26.12.13

Lágrimas de pedra

       com lágrimas de pedra nos sapatos

          Dinis Machado


Com lágrimas de pedra, mas sem lenço
para limpar dos olhos a poeira
que transforma o que vejo, seco e denso,
em algo mais espesso que a fronteira

que separa o que sinto do que penso,
no limiar da sombra e da cegueira,
as lágrimas de pedra com que adenso
a visão do presente que se abeira

das bordas do abismo, são bem mais
que sulcos ressequidos pela dor,
que restos, que resquícios, que sinais
dos tempos de fracasso ou de fulgor:

são as rugas de quem, olhando em volta,
vê um ror de cinismo, e de revolta.

Domingos da Mota

[revisto]

21.12.13

Poema de Natal

       com que a vida resiste, e anda, e dura.

          Pedro Tamen


Não digo do Natal - mas da natura
de quem faz do poder um pesadelo
que aprofunda as sementes da amargura
através do garrote e do escalpelo;

não digo do Natal - mas da tortura
que macera as feridas com desvelo,
impassível à dor que já satura
os ombros causticados pelo gelo.

Dissesse do Natal - seria bom
que pudesse cantar, subir o tom
das loas e dos hinos e dos ritos,

se em vez duma esmola, tão-somente
renascesse o respeito pela gente
que povoa o Natal dos aflitos.

Domingos da Mota

[inédito]

15.12.13

Poema para 2013

          sob o estigma da peste grisalha


Não vou somar aquilo que perdi,
sequer subtrair o que ganhei
ao muito que busquei e persegui
para atingir o pouco que apurei;
não vou patentear, mostrar aqui
o mapa dos caminhos que sonhei,
de tantos, tantos sítios que não vi
e que excedem de longe os que trilhei;
não vou apascentar os desenganos,
por muito defraudado que me sinta,
sequer ajoelhar perante os danos;
e mesmo que o tempo me desminta,
apesar do disfórico ferrete,
bem-vindos sejam os meus sessenta e sete

Domingos da Mota

[Inédito]

10.12.13

PUNHAL EXCELENTE

Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos --

-- esses lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.

A. M. Pires Cabral

gaveta do fundo, Edições Tinta-da-China, Lda., Lisboa, Novembro de 2013

5.12.13

Douta ignorância

Não sou dado a sermões nem a conselhos
nem à douta ignorância dos pastores:
alvitres, sugestões, por muitos velhos
que sejam ou pareçam os temores,

não deixam de pesar nas decisões
que tomo quando tenho de optar,
e ainda que me esqueça das razões,
não param mesmo assim de levedar.

Não vou aconselhar, pois não me cabe,
embora desaprove quando alguém
decreta sobre o muito que não sabe
e norteia o caminho para quem

terá de superar, transpor o muro
que separa o presente do futuro.

Domingos da Mota

[Inédito]