28.9.16

Síntese e remorso

Acerca da fragilidade
De uma criança
Nada diremos.
Acerca da sua força e das imagens
Nocturnas que se espelham
Como o adversário se espelha
Na polida solidez do escudo,
Sobre isso talvez nos seja dado
Dizer o que não merece mais
Do que síntese e remorso.

Luís Quintais

Eufeme, magazine de poesia, n.º 0 (julho/setembro de 2016) Edição e coordenação: Sérgio Ninguém

26.9.16

Entre gostos e desgostos

Gosto? Não gosto? Desgosto?
Se for coisa de mau gosto,
não gosto, melhor, desgosto,
pois não gosto, a contragosto;
e até gosto de gostar,
mesmo que não esteja a dar,
pois isso de estar a dar
brevemente há-de passar,
como passa qualquer moda,
e não sendo de modismos,
de truísmos, seguidismos,
não farejo atrás da coda
ou da cauda do rebanho,
e até gosto de redenho
e do sabor do pitéu.
Gosto? Não gosto? Não tenho
de gostar quando o amanho
se adensa como breu.

Domingos da Mota

[inédito]

24.9.16

IN MEMORIAM

                    ao meu Pai


Fosses vivo e terias

agora uns cento e cinco,
partiste há sessenta e dois,
tinha eu sete e como sinto
a falta que me fizeste,
mais do que pão para a boca,
o vazio que deixaste
neste caminho de pedras,
de falta de ar que sufoca
quem tem de subir a pulso
e dá com o nariz na porta,
uma e outra e outra vez
e quando a porta se abre,
numa fila aguarda a vez,
mas raramente lá cabe.
Partiste há sessenta e dois,
muitos anos de distância:
quantos mais virão depois,
minha douta ignorância?

Domingos da Mota


24 de Setembro de 2016


[inédito]


22.9.16

AO CONTRÁRIO DE ULISSES

Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.

Pedro Mexia

Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

21.9.16

O CÃO DE ULISSES

(glosa ou quase)


                                                                           a Lêdo Ivo,
in memoriam


Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
se a Poesia é a arte de ver? Ele soube-o dormindo
ou acordado, e transpondo as pontes por Sevilha.
Árgus, o cão de Ulisses, confirmá-lo-ia
como fez com seu dono. Lêdo sabia-o.
E qualquer um dos seus vinte e dois cachorros
cuja privacidade sempre respeitou.
Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
e Homero existido? Lêdo sabia-o. Como Borges
sempre soube, porém, não há notícia se o portenho
alguma vez teve cão. Por essa razão,
Lêdo escutou os latidos de todos os cachorros,
não fosse o caso de um (entre eles) ser o mito
-- O cão de Ulisses, o verdadeiro.

Ivo Machado

A CIDADE DESGOVERNADA, Insubmisso Rumor, Porto, Fevereiro de 2016

20.9.16

O CÃO DE POMPEIA

O cão que vi prostrado na ferrugem do pêlo eriçado,
Não era osso a fugir, calcinado.
Mordiam-lhe as pulgas e o flash, mas estava vivo.
(Pelo menos a respiração tumefaz-se empoeirada.)
O chão seco em que caia o seu repouso.
Nada se parecia com a lava.
<Este cão, a vida que continua em Pompeia, que sempre continua.>

José Emílio-Nelson

BELEZA TOCADA  OBRA POÉTICA  1979-2015, Abysmo, Lisboa, Setembro de 2016

19.9.16

mas que desperdício

se depois de tudo
o que vês é nada,
nada sobretudo
da vida chegada
à beira do fim
e o pouco que resta:
lembranças, enfim,
memórias da festa
não deixam de ser
ideias fugazes,
pavios a arder
agora incapazes
de alumiar,
luzir, realçar
as formas, diria,
duma almotolia,
se apenas vês isso,
mas que desperdício.

Domingos da Mota

[inédito]

18.9.16

Celebração - José Rodrigues & Raquel Rocha

Um gesto, um traço, um bosquejo:
E os dedos confluem
E desdobram os matizes
Do desejo que depuram
E tracejam, ponto a ponto,
E debuxam, com leveza,
No subtil contraponto
Duma erótica beleza

Domingos da Mota

[inédito]

Fundação Escultor José Rodrigues
Rua da Fábrica Social, Porto, Setembro de 2016

16.9.16

Ensaio sobre o soneto

Deprecias o soneto.
E eu pergunto, porque não
abrigá-lo sob o tecto
do poema em construção?
Que a rima não se usa,
dizes tu, é coisa antiga.
Mas se a forma da blusa
fica bem à rapariga;
repara naquelas curvas,
na elegância do corte:
por que razão te perturbas
e quase perdes o norte
e te zangas e abespinhas,
como se fossem maninhas
todas as pernas errantes,
sedutoras, cativantes?

