23.3.14

SONETO FUNCIONÁRIO

Agente que sou vil do desperdício,
funcionário sem rosto e sem vergonha,
pior que rama reles, meretrício,
redundância fatal que nem se sonha

nos piores pesadelos das Finanças,
imagem que o desprezo fez profundo,
como lixo deixado das mudanças
ou esgoto a escorrer de um torvo mundo,

recuso-me a pensar por vossas mentes,
olhais-me e eu sou só indiferença,
e meus actos se fazem mais ausentes
à medida que o ódio em mim pensa.

Este foi o soneto funcionário
que escreveu um poeta panfletário!

Luís Filipe Castro Mendes

A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS, Assírio & Alvim, Porto, Janeiro de 2014

19.3.14

Do tempo

Tudo se gasta.
As estradas, os carros, a noite,
os cenários urbanos,
o areal privativo
de um mês de outono,
a Foz do Douro,
o mar, os astros, Deus
e o paraíso,
o rosto que jurámos,
de tudo se prevê um fim, e nós,
seres curvados,
genéticos, sozinhos, caminhamos.

Nuno Dempster

NA LUZ INCLINADA, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014

17.3.14

MANIFESTAMENTE

Em louvor do manifesto
dos setenta, lavro um
basicamente indigesto:
morra a ganância. Pum!
Que se dane o pregador
do caminho inevitável,
voz do dono e defensor
da pressão insofismável,
da cruel cominação
da razia e da rapina,
da enorme regressão
rotundamente asinina
e da longa servidão
sob a avidez assassina!

Oxalá que o manifesto
seja contra, seja anti,
seja adverso, infesto
para quem saqueia. Pim!
Se a recusa do cabresto
provocar o ai, Jesus!,
louvado seja o protesto
que deponha os lambe-cus,
bacirrabos, lambe-botas,
cães de fila e quejandos
militantes idiotas
formatados, debitando
ao serviço de agiotas
e de interesses nefandos!

Não vou dar corda aos sapatos
dos provedores da penúria
com conceitos abstractos,
mas à sombra da luxúria,
de pardos desideratos,
muitas vezes com mais fúria
que as cobras e lagartos
numa discussão espúria.
Apenas digo que isto,
este garrote abismal
é bem pior que um quisto,
que um tumor cerebral,
e que tem de ser revisto
e desatado, afinal.

Domingos da Mota

[inédito]

15.3.14

Revés

Tantos que se foram,
partiram, voaram,
saíram do porto
à pressa e zarparam

sem um até sempre,
um ai que me vou,
um não veemente
a quem devastou,

sem dizer das suas
(e doutros, talvez)
e bastavam duas

palavras ou três
para expor as cruas
razões do revés.

Domingos da Mota

[inédito]

11.3.14

Elegia para um não-poema

Não acodem as palavras
tão afastadas de mim
nem sequer as mais caladas
nem uma só, e assim
vou acabar o poema
antes de o ter começado,
ou melhor, o não-poema
ficará silenciado

pois não surdiu uma letra
nem uma sílaba só,
uma palavra discreta,
mas apenas este nó
na garganta que sufoca
e lacera o céu-da-boca.

Domingos da Mota

[inédito]

8.3.14

Cântico nu

Amiga, não lembres
que andaste na rua:
pisada, ferida,
mordida / tão nua.
Teus olhos sangraram.
Teus seios sofreram.

Teus lábios gritaram,
murcharam, perderam
o brilho das rosas.
Fizeram-te um filho.
O pai?, não o conheces.
Pois tu saciaste

lascívias sem nome
na alcova das preces.
Não lembres, amiga,
que andaste na rua,
sem eira nem beira,
mais morta que viva.

À flor do vazio,
da pele, do prazer,
enquanto cerzias,
num rito de amor,
soluços e beijos,
querias comer.

E vias teu filho
sem rumo, sem norte,
à esquina dos dias,
à margem da sorte.
Amiga, esquece
que andaste na rua:

chamaram-te puta,
ao filho, bastardo.
E tu a mulher,
a mãe, que sei eu?,
tentando viver
- para isso nasceste.

(E a boca-do-lixo
ferrou-te o labéu).
Não lembres, amiga,
que andaste na rua:
jogada / perdida /
vazia / tão nua.

Domingos da Mota

6.3.14

O SUPLÍCIO

A febre parece-se com Deus.
A loucura a última oração.
Longo tempo bebi por um estranho cálice
feito de álcool e de fezes
e vi na maré do copo os peixes
atrozmente brancos do sonho.
E ao erguer o copo digo
a Deus, ofereço-te este suplício
e esta hóstia nascida do sangue
que de todos os olhos brota
como que ordenando-me que beba, como que ordenando-me que
     morra
para quando por fim for ninguém
ser igual a Deus.

Leopoldo María Panero

POESIA ESPANHOLA DE AGORA/ POESÍA ESPAÑOLA DE AHORA, volume I, pág. 159, de Joaquim Manuel Magalhães, Posfácio de José Ángel Cilleruelo, Relógio d'Agua Edoitores, Lda., Lisboa, Janeiro de 1997

5.3.14

Quarta-feira de cinzas

É quarta-feira de cinzas
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,

não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.

O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho

que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.

Domingos da Mota

[inédito]