30.11.15

ELEGIA EM DÓ MENOR

Não procuro dos outros o que tenho,
mas ainda procuro o que me falta
e se sei onde estou e donde venho
(morri no hospital e deram-me alta),

não irei carregar mais o sobrolho,
pôr no prego um verso já maduro
e gastar tanta cera com o olho
que acenda um pavio no escuro

Não minto se disser que além do fogo
são as cinzas que ferram as canelas
e quando os sentir no corpo todo
serei filho do pó e das estrelas

E apesar de escutar os violinos
não darei mais badalos para os sinos

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010


27.11.15

Olharapos

    No meio do caminho tinha uma pedra

     Carlos Drummond de Andrade


Terás pedras no caminho
e fósseis e pedregulhos;
e se for algum vizinho
a provocar os engulhos,
com um sorriso mansinho,
daqueles sorrisos cínicos
que tornam o ar daninho,
apesar de querubínicos,
as pedras podem ser punhos,
os punhos línguas-de-trapos
e as línguas testemunhos
enganosos, olharapos
que destilam os venenos
da intriga, pelo menos.

Domingos da Mota

[inédito]

26.11.15

Os ecos

As palavras contendiam
com a líquida aparência;
de tão ácidas ferviam,
sendo tal a incontinência
que as muitas que se ouviam
como pedras, como punhos,
afrontavam e feriam
os inversos testemunhos.
Eram palavras pesadas,
quase sólidas, espessas,
friamente disparadas,
expelidas às avessas
por quem ainda se torce
ouvindo os ecos da posse.

Domingos da Mota

[inédito]

21.11.15

Assobio em dó menor

     Há muito poucos verdadeiros poetas.

     Juan Goytisolo



Versejador me confesso
(com vontade de o não ser):
ser poeta não mereço
pois o poeta que houver

tem o cuidado e o dom
de deixar a sua marca
entre o sentido e o som
por muito que seja parca

a obra que permaneça
inovando: um regato
da margem esquerda do rio

sempre que o rio amanheça
e anoiteça de facto
o autor do assobio.

Domingos da Mota

[inédito]

18.11.15

Os dados

Neste jogo de cara ou coroa
lanço os dados da sorte com a mão esquerda

Se aposto num cavalo de sela
de súbito afocinha e cai por terra

(Ou o baralho de cartas não tem ases
ou o gatilho do revólver não dispara)

Domingos da Mota

[revisto]

15.11.15

Arte menor

O amor é onde
quem o sente e quando
o sentir responde
ao que está buscando

se durante a busca
o que acha é tanto
que a visão ofusca
e cega porquanto

o amor não vê:
tem olhos nos dedos
e gosto no tacto

quando cheira e crê
ouvir os segredos
ocultos de facto

Domingos da Mota

[inédito]

6.11.15

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

5.11.15

Centro de acolhimento

As chaves tanto abrem
como fecham muitas portas

Uma velha de castigo

deitada à porta do abrigo
dormiu na rua - está morta

Domingos da Mota

[revisto]

4.11.15

A Balada de Narayama

     (Narayama-Bushiko, Shohei Imamura, 1983)


O tempo urge. E a montanha além
já te vê com os olhos pedregosos;
se a quiseres subir, não tens ninguém
que te ponha no cimo. Sinuosos
são os trilhos perversos que ameaçam
do sopé da montanha até ao cume;
e os sinais abundantes espicaçam,
quando mostram, além do azedume,
as mãos interesseiras que simulam
a manta mal dobrada atrás das costas,
enquanto, entre dentes, especulam
sobre o ónus da vida com que arrostas
e que aponta aos que atingem os setenta
o pico da montanha pardacenta.

Domingos da Mota

[inédito]

2.11.15

VELHO FRAGMENTO, ENCONTRADO E COMPLETADO - CONSELHOS À JUVENTUDE

Se, quando consentires,
consentes por metade,
não tomes por virtude
a náusea que te invade.

Toma-a pelo que é:
desejo revoltado
por ser teu, sem que sejas
teu próprio corpo violado.

1954.

Jorge de Sena

PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA 70 POEMAS E UM EPÍLOGO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969

1.11.15

Soneto familiar

    Minhas duas irmãs éramos três,
     minha mãe e meu pai éramos cinco.

     Armando Pinheiro


Os meus catorze irmãos éramos quinze,
dezassete juntando a mãe e o pai.
Haverá quem aprove e quem ranzinze
e torça o nariz e até vaie

e vitupere a prole numerosa
e à medida que o tempo for passando
nem repare na via dolorosa
dos idos ao que vai continuando.

Meu pai e minha mãe já nos deixaram;
dos irmãos que me restam, conto cinco
e todos, a seu modo, porfiaram
e persistem ligados pelo vínculo

que alarga ou aperta - ajusta os laços
consoante a premência dos seus passos.

Domingos da Mota

[inédito]