8.6.17

Tem catarro

    É raro eu rimar, e é raro alguém rimar com juízo.
     Mas às vezes rimar é preciso.

     Fernando Pessoa



Não leva saia travada,
põe de lado o espartilho,
a blusa decotada,
sugestiva, debruada,
pendente por um atilho,

não se ajusta na visita
a um bairro social,
não é blusa de chita,
mas de uma seda inaudita,
seda de luxo, afinal;

calça botas sempre que
se junta ao povoléu,
e veste calças de ganga
ou saia larga, uma tanga,
uma capa, que sei eu;

e desse modo vestida,
acena, dizendo apenas
a lengalenga sabida
de quem mexe na ferida,
mas não sente qualquer pena.

E com essa indumentária
na passagem pelo bairro
(falsamente proletária),
populista, perdulária,
a formiga tem catarro.

Domingos da Mota

[inédito]

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