26.10.15

Cogitação profunda do Sr. S. sobre o estado-a-que-isto-chegou

Aturo a democracia
dos que votam em quem voto.
Quanto aos outros, com a azia,
sinto náuseas se noto
uma tendência, diria,
com laivos que não tolero,
que ameace as conezias
dos parceiros que venero.
Como se pode aceitar
que alguns, fora do arco,
tentem sequer abonar,
conceder, mesmo que parco,
um apoio a quem não vota
como eu? E não sou déspota.

Domingos da Mota

[inédito]

25.10.15

Isso

Quase nada é isso,
coisa pouca sendo,
se houver um estrupício,
que arrisque, torcendo,
distorcer a ordem
natural das coisas,
julgando que pode
obstar que ouses.
Coisa pouca, não,
pois se tal pudesse,
valeria então
o que lhe aprouvesse,
por denegação
ou como entendesse.

Domingos da Mota

[inédito]

24.10.15

O sibilo

Oh, se mói! E como lavra
o sibilo enraivecido;
como agudiza e agrava
a dureza do ouvido
quando arreganha a ameaça
que desafia os limites
do poder, que ultrapassa,
com delongas e palpites
sobre como, quem e quando
pode fazer alianças
que define, sublinhando
rejeitar outras andanças,
pois assevera e atesta
ser a mudança indigesta.

Domingos da Mota

[inédito]

19.10.15

OUTRAS COISAS

Outras coisas   no entanto
o amor e o desamor e também a
morte que nas coisas morre subitamente
o  lugar  onde  vais  de súbito

De súbito faltas-me debaixo dos pés
e noutros lugares   De ti é possível dizer
que te ausentaste para parte incerta
deixando tudo no teu lugar

Está tudo na mesma   Também a mim
tempo não me falta lugar sim
Onde cairás morta, flor da infância?
De súbito faltam-me as palavras

Manuel António Pina

AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, a erva daninha, Porto, 1982 (2.ª edição)

18.10.15

A cegueira

    A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira;
     a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas:
     e tal era a dos Escribas e Fariseus.

     Padre António Vieira



A cegueira que te cega,
com os olhos bem abertos,
é a pior, pois denega
a visão dos desconcertos

que atrai sempre que molda,
manipula, tece, ofusca,
dissimula, encobre, tolda
o objecto que busca

e não olha como tal
ou se vê, nem liga peva,
numa distracção total
da ameaça que carrega,

por muito que os demais
vejam coisas desiguais.

Domingos da Mota

[inédito]

15.10.15

[Quase nada é tudo]

Quase nada é tudo
o que vê em si,
um nada contudo
maior quando ri

(mesmo que sisudo),
quando ri de si.
Para quê levar-se
a sério demais,

se pode enganar-se, 
errar e ter mais
ou menos defeitos

e vícios e mínguas
que outros sujeitos
que afiam as línguas?

Domingos da Mota

[inédito]

12.10.15

Certidão de óbito

Se quem ganha, porque perde,
se quem perde, porque ganha,
se quem gela, porque ferve,
se quem ferve se esgadanha,
se quem fala aumenta o leque
dos parceiros de diálogo,
se quem arde quer que seque
e se mantenha o catálogo,
se quem olha se interessa
e comenta, dá recados,
se quem tem medo se apressa
a impor os paus-mandados,
se depois de tudo isto
há quem sugira o velório,
o morto pede o previsto
do inferno ao purgatório.

Domingos da Mota

[inédito]

8.10.15

Como um foco

Ainda que o despisses, onde e quando
exibes o sorriso e assim desnudo
o teu sorriso fosse sobretudo
como um foco de luz que ofuscando
disfarçasse a perfídia, o engodo
que se ocultam atrás de mil promessas
e se acaso se vêem, pedem meças
às partes que se tomam pelo todo,
convém não descurar tamanha astúcia:
hipócrita, maligna, mesmo quando
parece que te está desafiando
a revê-la de perto, com minúcia,
pois sabes de antemão que a aleivosia
sobreexcede o que o foco denuncia. 

Domingos da Mota

[inédito]

7.10.15

Consulta

Basta um gesto, um simples gesto,
duas palavras contidas
nos limites do protesto
contra as margens presumidas,
uma consulta mais larga,
um outro modo de ver
o carrego e a sobrecarga
dos mesmos sempre que houver
necessidade premente
de alargar mesmo um furo
no cinto, propor diferente,
olhando para o futuro,
basta alguém mexer um dedo
e há quem morra de medo.

Domingos da Mota

[inédito]

5.10.15

Nervos

Fossem d'aço temperado
os teus nervos sempre que
o horizonte apontado
derrapasse, mesmo se
com o passo extenuado,
tropeçando em cada pé,
resistisses pendurado
no buraco que se vê.
Quantos nervos sem um esgar
se mantém, mas tu não,
impassíveis e apesar
do que rói o coração
e tão frios, afinal,
como o aço dum punhal.

Domingos da Mota

3.10.15

Oh, virgens peripatéticas!

Oh, virgens apologéticas,
vozes do dono, a quem,
louvaminheiras frenéticas,
enalteceis o desdém
por tudo o que possa ter
uma fímbria de lisura,
de oposição a valer
contra o lápis da censura;

concubinas de alta-roda,
sicofantas do poder
que glosais sobre a coda
dos interesses que houver
e das suas dialécticas,
oh, virgens peripatéticas!

Domingos da Mota

[revisto] 

1.10.15

Corrigenda

Onde se lê passado, deve ler-se presente.
Onde se lê presente, deve ler-se futuro.
Onde se lê futuro, deve ler-se ausente
Devido ao conformismo podre de maduro.

Onde se lê teimosia, deve ler-se desdém.
Onde se lê desdém, deve ler-se altivez.
Onde se lê altivez, deve ler-se também
A moscambilha em prol da avidez.

Onde se lê fumo, deve ler-se fogo.
Onde se lê fogo, deve ler-se tição.
Onde se lê tição, deve ler-se de novo
E apurar porque sim e saber porque não.

Onde se lê isto (e aquilo que arrasta),
Apesar do risco, deve ler-se basta.

Domingos da Mota

[revisto]