27.7.16

Anjo torto

    Quando nasci, um anjo torto
     desses que vivem na sombra

     Carlos Drummond de Andrade


Não era a olho nu que se entrevia
e sem ser apanhado pelo radar,
movia o par de asas que brandia,
não fosse depenado num altar;
sentindo-se acossado, o anjo torto
erguia com vigor as asas soltas:
preferia fazer-se até de morto
ou ser porta-bandeira de revoltas,
do que ter de ouvir, dia após dia,
o devoto bater de mãos no peito,
no meio da mais parda hipocrisia,
embuste, falsidade e, de tal jeito,
que o próprio sacristão, de olhar agudo,
se agastava, e não via tudo.

Domingos da Mota

[inédito]

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