27.2.13

Contra a infâmia

          a partir de um poema de Bertolt Brecht


O poeta
Morreu
Subitamente.
Os amigos lamentam a partida.

Os inimigos procuram execrá-lo.
Os idiotas vomitam idiotias.
Os filhos da puta dizem-no filho da puta.
E os cobardes mostram o que são.

O poeta já não pode ripostar.
Mas deixou-nos,
Para ler, os seus poemas,

Uma obra acesa contra a infâmia.
Importa conhecê-la,
E divulgá-la.

Domingos da Mota

25.2.13

CANÇÃO DO POEMA INÚTIL

      ao Domingos da Mota, meu amigo

       "Morreram todos a bordo, mas o barco persegue o intento que
        desde o porto vem buscando."

        - Seféris, com tradução do grego do poeta José Paulo Paes -


não me seduz mais caminhar entre mortos neste teatro vazio
as palavras estão gastas como as minhas sandálias de couro cru
não quero mais percorrer essas ruas sem saída
as feridas que trago nos olhos não cicatrizam mais
deixei para trás as esquinas que carregava comigo
herança de madrugadas inúteis
esqueci também a mulher que me esperava com um sorriso
e um por-de-sol nas mãos muito brancas
preciso respirar noutro porto
este aqui não me serve mais: meu navio naufragou - poucos se salvaram
não preciso de sorrisos enviados em garrafas
se não ancorei onde pretendia foi por não conhecer a intimidade dos ventos
os ventos me enganaram
deixei-me trair por uma bússola que pensei existir na palma da minha mão
o norte no entanto era outro e eu não consegui decifrá-lo
em compensação ainda estou vivo
e não sinto mais nenhuma necessidade do poema

Júlio Saraiva

São Paulo, Brasil

colhido no blogue do autor: Currupião.
uma versão (anterior) do poema pode ler-se aqui.

23.2.13

Do outro lado

          para o Júlio Saraiva, no dia da sua morte


As palavras ficam mudas,
sustidas, quase abstractas,
graves, pesadas, sisudas,
magoadas, estupefactas,

as palavras que nos dão
a notícia inesperada,
palavras cuja aflição,
com a morte anunciada,

anoitecem, e confusas
não dizem coisa com coisa
(como se fossem intrusas)
porque o amigo repousa,

para sempre, do outro lado,
entre nós e o passado

Domingos da Mota

V. N. Gaia, 22.02.2013

21.2.13

DENTRO

                                "O um é um e não dois"
                    
                                                Parménides, de Platão


estamos dentro de um dentro
              que não tem fora

e não tem fora porque
             o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
               por hipótese,
se admitisse existir

Ferreira Gullar

Em alguma parte alguma, Edição Babel, Lisboa, 2010

18.2.13

Para tambor e voz

Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.

Adélia Prado

Poesia reunida, 9.º edição, Editora Siciliano, São Paulo, 1999