28.7.16

Carpe diem

Tens mesmo de partir? Boa viagem.
Mas se podes ficar, deixa-te estar:
a vida é um sítio de passagem
que se deve viver e aproveitar;
e por muito que dure, é sempre breve,
daí que perder tempo, sem sentido,
será uma tarefa que não deve
ser muito longa, pois o que é perdido
jamais se recupera, e o remorso,
quando menos se espera, bate e, súbito,
franqueia a porta. Quase pele e osso,
sequer dás conta e, então, decúbito,
indisponível para tal visita,
nem vês a pressa com que ele te fita.

Domingos da Mota

[inédito]

27.7.16

Anjo torto

    Quando nasci, um anjo torto
     desses que vivem na sombra

     Carlos Drummond de Andrade


Não era a olho nu que se entrevia
e sem ser apanhado pelo radar,
movia o par de asas que brandia,
não fosse depenado num altar;
sentindo-se acossado, o anjo torto
erguia com vigor as asas soltas:
preferia fazer-se até de morto
ou ser porta-bandeira de revoltas,
do que ter de ouvir, dia após dia,
o devoto bater de mãos no peito,
no meio da mais parda hipocrisia,
embuste, falsidade e, de tal jeito,
que o próprio sacristão, de olhar agudo,
se agastava, e não via tudo.

Domingos da Mota

[inédito]

25.7.16

Serão de carne e osso

Serão de carne e osso aqueles que
navegam como eu, ou virtuais
espíritos errantes, como se
penassem os pecados capitais,
na pele de andarilhos que mal param
e mesmo quando param, distraídos,
resistem a pensar, e não encaram
os outros, pois que andam aturdidos
em busca de não sei que seres estranhos,
da estirpe talvez dos gambozinos,
se pequenos ou grandes, os tamanhos
nem eles saberão, tão cabotinos
com cérebros vazios: idiotas
mais néscios que muitos videotas.

Domingos da Mota

[inédito]

24.7.16

Ninguém

Há-de chegar o dia em que ninguém
se lembrará de ti - e, de passagem,
quase todos depois serão também
esquecidos no meio da voragem
que aprofunda a imensa desmemória
e mesmo que algumas das pegadas
tenham marcas visíveis, nem a história
deverá discernir de que passadas,
de quem era o pé ou o sapato
que deixou por ali aquele indício,
se fugia ou caçava ou se de facto
se lançou ou caiu no precipício
por acaso ou descaso ou livre-arbítrio
ou vítima das hastes do delírio.

Domingos da Mota

[inédito]

(tendo, como pano de fundo, a Ladainha dos Póstumos Natais, de David Mourão-Ferreira)

20.7.16

Mais a boca

Lá onde os lábios túrgidos se abrem
quando querem matar a sede intensa
que os traz tão acesos quanto ávidos,
tomados pelo fogo que se adensa
e, sôfregos, no meio do brasume,
ondeiam para baixo e para cima
e vão até ao pico, mesmo ao cume
da fonte natural que os anima,
lá onde os lábios túmidos se agitam
e amotinam e fremem e apetecem
e ofegam e levantam e levitam
e retesam as veias que entumecem,
lá onde quanto mais a sede é louca,
mais a boca do corpo, mais a boca.

Domingos da Mota

[inédito]

16.7.16

Como um fósforo

Vai de mal a pior este começo:
traçado o azimute, nesse rumo,
não quero estar na pele, pagar o preço
do frio que virá depois do fumo,
pois se fogo sem fumo não existe,
tanto fogo-de-vista, mesmo preso,
faísca como um fósforo que insiste
até que chega o dia em que, surpreso,
se descobre tão-só como um punhado
de cinzas a um canto da lareira:
há começos assim; outros, assado,
e muitos quando atiçam a fogueira
nem cuidam de saber o santo-e-senha
para ter no inverno alguma lenha.

Domingos da Mota

[inédito]

15.7.16

A sombra

Quando a noite, a sono solto,
acaba num pesadelo
estremunhado, um soco
reflectido no espelho
e o espelho deflecte
a imagem, cruamente,
e provoca ricochete
sobre a máscara pendente;
quando as rugas avassalam
e redesenham o rosto
com arabescos que abalam
as curvaturas do corpo:
mesmo olhada de viés,
eis a sombra do que vês.

Domingos da Mota

[revisto]

14.7.16

Olha o anjo

Olha o anjo
da guarda. Não o vês?
Repara bem nas asas
depenadas. No seu ar
transparente
(em que não crês),
no modo de seguir
tuas passadas.

O anjo da guarda
está cansado
de arrastar a teu lado
as asas tortas
ou pior ainda,
aperreado quando
tropeças e cais
e mal suportas

o fardo que carregas, 
o que trazes. 
Mas se há outros 
com fardos mais 
pesados, e legiões 
de anjos (são às levas) 
opacos, desasados, 
incapazes. 

Domingos da Mota

[inédito]

10.7.16

LUA

Mamífero metálico. Nocturno.


Vê-se-lhe 
o rosto comido por um acne.


Sputniks e sonetos.


Nicolás Guillén

O GRANDE ZOO, tradutor, Carlos Pereira, Editora Centelha - Promoção do Livro, S.A.R.L., Coimbra, Novembro de 1973

5.7.16

PASSAGEIRO

Sou um passageiro.

Isto em bom português
quer dizer: estou de passagem.
Virá um dia em que caduque
a minha validade.
Só o comboio é perene,
inextinguível.

Por isso é uma gratuita 
crueldade a voz do altifalante
dizer de vez em quando:
-- Senhores passageiros, isto.
-- Senhores passageiros, aquilo.

Passageiro.

Caramba,
não preciso que mo lembrem.

Não me enterrem mais
a coroa de espinhos:
já me está apertada,
fundida com o crânio quanto baste.

A. M. Pires Cabral

QUE COMBOIO É ESTE, Edição Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

3.7.16

Sinais

Com o rastilho na boca
deita achas de azedume
na fogueira que provoca
e ateia com o gume
da soberba cuja faca
afia sempre que amola,
planta o medo de estaca,
ameaça, agride, esfola.

E o bode expiatório
dobra o pescoço e a cerviz
e aceita o purgatório,
a penitência e diz
ser à conta dos pecados
que um dia cometeu,
sem lembrar os paus-mandados
que prometeram o céu?

Com o rastilho pegado,
levado pela arrogância,
isto vai ser o diabo
para suster a ganância.
Mas pior que a mesquinhez
é ver aí como a história
concebe e choca outra vez
os sinais de má memória.

Domingos da Mota

[inédito]

2.7.16

Mas, porém

Como se fosse a madrasta
cheia de perversidade,
esta Europa que se agasta,
mas fomenta a iniquidade,
tem o seu quê de execrável
quando, olhando a incerteza,
continua, inabalável,
com a cínica avareza, 
em nome de muito poucos
mandantes do status quo
que se não são mesmo loucos,
são fanáticos, sem dó
nem piedade de quem
objecta: mas, porém...

Domingos da Mota

[revisto]