26.7.14

As Bombas

Não há mais palavras a dizer
Só ficámos com as bombas
Que estouram dentro das nossas cabeças
Só ficaram as bombas
Que nos chupam o último sangue
Só ficámos com as bombas
Que dão lustro aos crânios dos mortos

Fevereiro 2003

Harold Pinter

GUERRA, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, Quasi Edições, Junho 2003

24.7.14

[há o bigode caído e]

[a joão ubaldo ribeiro]


há o bigode caído e
redondo dos lados;
o teu olhar achinesado
compreensivo, escuro
azulado
esperançoso.
há o brilho pátrida
na tua testa;
dentes (os) sorrindo para aqui.
o pescoço reptilizante
a camisa que foi azul.

teus cabelos escasseiam;
teu sorriso - em letras -
talvez se eternize...

Ondjaki

DENTRO DE MIM FAZ SUL Seguido de ACTO SANGUÍNEO, Editorial Caminho, 2010.

21.7.14

MORTIFICAÇÃO

A folia dos Santos é a da poesia
Vagarosamente entregue às iluminações,
Ao tormento da devoção,
À sintaxe dos orações difíceis, talvez não lhes baste repeti-las.
Uma peregrinação pungente de intenções
Reconhecendo a imperfeição
Como pena perpétua.

José Emílio-Nelson

Bacchanalia seguido de Como Falsa Porta [TEOLOGIA CULPOSA], Edições Sem Nome, 2/2014

17.7.14

Cicatrizes

Olhar as rugas, ver
as cicatrizes que o rosto
desenrola sulco a sulco:

sentir do corpo outrora
agora um vulto de quase
descarnadas as raízes.

Domingos da Mota

[revisto]

5.7.14

COMPRIMIDO VI

Erva daninha


Não tiveste ainda tempo de
comemorar a vitória sobre
a corriola e já estás de novo
em guerra agora com o escalracho
Preocupado com as beringelas
os tomates os pepinos de conserva
é uma luta inglória a que se
prenuncia A essa erva
outra se seguirá nem que seja
a mais daninha das ervas
- a poesia

Jorge Sousa Braga

A BULA, Correio do Porto, Julho de 2014

2.7.14

O POEMA E A CASA

Paramos devagar entre paredes brancas
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente

Sophia de Mello Breyner Andresen

O BÚZIO DE CÓS e outros poemas, Editorial Caminho, SA, Lisboa, 1997

1.7.14

ESTALACTITE

III


Se o poema
analisasse
a própria oscilação
interior,
cristalizasse
um outro movimento
mais subtil,
o da estrutura
em que se geram
milénios depois
estas imaginárias
flores calcárias,
acharia
o seu micro-rigor.

Carlos de Oliveira

MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969