Domingos da Mota

[inédito]

15.9.16

[Não era de Godot que estava à espera]

Não era de Godot que estava à espera
ou de quem lhe tivesse anunciado
a terra prometida, a nova era
(promessas que já vinham do passado);
como um barco à deriva no mar alto,
esperava encontrar-se com alguém
que ao vê-lo em tamanho sobressalto,
lhe perguntasse apenas: tu também,
também tu esperaste por Godot
numa esquina do tempo sem que ele
aparecesse e sacudisse o pó
das sandálias, cumprisse o seu papel,
se desse a conhecer, se dignasse
a mostrar mais que o vulto, a própria face?

Domingos da Mota

[inédito]

12.9.16

Neste espaço rarefeito

Se me limpas e eu te limpo
e nos limpamos os dois,
qual de nós fica mais limpo,
mais asseado depois
da limpeza que fazemos,
cada um com o seu jeito,
quando nos desentendemos
neste espaço rarefeito?
Se quem diverge se agasta,
mas não diz nem aclara
a razão por que se afasta
e foge sem dar a cara,
bastará, será que basta
a pose de ave rara?

Domingos da Mota

[inédito]

9.9.16

Soneto da indiferença

Não sei como dizê-lo, mas se vejo
naquela indiferença um não sei quê
que desvela um sintoma de desejo,
pois afogueia o rosto sempre que
persiste de viés quando desvia
num súbito relance o seu olhar
que mesmo sem dar conta, denuncia
o quanto gostaria de se dar,
de se abrir, envolver, se vejo isto
e mantenho a reserva, o segredo,
não vá um simples gesto, a que resisto,
ser logo distorcido e haver um dedo
duro que dissemine aos quatro ventos
presunções, devaneios, andamentos

Domingos da Mota

[inédito]

7.9.16

MADRIGAL

Aquela enorme frieza
Não entristeça ninguém...
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:

Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,

(Que frio, que desconsolo!)
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de, feito serpente,
Ir enroscar-se-lhe ao colo!

Camilo Pessanha

CLEPSIDRA E OUTROS POEMAS, Círculo de Leitores, Lda., Setembro de 1987 

6.9.16

Transtorno

Há que analisar o medo,
medo que rói como um rato
e dissecar-lhe o enredo,
ainda que abstracto;
e se for preciso um susto
que o deixe desvalido,
importa dobrar o custo
até que fique falido
e desprovido dos fios
com que tece a sua trama,
dissimulados, sombrios:
um ror de fel e de lama
descoberto na vazante
do transtorno delirante.

Domingos da Mota

[inédito]

5.9.16

Especiarias

Com pimenta na língua e um grão
na asa quando bebe mais um copo,
mostarda no nariz e um farpão
na ponta do insulto ou do piropo,
língua solta, de trapos, sem canela,
noz-moscada, coentros, açafrão,
a pedir aguarrás, uma barrela,
e a leitura atenta do Sermão
de Santo António aos peixes, malagueta,
piripíri, tabasco e vinagre,
e mesmo que te faça uma careta
e brade e vocifere, porque arde:
usa e abusa das especiarias,
consoante as diversas litanias.

Domingos da Mota

[inédito]

4.9.16

De súbito

Mal o perdi de vista, lá se foi:
vítima do acaso ou de doença?
E a notícia veio com sói
dizer-se do vazio que se adensa

e desaba, de súbito, no peito,
como um soco no estômago, tão forte,
que se perde a noção, tal o efeito
que provoca o anúncio da morte.

Apesar do que a vida nos oferece,
com mais ou menos tempo, chega o dia
em que a noite perdura, entenebrece,

e a cadeira na mesa, tão vazia,
não deixa de mostrar como fenece
o halo da lembrança que irradia.

Domingos da Mota

(O v. 12, a partir de David Mourão-Ferreira)

[Publicado, inicialmente, na Revista Triplov]

2.9.16

CANHÃO DA NAZARÉ, COM ESTRAMBOTE

topos
e cúpulas
zimbórios
pináculos

cumes
e jáculos
de ondas
titânicas:

picos
e arroubos
e pasmos

e ápices
na crista
da onda

de vagas
semânticas

Domingos da Mota

[inédito]

1.9.16

Soneto das eiras

As eiras e o palheiro e o canastro
com a pequena horta rodeados
não de pedras ou vasos de alabastro,
mas de mais espigueiros restaurados
na soalheira sala de visitas
da terra que me viu nascer um dia
são o quadro outrora das colheitas
que lembro com alguma nostalgia.
Pudesse construir lá um casebre,
um telheiro, uma casa, com bem-estar,
para então repousar, antes do fim;
mas sendo a vida claramente breve,
o mais certo será continuar
a decantar as eiras de Cedrim.

Domingos da Mota

[inédito]