31.10.14

SONETILHO DO FALSO FERNANDO PESSOA

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.

Carlos Drummond de Andrade

60 Anos de Poesia, Antologia organizada e apresentada por Arnaldo Saraiva, Edições «O Jornal», Lisboa, Março de 1985

26.10.14

Lei sálica

As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.

Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.

Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.

Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

Inês Dias

[Um Raio Ardente e Paredes Frias, Lisboa, Averno], RESUMO a poesia em 2013, edição DOCUMENTA, Sistema Solar, CRL, Março 2014

19.10.14

Depois

Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolheram também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas acabadas.

Manuel António Pina

POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2011

17.10.14

ARTE POÉTICA

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou a ajudar a dormir um inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

António Ramos Rosa

[in Sílex, 1980], O POETA NA RUA, Selecção e Prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quase Edições, Junho 2005

14.10.14

Soneto das Horas

      aos queridos mortos

       Durs Grünbein

       E manda-o também esperar a hora
       de dar à luz a sua própria morte (...)

       Rainer Maria Rilke


Por tardia que seja, é sempre cedo
que se faz a viagem sem regresso,
não sei se aliviada, se com medo
da crença de que a vida tem um preço

a pagar no além, depois da morte.
Mas pior que a triste despedida,
seria apresentar o passaporte
da alma face à ausência doutra vida.

Outra vida haverá, havendo o ciclo
do carbono que muda e transmuda,
e mesmo que o faça em contraciclo
com a essência das coisas, talvez surda

um ácido, uma base - uma semente
que fecunde a matriz dum novo ente.

Domingos da Mota

[inédito]

9.10.14

Música

A música seduz, 
afaga o dorso 
do silêncio febril 
quando solfeja 
a pauta nua do 
teu corpo vibrante 
como as cordas
do desejo.

Domingos da Mota

[inédito]

3.10.14

Alegoria

No encalço do futuro
que logo será presente
e passado no vindouro
pretérito dependente
da memória que deixou
do percurso, do trajecto,
da ideia que ficou
da matéria, do sujeito,

antes de ser objecto
de estudo de quem um dia
fará dum simples dejecto
uma exacta alegoria
sobre a passagem do tempo
que abrevia o esquecimento.

Domingos da Mota

[inédito]

1.10.14

[Invisível flor. Mas quase]

Invisível flor. Mas quase
que à tona de vir de dentro,
a apetência mental abre
seu espaço de silêncio.
Que um curto perfume, ou árvore
se turbem, o pensamento
pode, torrencial, espraiar-se
sobre a língua. Um halo esplêndido
ficará brilhando, quase
que flor íntima de texto.
Flor invisível que sabe
ser feliz no seu silêncio. 

Paris, 1985

Fernando Echevarría

Olhos de Orfeu, DOZE POETAS DO PORTO, Associação dos Jornalistas  e Homens de Letras do Porto, organização e prefácio de António Roberval Miketen, Dezembro de 1985