12.8.17

A ESCALADA

       (segunda paráfrase da indiferença)



Primeiro
começaram com as provocações
as carrancas e as bravatas:

mar de fogo, de um lado;

fogo e fúria, do outro.

Depois

conjugaram-se paradas e desfiles
e manobras militares em terra mar
e ar e caças e bombardeiros 
e submarinos e porta-aviões
e mísseis e ogivas nucleares
e reuniões de conselhos
de insegurança e sanções e mais
sanções e reptos
e mais provocações,

mas como era longe

e os cães de guerra ladravam
do outro lado dos oceanos,
não me importei;

(não se importaram também

os órgãos de comunicação social,
cá do sítio, que nos seus noticiários
davam mais tempo de antena
e mais espaço nas páginas 
dos jornais a um golo, a um fora 
de jogo, a uma transferência
multimilionária de um jogador
de futebol, ou às pernas boleadas
de uma actriz desconhecida no areal
do Meco, que a todas as ameaças
que troavam nos ares,
preocupando-se os administradores
e as redacções com qualquer futilidade
que pudesse aumentar as tiragens
e os níveis de audiências.)

Se

um dia destes 
entre os poderosos senhores 
da guerra houver um, com o seu
estado-maior, que em vez da 
escalada verbal, 
decida premir o gatilho
ou carregar no botão,
chegarei a tempo 
de me importar?

Domingos da Mota


[inédito]


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