18.11.13

Relatório

É um  mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de

pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.

Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.

Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.

Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011

13.11.13

Amargo de boca

Indago sobre a perda dos amigos,
se estes sem a mínima alusão
a quaisquer desenganos ou perigos,
abalam simplesmente, e lá se vão,

partindo sem dizer se vão sentidos
comigo, com o gato ou com o cão
(que mesmo sem miados e latidos,
reagem à menor perturbação).

Sendo assim com amigos virtuais,
bem pior quando alguns foram reais
e deixaram de o ser, subitamente,

por razões obscuras, ilegíveis
para quem sonda as causas plausíveis
do amargo de boca, tão presente.

Domingos da Mota

[Inédito]

11.11.13

Soneto omnívoro

Pois eu gosto do bucho e da fressura,
dos ossos da suã, da focinheira,
do redanho, do lombo e da assadura,
da morcela de sangue à farinheira;

saboreio o arroz de sarrabulho
e celebro uma quente cabidela,
se o reco for cevado a cascabulho
e de pica no chão se fizer ela;

gosto da burzigada, e da fartança
à mesa duma boa rojoada
(algumas bem me acodem à lembrança,
quando enfrento uma posta de pescada);

omnívoro que sou, de boa boca,
gostava de gostar de mandioca.

Domingos da Mota

[Inédito]

6.11.13

Filhos da época

Somos filhos da época
e a época é política.

Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.

Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.

Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.

Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.

Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega que sejas petróleo,
ração composta ou matéria reciclável.

Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?

Entretanto pereciam homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.

Wislawa Szymborska

Alguns gostam de poesia (Gente na ponte), Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lda., Lisboa, Março de 2004