É Uma Flor, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

14.8.12

POESIAS

2.


Eu ontem vi-te...
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno de mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.

Ângelo de Lima

POESIAS COMPLETAS, organização, prefácio e notas de Fernando Guimarães, Assírio & Alvim, Lisboa, 2.ª Edição, Maio de 2003

12.8.12

sumário

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.

Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).

Eucanaã Ferraz

Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro de 2009

11.8.12

FACHADAS

I

Ao longe, no caminho, avisto o Poder.
Tal qual uma cebola,
os malabarismos do seu rosto
a caírem um após outro.


II

Os teatros  esvaziaram-se. É meia-noite.
Letras de anúncios chamejam nas frontarias.
O mistério das cartas sem resposta
escorre ao longo das frias lentejoilas.

Tomas Tranströmer

50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012

5.8.12

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos in-
                                                                        [tencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais
                                                                            [límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

ESTRELA DA VIDA INTEIRA (poesias reunidas e poemas traduzidos), 19.ª edição, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1991