8.9.13

Tríptico

I

Por muito que conjectures
sobre o sentido dos passos,
importa que não descures
quando se abrem os braços:

se somas ou subtrais
à causa que nos juntou
os arremessos verbais
(que a memória apagou),

algumas ideias loucas,
pequenos gestos ferozes,
por vezes orelhas moucas
para a frieza das vozes,

eu retenho, sobretudo,
mais que a forma, o conteúdo.


II

Mas vale a pena dizer
que a forma é importante,
sobretudo se abranger
um conteúdo bastante,

pois nisto de conteúdos,
sem falar nos aparentes,
além dos graves e agudos
e com traços divergentes,

vê os que trazem também
uma carga de trabalhos
(para atingi-los há quem
persiga tantos atalhos),

que depois de tudo isso
o que perdura é um esquisso.

III

O esquisso, o traço, o bosquejo,
o borrão, um simples esboço,
o debuxo do desejo
que irradia até ao osso,

talvez sejam tão concretos
para a pintura abstracta
como a expressão dos afectos
através da cor exacta,

quando o pintor, com apuro,
molha o pincel na paleta
com as tintas do futuro
(refina a forma secreta),

e deixa na sua tela
muito mais que uma aguarela.

Domingos da Mota

(de Tríptico e outros poemas, no Triplov)

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