29.9.15

Variações sobre coisíssima nenhuma

Sem coisíssima nenhuma,
que fazer da coisa agora,
do ónus que se avoluma
e obriga. (Pese embora,

haver quem diga que o dito
amortece, que há sinais
de que o fardo maldito
já foi pior, já foi mais

carregado, já se vê
uma luz ali, além,
lá no fundo) - e porquê?

Apenas porque convém
repescar, mesmo sem fé,
quem já não crê em ninguém.

Domingos da Mota

[revisto]

26.9.15

Da humildade

     Humilitas occidit superbiam


Homem humilde vá lá,
mais humilde que os humílimos
e tão humilde, quiçá,
que se torna dificílimo
encontrar entre os mortais
outro igual, humilde assim
(as razões eleitorais
contradizem o latim),
pois o homem lá se arroga,
na sua santa humildade,
arauto da boa nova,
da certeza, da verdade
e até manda recado
aos arrogantes do lado.

Domingos da Mota

[revisto]

24.9.15

A colheita

    O pouco que sobrou 
     de quase nada

     Manuel Alberto Valente


Quase nada é pouco,
mas o pouco é tanto
que apesar de pouco
sobrepuja e quanto

o nada que sendo
quase nada, assim
se foi refazendo
(quem me dera a mim.)

Quase nada é sumo,
sendo o pouco a súmula
do rigor, do apuro
do pequeno acúmulo

de que ora sobra
a colheita,
a obra.

Domingos da Mota

[inédito]

23.9.15

Declinação das aves

As aves
Declinam
O verão

E partem 
Bandeadas
Para o sul

Mal o sol
Lhes dá
O diapasão.

Domingos da Mota

édito originalmente no blogue porosidade etérea.

21.9.15

CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS

7.

Adonis: são remos os ciprestes?
            Ou os pulmões de um louco?
O "barbeiro" que me içou a vela
             no mastro das dores,
e me encheu a boca
de forragem destinada a animais,
não voltou a aparecer. Mas é
diabo a quem devo, tatuado
              no sangue,
o genoma
destes versos de Hakim Sanai:
«Toda a existência é simplesmente 
               o vento a teu favor!»

António Cabrita

COMBATE DE FLAUTAS, & etc, Lisboa, Setembro de 2003

20.9.15

Isto não é um soneto

Adoro?
Não,
não venero.

Gosto ou não gosto, que isso
de incensar, o que não espero,
venerador, submisso,

sob a capa de modismos
e doutras coisas que tais,
de eufemismos, seguidismos
e conluios pontuais,

é práxis que não consigo
elaborar dia a dia,
por muito que o amigo
faça dela teoria.

Seja cão ou seja gato,
o que for,
não idolatro.

Domingos da Mota

[inédito]

17.9.15

GÉNESE

Sozinho, à margem do caminho, um verme.
Passam, repassam bandos pela estrada.
E alguns vão vê-lo... ou antes: vêm ver-me,
Com um dó que dói como uma chicotada!

Passam, repassam bandos pela estrada...
Levantam pó que desce a envolver-me.
E outros, por animarem a jornada,
Jogam à bola com minh'alma inerme.

Passam. E à margem do caminho, triste,
Respiro o pó que inda no ar persiste...
Cai das estrelas o silêncio, o espanto.

Qualquer coisa de absurdo me sufoca.
Maior do que eu, sobe-me a alma à boca.
Falta-me o ar, incho de angústia... - E canto.

José Régio

Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Campo das Letras Editores, S. A., 1999

16.9.15

Outro modo de ser

    E outras coisas mais:

     António Manuel Couto Viana


Eu não esqueço: lembro, falo,
pois dizê-lo pode ser
bem melhor do que calá-lo
- um outro modo de ver
e de estar, acaso, atento
ao que se passa em redor.
Tu calaste. E eu lamento
esse silêncio. Pior,
quando o silêncio foi tanto,
desmedido, por sinal,
e um só grito de espanto,
instintivo, natural,
poderia ser um gesto
de apoio,
ou de protesto.

Domingos da Mota

[inédito]

14.9.15

Livro de fiados

     a Ivo Machado


Neste livro de fiados
com as páginas puídas
pelo tempo, raiam dados
discretos como as feridas
abertas ou esboçadas
que se vistas devagar
parecem contas passadas
que ficaram por saldar.
Um livro que se detém
entre o deve e o haver
e cuja soma também
se manterá por fazer,
pois apesar do desconto
nem tudo ficará pronto.

