23.1.17

Tríptico do riso

I

Gostaria de me rir
(rir sobretudo de mim),
de ver os outros sorrir,
rir com gosto, rir assim,
desatar numa risada
com prazer, continuar
(não rir por tudo e por nada),
rir de bom grado e gozar
com um sorriso nos lábios
sempre que houvesse razão,
mesmo que não fossem sábios,
modelos de perfeição,
os porquês da casquinada
duma boa gargalhada.

II

Gostaria de me rir,
fazer do riso receita,
remédio para curtir
e aplicar à maleita,
à doença que ameaça
contagiar cegamente,
vendo aquilo que se passa,
vendo o ovo e a serpente
a chocar, sair da casca
e morder o pé descalço
que se atola, que se atasca
quando segue no encalço
de promessas e de juras
e de incertezas futuras.

III

Gostaria de me rir,
mas o riso não me sai
ante o que vejo surdir
e que analiso e que vai
ser fonte de muito choro,
muitas lágrimas de sangue,
muito abuso e desaforo,
ziguezague e bumerangue,
muitos actos de loucura,
em nome da lucidez
mais tenebrosa que augura
o reino da estupidez
sob a pata de tiranos
(por mil dias?, por cem anos?)

Domingos da Mota

[inédito]


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