8.3.14

Cântico nu

Amiga, não lembres
que andaste na rua:
pisada, ferida,
mordida / tão nua.
Teus olhos sangraram.
Teus seios sofreram.

Teus lábios gritaram,
murcharam, perderam
o brilho das rosas.
Fizeram-te um filho.
O pai?, não o conheces.
Pois tu saciaste

lascívias sem nome
na alcova das preces.
Não lembres, amiga,
que andaste na rua,
sem eira nem beira,
mais morta que viva.

À flor do vazio,
da pele, do prazer,
enquanto cerzias,
num rito de amor,
soluços e beijos,
querias comer.

E vias teu filho
sem rumo, sem norte,
à esquina dos dias,
à margem da sorte.
Amiga, esquece
que andaste na rua:

chamaram-te puta,
ao filho, bastardo.
E tu a mulher,
a mãe, que sei eu?,
tentando viver
- para isso nasceste.

(E a boca-do-lixo
ferrou-te o labéu).
Não lembres, amiga,
que andaste na rua:
jogada / perdida /
vazia / tão nua.

Domingos da Mota

2 comentários:

  1. Uma bela homenagem à tantas mulheres mundo afora. Parabéns, e obrigada!

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    1. Grato pela apreciação do cântico.

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