29.4.15

Como que dançam

Há palavras 
que balançam entre 
os dentes e o palato

e outras como 
que dançam com a língua 
com os lábios

quando 
nos beijam
de facto

Domingos da Mota

[revisto]

14.4.15

Esboço

Assim vai o rascunho: ensaio, escrevo,
apago, e dou voltas e mais voltas
em redor de palavras que não devo,
deixando as que devia, desenvoltas,
depois de observarem de viés
o borrão abstracto que as desasa,
a fugirem depressa, a sete pés,
em busca de melhor, dum golpe d'asa
que as guinde até aos cumes impossíveis
de serem atingidos por alguém
que não tenha olhos d'águia, concebíveis
somente para alguns, esses a quem
consagro o que perdura, neste esboço, 
dum poema esburgado até ao osso.

Domingos da Mota

[revisto]

13.4.15

Boca a boca

Havendo o dia do beijo,
começo pelo abraço
que subleve o desejo
dos lábios que entrelaço

entre a língua e os dentes,
em busca da tua língua,
deixando as duas, frementes,
a saciar-se da míngua,

da fome, da sede louca,
numa luta, boca a boca.

Domingos da Mota

[revisto]

12.4.15

CATÁLOGO DE PÁSSAROS DE O. MESSIAEN

Exactamente setenta e sete pássaros diferentes
repartidos por sete livros de música
Não chega só uma vida para contar a plumagem
as películas esvoaçantes do breu real
ou os saltos coloridos de espessura entre os galhos
Volteiam de transparência em transparência
trespassam o dia, bicam o nó da sombra

Aguardamos sob o peso do sol, névoas até aos ossos
preenchemos depois as noites com cifras de aérea
                                                            gravidade
humilde exercício, transposição luminosa
É o mundo todo visível, questão de paciência
invisível totalmente, olhos recomeçados?

Pequenos factos radiantes
corações de tempos demasiado vivos
registos sobreagudos, coisas de atenta surdez
Sobrevoam os intervalos mais discretos da terra
alheios ao peregrino, humano sobressalto
anjos ou penas pesadas da neve

Já nos visitavam nas coutadas da Silésia
pedradas, tiros, valas comuns em Stalag VIII A
A cotovia dos campos, o papa-figos dourado
maçarico real, chasco preto, melro azul

José Manuel Teixeira da Silva

Música de Anónimo [poesia, 2001-2009], Companhia das Ilhas, 2015

9.4.15

Sem título

Oh flores sujas de sangue,
despetaladas e frias,
como se corpos exangues
com as órbitas vazias:
quantas pétalas caídas,
ceifadas, barbaramente,
degoladas, abatidas,
imoladas por dementes
mercenários do terror
com insondáveis desígnios
e sicários sem temor
em terríveis morticínios,
que não há no mundo todo
quem redima tanto ódio.

Domingos da Mota

[revisto]


5.4.15

Nervos

Fossem de aço temperado
os teus nervos sempre que
o presente acelerado
derrapasse mesmo se
com o passo alucinado
tropeçando em cada pé
resistisses pendurado
no buraco que se vê.
Quantos nervos sem um esgar
se mantém (mas tu não)
impassíveis e apesar
do que rói o coração 
de tão frios: afinal
como o aço dum punhal.

Domingos da Mota

[inédito]

3.4.15

Fábula

No princípio era o sopro,
uma brisa irreverente
aprazível, sem o escopo
de lavrar, subitamente,

como vento que se agita
e passa de remoinho,
numa espiral inaudita
que supera o torvelinho,

a um medonho tufão,
um ciclone, um tornado,
ao olho do furacão
que deixa tudo assolado.

O leve bater de asas
de pequenas borboletas
pode arrasar muitas casas
e cidades completas.

Domingos da Mota

[inédito]

1.4.15

Da repulsa

A repulsa, o nojo, a náusea,
essa dose cavalar
de soberba que lhe causa
e acentua o mal-estar

sempre que alguém se amotina
e refuta a austeridade,
essa aversão genuína
duma enorme vacuidade,

visto o papel da receita
para os males disto tudo,
sem cuidar que a maleita
é mais funda e, sobretudo,

tem as raízes no alto 
do poder em sobressalto,
a repulsa, o nojo, o asco
não passarão dum fiasco?

Domingos da Mota

[inédito]