2.10.13

Filosofia Política

Estou farto da poesia
como se renda de bilros:
tricotada bonitinha
a alancear a vidinha
com porosos atavios

e mesuras timoratas
amarrotadas sem viço
cabisbaixa de alpargatas
e de olhos sempre de gatas
entre a dor e o derriço.

Ai do lirismo que arrima
e nem é carne nem peixe
pois um poema sem espinha(s)
virgulado picuinhas
é bem melhor que se deixe

de mergulhar no mar alto
no abismo dos sentidos
de atravessar o asfalto
de voar de ir a salto
pra mundos desconhecidos.

O poema deve ser
uma pedra no caminho
com as sílabas a arder -
língua de fogo a crescer
e a morder até ao imo.

Mas se a mão o largar
numa toada vazia
desenfreada frenética
há que suster a poética -
e soltar a poesia.

Poetas abaixo a rima
(se ela for a prisão
onde o poema definha).
Estou farto de poesia
que não é libertação.

Domingos da Mota

(revisto)

a partir de poemas: de Carlos Drummond de Andrade e de Manuel Bandeira

6 comentários:

  1. Muito boa a poesia acima. Concordo plenamente. Parabéns!

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    1. Grato pela visita e pelo amável comentário.

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  2. Metáforas agudizantes num soberbo poema…

    “…
    Estou farto de poesia
    que não é libertação. “

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    1. No fundo, tentei parafrasear dois grandes poetas, e já agora, um terceiro, que também paira sobre o poema, Alexandre O'Neill.
      Obrigado.

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  3. Domingos,

    concordo plenamente
    Poesia é libertação
    ( e salvação, no meu caso!)

    Abraço, poeta!

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  4. Marlene Edir Severino,

    Se diz que a poesia, para si, além de libertação é também salvação, creio estar bem acompanhada, e quanto à salvação, pelo menos pelo Poeta Eugénio de Andrade, no seu poema A Sílaba: "(...) uma única sílaba./A salvação.".
    Obrigado pela leitura e pelo comentário.

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