18.3.17

Paráfrase da indiferença

Primeiro 
provocaram as guerras: 
de genocídio, 
de ocupação, de prevenção, 
em nome de diversas 
primaveras, no pico do Outono 
ou em pleno Inverno, 
e forçaram centenas de milhares, 
para não dizer, milhões, a fugir 
das suas terras, aldeias, cidades, 
países, para salvar 
a pele,
mas como não era soldado, e 
no meu país havia o culto 
do Verão, 
não me importei.

Depois 
surgiram as vagas
de migrantes nos caminhos 
marítimos para os cemitérios 
mediterrânicos, mas como não 
era pescador, nem emigrante, 
e estava voltado para 
o Atlântico,
não me incomodei.

A seguir 
começaram a erguer muros 
de arame farpado, a fechar 
fronteiras, a criar campos 
de concentração,
e a acirrar os ânimos contra
os outros, os refugiados,
os estranhos, os estrangeiros,
e
cresceram, como 
cogumelos, os movimentos
e partidos xenófobos, 
racistas, extremados,
mas como tudo isso se passava 
lá longe e, na vizinhança, 
os cabeças-rapadas eram
um pequeno epifenómeno,
não me perturbei.

Agora 
que a xenofobia campeia
e tem prosélitos 
renomados em altos
cargos, dentro e fora 
de portas, com hordas
de camisas negras e de botas 
cardadas e de cruzes 
gamadas, a dois passos
do poder, ameaçando 
cavar novas sepulturas, 
não será tarde 
demais para abrir os olhos, 
olhar em volta, 
e me importar?

Domingos da Mota

[inédito,

a partir de leituras de Maiakovski, Martin Niemöller,  Bertolt Brecht & outros]


Sem comentários:

Enviar um comentário