4.8.16

Nem bissectriz

Se mestre de ignorâncias quando ousa
ser pintor de rasuras e dejectos
que rabisca na areia, numa lousa,
num muro, para gáudio dos insectos;
e bastam pingos ácidos de chuva,
dois dedos de saliva, um esfregão
para que a pintura fique turva
ou à mercê das traças, num desvão,
não se move por sonhos de futuro:
prefere o imprevisto, mesmo duro,
a ter de se dobrar pela cerviz,
e mesmo que o quadro se transmute,
prossegue sem farol nem azimute
nem estrela polar nem bissectriz.

Domingos da Mota

[revisto]

Sem comentários:

Enviar um comentário