30.10.16

Olhar

Olhar redondo:
e o seu olhar
vai decompondo
o que abarcar

redondo e meigo
afectuoso
sempre que o leigo
for amoroso

mas se não for
for um malvado
tanto ou pior
que um cão danado

irrompe a ira
cresce o rancor
olhar que vira
ameaçador

como um fuzil
ou um relâmpago:
olhar hostil
feroz e quanto

Domingos da Mota

[inédito]

29.10.16

Tentativa e erro

Tentativa e erro: quantos passos
em falso sobre o fio da navalha?
E o percurso a seguir que não atalha
dúvidas, incertezas, embaraços;
e novas tentativas e mais erros
em busca da razão dos descaminhos
que provocam e conduzem a severos
deslizes, contratempos, desalinhos:
se durante a pesquisa o resultado
aparecer de súbito, um acaso
onde não se previa, mas ao lado,
bendito seja o erro que der azo
a nova descoberta ou nova busca,
que por muito que brilhe, não ofusca.

Domingos da Mota

[inédito]

28.10.16

OS DOIS POETAS

Na cidade branca
Entre as migalhas de pão
Habitam dois poetas
O primeiro é negro -- lua quebrada
De que as baleias procuram os restos

O outro é branco -- tal uma criança
Dorme todas as noites
Com uma serpente negra

Adonis

O Arco-Íris do Instante, Antologia Poética, Introdução, selecção e tradução de Nuno Júdice, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2016

27.10.16

CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS

5.

Querido Adonis, trouxeram-me um retrato
              teu, pescado na Internet.
Não há um corte --
entre a tua poesia e o que promete
              a tua imagem é palavra cortada
à feição, como a fruta
              que incita ao roubo.
Um borrifo de Deus  --
               e o mais desassombro.

António Cabrita

Combate de Flautas, &etc, Lisboa, Setembro de 2003

23.10.16

olho

olho que olha
e que desolha
e que malmolha
não me antolha:

olho de lince
de olhar arguto
olho de águia
veloz e agudo

olho que límpido
olho que lúcido
olho que lírico
olho que lúbrico

olho que é
astigmático
de olhar concreto
de olhar abstracto

Domingos da Mota

[inédito]


19.10.16

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro

Manuel António Pina

OS LIVROS, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2003

18.10.16

E que nem uma sílaba

Que fazer do poema que não tem
as palavras exactas, ideais
para ouvir o silêncio, e vê-lo bem
levantado no meio das vogais?
Um poema sem préstimo, inútil,
a sentir o ruído à sua volta
e a dar seguimento à estranha e fútil
disputa virtual que anda à solta:
um poema perdido entre conversas,
com remoques e réplicas azedas
e outras impensáveis e perversas
maneiras de soprar as labaredas,
que seria melhor que não surdisse
e que nem uma sílaba se visse.

Domingos da Mota

[inédito]

17.10.16

JURADO

comparatista
de olhar agudo
cego de ouvido
imune a tudo
imune a escolas
e a guitarras
e a violas
e a cigarras

codas e caudas
hordas rebanhos
louvores e laudas
corpos estranhos
aberrações
extravagâncias
propagações
de dissonâncias

imune à própria
imunidade
como o seu voto
de qualidade
para jurado
jurando ser
a voz do fado
se fado houver

Domingos da Mota

[inédito]

16.10.16

Quem me dera!

Quem me dera! Mas não há
quem te dê o quem me dera:
se até um vago oxalá
não passa duma quimera,
e quando essa ambição
radica numa utopia,
na venturosa ilusão
que te estende a mão vazia,
o quem me dera não dá
para dar sequer um passo,
um passo em frente que vá
mitigar o embaraço,
sempre que olhas e vês
quem te olha de viés.

Domingos da Mota

[inédito]

15.10.16

Porventura/2

capelas e capelinhas
igrejas e sacristias:
tantas almas e alminhas
desalmadas as mãos frias
apesar da água benta
com que molham os seus dedos
e se persignam na lenta
tecedura dos enlevos;
ai de quem entre no adro
bata à porta sem aceno:
terá régua e esquadro
para medir o pequeno
ou grande passo secreto
porventura obsoleto

Domingos da Mota

[inédito]

14.10.16

CALMA É APENAS UM POUCO TARDE

     Ainda não é o fim nem o princípio do mundo  calma  é apenas um pouco tarde

      Manuel António Pina


Não tens a cabeça a prémio
Nem o prémio na cabeça
Ainda que te apeteça
Disparar contra quem passa

Não é o prémio da paz
Que se dá a um guerreiro
Nem o prémio da música
Que laureia um sapateiro

E não toca rabecão
Dedilha uma guitarra
E a letra da canção
É um poema  -- e tem garra

Domingos da Mota

[inédito]

11.10.16

Nem uma pegada

Quase nada é tudo
o que fiz julgando
que fazia muito
onde quer e quando
cumpria, e agindo
como prescreviam,
ia resistindo
sempre que mentiam;
e mentiam muito
e logravam tanto
com aquele intuito
de ganhar e quanto,
que até o assombro
por vezes fingia
pôr a mão no ombro
de quem se iludia.
Se buscar agora
um pequeno indício
da canseira, afora
os ossos do ofício,
nem uma pegada,
um gesto, um sinal,
e o eco de nada
é tudo, afinal.

Domingos da Mota

[inédito]

10.10.16

Maratona

Amanhã se verá,
havendo olhos atentos
ao que houver para ser visto:
se muito ou pouco, mesmo
nada, vá, por aqui continuo,

sigo, insisto, enquanto vir
um dia atrás do outro
e essoutro prosseguir
o seu caminho sem apressar
a vinda daqueloutro que há dias

derrubou o meu vizinho.
Nesta maratona, olho
em volta e sinto como o tempo
estuga o passo, e vejo como
a lebre foge e salta

e acirra os que sofrem
de cansaço e por vezes
tropeçam, resfolegam
e bem perto da meta,
não a enxergam.

Domingos da Mota

[inédito]

3.10.16

Dente por dente

Sorris: e o largo sorriso
mostra os dentes duma alvura
que até o dente do siso,
que não tenho, se aventura
no encalço do sorriso
para ver e observar
e testar o pré-juízo
do muito riso; e apesar
da azougada simpatia
que o sorriso irradia,
não é de falsa alegria
com laivos de tontaria,
mas um sorriso espontâneo,
natural e subitâneo.

Domingos da Mota

[inédito]

2.10.16

Por atalhos e veredas

Se alguém quisesse ser
tão honesto como ele
teria de renascer
debaixo da mesma pele
duas vezes, talvez mais,
pois a sua honestidade
muito acima das demais
era de tal probidade,
tal lisura e rectidão,
que ai de quem apontasse
uma falha, um senão
ou algo que amarrotasse
a imagem bem vincada,
uma nódoa no percurso,
qualquer coisa assolapada
que desviasse o discurso
por atalhos e veredas
com palavras mais azedas

Domingos da Mota

[inédito]

1.10.16

Olho por olho?

Pode por dentro do olho
do polícia haver outro olho
que não seja o olho lícito
mas que seja um olho lírico?
Pode por dentro do olho
do juiz haver outro olho
que não seja fleumático
mas transgressor e lunático?
Pode um velho burocrata
metido num formulário
ter um olho abstracto
absorto e visionário?
E o olho do poeta
que muitos dizem ser lírico
descentrado e surreal
pode ser hiper-real?

Domingos da Mota

[inédito]