13.4.14

Capitães de Abril

     a partir do poema, Camões e a tença, de Sophia de Mello Breyner


Ireis ao paço. Não
de mão estendida, por muito
que a tença seja incerta. Sereis
no paço a memória viva, a imagem
da revolta que desperta.

Ireis ao paço, ou seja,
à assembleia, escutar, olhar e ver,
mas falar, não.
Expor outra razão? Melhor ideia?
No paço estará fora de questão.

Por certo evocarão a liberdade
e tecerão louvores à vossa gesta.
A maioria debitará, à saciedade, este
é o caminho que nos resta, e que varre
o país de lés a lés, o país que um dia

libertastes das grilhetas do medo,
e como vedes, o medo anda aí,
mede os contrastes, e usa
o temor da dissonância
com a novilíngua da ganância.

Ireis ao paço? Mandareis recado?
Importa a firmeza da resposta.
Basta de pingentes, paus-mandados
duma austera, apagada e vil tristeza,
atentos, veneradores e obrigados.

Domingos da Mota

[inédito]

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