24.6.13

CAVA

Livros que suportam tudo, até a estante.
O gozo da poesia como uma faca
afiando os dedos.
Uma mão que segura pelas pontas
a possibilidade de alguns gestos.
Folhas que num tempo adiantado
impõem o silêncio e outra vez
a vénia, a veia, a cova.

Marta Chaves

Telhados de Vidro, N.º 18 . Maio . 2013, Averno, Lisboa

20.6.13

DISCURSO TARDIO À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO

Éramos jovens: falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos 
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os
          barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave --
repara como voa, e pousa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina ou José -- o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida bela brisa?

1972

Eugénio de Andrade

Homenagens e Outros Epitáfios, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Edição 8.ª, Setembro, 1993

17.6.13

Testa-de-ferro

Altipotente, arrogante,
testa-de-ferro feroz,
manda-chuva sibilante,
capacíssimo, pedante,
rotundo de viva voz,

cão de fila - capataz
enfatuado, abelhudo,
egocêntrico, mordaz,
caviloso, contumaz
e sem freio - sobretudo

troca-tintas, arrivista,
coisa-à-toa tão enfático;
nem-sei-que-diga, sofista,
sicofanta, moralista,
em pose de catedrático.

Domingos da Mota

13.6.13

[Pobre velha música!]

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio o posfácio de Eduardo Lourenço, revista Visão e JL, Fevereiro de 2006

11.6.13

- O coração - (Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

AS MAGIAS  ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010

7.6.13

Duas de conversa

Andei muito, passei mais,
andarilhei por aí,
por caminhos bem reais,
deparei e dividi

a atenção com os demais
que seguiam o seu rumo
(as andanças virtuais
fazem parte do resumo).

Mesmo parado, viajo
através do pensamento,
e se demoras, reajo,
e precipito o momento

(devagar, que tenho pressa),
para duas de conversa.

Domingos da Mota

[inédito]

2.6.13

[nada pode ser mais complexo que um poema,]

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora

Herberto Helder

SERVIDÕES, Assírio & Alvim, Porto, Maio de 2013