Domingos da Mota

(a partir da curta, mas saborosa conversa com Ivo Machado, aquando da apresentação do seu livro de poemas, O Monólogo do Merceeiro)

[inédito]

13.9.15

CARDIOGRAFIA

Para vos ver amigos
hoje ponho as minhas lentes
verde húmido de lágrima
hoje sois belos verticais mesmo gregos
vossas boas acções enumero
por límpidos dedos de água.

A raiva de muito vos querer
meu jasmim refractário foi
mas hoje que me suicido por vós
com a cálida tinta vos pinto
do meu terno olho de boi.

Natália Correia

O VINHO E A LIRA, Edição Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa

[Nem eu delicadezas vou cantando]

    Nem eu delicadezas vou cantando

     Luís de Camões


Nem eu delicadezas vou cantando
nem outras coisas brandas ou festivas,
pois sempre que as vejo pululando,
ainda que se ouçam muitos vivas,
reparo que as rudezas vão ficando
providas com as papas e os bolos
dos muito poderosos, onde e quando
partilham as migalhas com os tolos.
Não canto por cantar e muito menos
corro em busca das canas dos foguetes
que mesmo sendo coisas de somenos,
disfarçam artimanhas e topetes
e tantas e tamanhas trapalhadas
que não canto, por muito delicadas.

Domingos da Mota

[inédito]

10.9.15

Parábola sobre a utilidade das coisas

     Não há espaço para poemas, nem retórica.

     Claude Juncker



Inúteis os poemas, não há espaço;
inúteis os poemas, pois não salvam;
inúteis os poemas, não acabam
com as balsas e os muros e as fronteiras
e não dão de comer a quem tem fome
e não dão de beber a quem tem sede
e não passam rasteiras aos que tentam
fugir do sufoco e do arame
farpado que lhes tolhe os horizontes;
inúteis os poemas, não impedem
os naufrágios de milhares, sequer
as guerras de que tantos fogem aos milhões;
inúteis os poemas, não traficam
armas e mais armas e mais gente
e petróleo e petróleo e mais petróleo;
inúteis os poemas. Tão inúteis.
Úteis os discursos e as lágrimas
de velhos crocodilos.

Domingos da Mota

[inédito]



7.9.15

moradas

da poesia não sei,
mas gostaria, contudo,
de saber, como direi,
por que razão fico mudo
de espanto, quase alegria,
quando encontro no caminho
um desvio que, diria,
poderá ser-lhe vizinho?
se as moradas são poucas,
onde quer que ela esteja,
seja quem for que a faça
(se os poetas são loucos),
será lúcido quem veja
a sombra da sua graça?

Domingos da Mota

[inédito]

6.9.15

O Monólogo do Merceeiro

XXVI



Livro dos fiados é arte


              o derradeiro


acha-se numa sacristia
à guarda das sombras


de Deus
e das moscas.


Ivo Machado


O MONÓLOGO DO MERCEEIRO, Insubmisso Rumor, Porto, setembro de 2015

3.9.15

Aylan Kurdi

Arrastado na fuga para a vala
comum que aprofunda a crueldade,
foragido da guerra ou duma bala
perdida nos confins da iniquidade,
ao dar à costa, depois do naufrágio,
o corpo exangue do menino morto
agravou a ferida do presságio
de que a esperança pode ser um porto
de desabrigo, de pavor, de medo,
de quem sendo novíssimo tem cedo
o caminho das pedras tão hostil
ou das águas sem pé dum mar revolto,
mar encrespado convertido em esgoto
de perdição e de cinismo vil.

Domingos da Mota

[inédito]

2.9.15

Lembrança

Se depois de passada a vida a limpo,
com sabão ou lixívia ou aguarrás,
eliminando as nódoas do garimpo
ou doutros veios sujos, for capaz
de atingir claramente o desapego,
ainda que o presente e o passado
possam acumular desassossego
perante o ambiente ameaçado;
se depois duma vida que decorre
até que chegue ao fim e que pereça
o sopro reduzido, pois quem morre
não deixa que o fôlego aconteça;
se depois disto tudo houver lembrança,
que tenha com a vida semelhança.

Domingos da Mota


[inédito]