20.7.13

Contra a depressão

De cachafundos

na fossa
das Marianas
de Tonga
das Curilas
das Filipinas
de Kermadec
de Izu-Bonin
do Japão
de Porto Rico
de Atacama
de Java
de Sandwich do Sul
de Litke Deep
...

de Berlim
de Frankfurt
de Bruxelas
de Washington
de Estrasburgo
...

de São Caetano à Lapa
do Largo do Caldas
do Largo do Rato
...

do Terreiro do Paço
de São Bento
...

de Belém

Libera nos, Domine!


Domingos da Mota

[inédito]

17.7.13

de nada - 12

oh
se os tivessem 
assassinado na juventude
oh
mas o passado
sabe 
proteger-se

não sei já
de qual deles falávamos
se era de todos
de todos os que tiveram
os seus incêndios do Reichstag
Bush
o seu 11 de Setembro
Pinochet
as suas panelas das domésticas
já não sei

mas que adiantava 
neste mundo
onde os criminosos se instalaram
com a sua conhecida lei
dos 3 magos do Ocidente

Elias
Melias
Melambes

Alberto Pimenta

de nada, Edição Boca - palavras que alimentam, Lda., Novembro de 2012

13.7.13

[Eu tenho de nação ideias desmembradas]

Eu tenho de nação ideias desmembradas,
comungo  do ranger de dentes
com os vizinhos,
comungo de açularem
os perros uns contra os outros,

mas não eu contra todos,
só contra alguns,
e mesmo assim
isolo-me no bosque do silêncio,
fujo para esta folha,
os cães ficam lá fora.

No entanto, eu que empunhei o fogo
sem Deus se ter lembrado
de chamar a águia,

quando os sinos e as sirenes
soarem a rebate, terei de ir,
o fígado desfeito por cirroses
somadas de desgosto,

embora aos meus vizinhos
pouco falte para se armarem
nos conflitos de bairro,
em defesa do quarto e da cozinha.

No fundo, sei que sou o tempo,
as minhas coordenadas e as alheias,
e daí que haja tempo para tudo,

um tempo para a paz,
um tempo para a vida,
um tempo para a guerra e para a morte,
um tempo para ser-se tudo e nada
ao mesmo tempo, a pele dos outros
que desvisto com suma falta de piedade.

Daí que não acredite em maiorias.
As maiorias são volúveis,
fácil é comprar-lhes
a consciência e o nome da rua,

e agora os estrangeiros chegam,
estendem as metástases,
ocultam lentamente o sol,
e os olhos de tal gente
tornam-se mortiços e cegam.

Somente um genocídio podia convencê-la
de que havia um reduto aqui

e não sei se acreditava,

tantas formas há de se confiscarem
as cidades, os campos, os mosteiros,
os palácios, a Língua,
um longo rol de fábricas,
a energia dos rios e do vento,
milhões de vozes
que constroem o amor
a partir de satélites,

e ninguém se interessa:
é pouco provável
que os estrangeiros entrem numa aldeia
ou assolem as ruas suburbanas
e sejam invisíveis,
embora não se vejam.

Nuno Dempster

UMA PAISAGEM NA WEB, &etc, 2013

10.7.13

Irrevogável questão

Dado o dito por não dito
(irrevogável questão),
que pensar do sobredito
e do seu golpe de mão?
E do coro inaudito
que perante a podridão
do cadáver esquisito,
faz do dito a solução?
Que pensar de gente assim 
e da sua hipocrisia,
e de quem assim-assim
aguenta a vilania
dum embuste surreal,
em nome de Portugal?

Domingos da Mota

[inédito]