6.3.13

Sopa de Pedra

No poema cabe tudo,
sobretudo o que não há:
cabe o mundo com os modos
funcionários de viver
e cabem todos, mas todos
os excluídos de o ter,
cabe o pão que o diabo
amassou e pôs no forno

(só não cabe o bacirrabo
com a sua voz do dono),
cabe a pedra, cabe a sopa,
cabe o estômago vazio
e a boca, muita boca
com a vida por um fio,
cabem o sujo e o limpo,
cabem o lodo e a lama,

a cicuta e o absinto,
o imposto e a derrama,
cabe o preço, cabe a prece,
cabem deuses e demónios,
cabe até o que parece
mais real que muitos sonhos,
cabem horas e minutos
e segundos de alegria,

cabem passos dissolutos,
cabe mesmo o que não queria,
cabem o fogo e a cinza,
o perfume e o fedor -
o poema bem ranzinza,
mas não fede, não senhor,
cabem o silêncio e o grito,
mais o grito que o silêncio,

importante requisito
para dizer o que penso.
Se depois de tudo isto,
não há vagas, está fechado
o poema, eu insisto
com a glosa do tema:
faço uma sopa de pedra,
e com a pedra um poema.


Domingos da Mota

a partir da leitura do poema, NÃO HÁ VAGAS, de Ferreira Gullar

Sem comentários:

Enviar um comentário