29.6.15

26.6.15

Tento na língua

Tu que mentes e desmentes
as mentiras que propalas,
mentes com todos os dentes,
mentes até quando calas
os embustes, os enganos,
as falácias contundentes
que afinaste durante anos
com trapaças evidentes,
exiges tento na língua
aos velhos adversários,
como se estes, à míngua,
não contestassem os vários
remoques quando farfalhas,
petulante homem de palha.

Domingos da Mota

[inédito]

21.6.15

13.6.15

Requiem

À porta do verão,
vão-se os amigos nesse voo

parado, radical, no coração
da terra, desmedidos ante

um mar de gente crucial;
à porta do verão - que sega-vidas,

que gélida fogueira, que razia;
e como dói o frio que incendeia

as estrelas cadentes
da alegria; à porta do verão -

e os amigos rigorosos,
obstinados, seminais, atravessam

o sentido dos sentidos
e a poeira dos pontos cardeais.

Domingos da Mota

[revisto]

10.6.15

[Eu cantei já, e agora vou chorando]

Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta quando,
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Luís de Camões

Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Lisboa, Julho 2000

9.6.15

HERÓICAS

VIII

          (Sim, no século XX ainda se saqueiam 
              cidades.  E  nos  séculos  XXI,  e XXII
              e  XXIII...)


Depois do saque
violaram a rapariga da sombra nua!

Ah! tenho vergonha do sol e da lua.
Vergonha das flores de sangue a chorar
(porque nem todo o orvalho cai do Ar).
Vergonha da sombra a seguir-me no chão
de rastos, como um bicho de solidão...
Vergonha das nuvens, das pedras que piso,
dos olhos das crianças a voarem de riso,
dos soluços das mães
(o pão que elas comem)
e dos uivos dos cães
na noite medonha
do fuzilamento
à luz dos archotes
-- com a sombra a tremer
no muro do vento.

(Mas o pior é que o Homem
tanto sujou a morte
que até tenho vergonha
de morrer.)

José Gomes Ferreira

POESIA - I, Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1969
          

8.6.15

Fugato

O amor
de avesso:

fugidio?,
esquálido?,

à esquina
do vazio -

assim,
tão árido.

Domingos da Mota

[revisto]

6.6.15

Sonatina

Um sorriso
de sol, um beijo
de água

- cascata
cristalina de água
pura.

Domingos da Mota

publicado, com ligeiras variações, na revista Palavra em Mutação, Maio/Outubro 2003 (semestral) N.º 3zero - Ano III