01/10/2017

Areia movediça

     (a partir da leitura da Ode à Mentira, de Jorge de Sena)


Mais fundo que a fundura dos abismos
Desceis, descereis sempre, descereis,
Usando e abusando de eufemismos,
A areia movediça que sabeis
Ser o campo minado da mentira,
Lavrado como tendo a seu favor
A verdade absoluta, que delira,
Rodeada de pasmo e de estupor;
Mas soterrado o chão, perdido o pé,
O halo da certeza cai a pique
E arrasta consigo o que até
Aparentava ser o muro, o dique
Da verdade absoluta, insofismável,
Agora numa queda inexorável.

Domingos da Mota

[inédito]

1 comentário:

  1. Afogando-se na profundidade daquela areia movediça de mentiras...
    Sem destino,
    Esvai-se a vida.

    Amei teu poema!


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