8.4.14

Não cantarei

    Não cantarei amores que não tenho

     Carlos Drummond de Andrade


Não cantarei o amor
enquanto o ódio daninho
for a seiva da flor,
for o adubo do espinho,
for a haste do rigor,
for o sorriso escarninho,
for a guerra e o pavor,
for o descaso maninho,
for a fome e o desfavor,
for o erro comezinho,
for o sinal do bolor,
for o medo que adivinho,
for a fonte de livor,
for o veneno a caminho.

Não cantarei o amor
enquanto o ódio estiver
como dono e senhor
da natureza que houver,
impondo no seu altar
inumanos sacrifícios,
apenas para cevar
a cupidez com seus vícios.
Não quero contaminar
o amor com a aversão,
com o desprezo larvar
da humana condição,
que se propõe defraudar
e destruir a razão.

Não cantarei o amor,
pois o amor não precisa
deste canto de louvor,
de bandeira ou de divisa,
de volteios em redor
duma toada imprecisa.
Precisa de ter espaço
onde possa respirar,
da lisura dum regaço,
dum ombro para assentar,
depois de muito cansaço,
a cabeça no lugar,
que lhe permita o abraço
dum sorriso no olhar.

Domingos da Mota

[inédito]

4 comentários:

  1. Não cantarei...cantando, gostei muito do poema e das suas vertentes Domingos da Mota!!
    Susana

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    1. Isso mesmo, cantando, mesmo quando se finge não cantar.
      Obrigado pela leitura e pelo comentário.

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  2. Respostas
    1. Digo mesmo, excelente o Drummond!

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