29.1.17

auto-retrato 60

depois temos o resto da vida

e não chega

para descobrir que no seio materno
já havia uma gramática

Paulo José Miranda

auto-retrato, abysmo, Lisboa, Abril, 2016

26.1.17

bumerangue

está-lhe na massa do sangue
exorbitar, e assim sendo,
se houver um bumerangue
que o atinja, fazendo
da sua crista arrogante,
da sua língua afiada
contra quem, perto ou distante,
se opõe à declarada
intenção de se arrogar
o dono altipotente
da terra, mar e do ar,
de ocidente a oriente,
uma crista emurchecida,
direi tão-só: «é a vida!»

Domingos da Mota

[inédito]

24.1.17

errar

não te leves muito a sério:
errar é próprio do homem:
emenda o erro que tome,
como se dono do império,
tamanha desproporção
que, além de exorbitar,
se guie pela ambição,
como se estrela polar.
por tentativas e erros
se descobre o que se busca,
sempre que os erros são meros
desaires que não ofuscam
o caminho a seguir:
antes o podem abrir.

Domingos da Mota

[inédito]

23.1.17

Tríptico do riso

I

Gostaria de me rir
(rir sobretudo de mim),
de ver os outros sorrir,
rir com gosto, rir assim,
desatar numa risada
com prazer, continuar
(não rir por tudo e por nada),
rir de bom grado e gozar
com um sorriso nos lábios
sempre que houvesse razão,
mesmo que não fossem sábios,
modelos de perfeição,
os porquês da casquinada
duma boa gargalhada.

II

Gostaria de me rir,
fazer do riso receita,
remédio para curtir
e aplicar à maleita,
à doença que ameaça
contagiar cegamente,
vendo aquilo que se passa,
vendo o ovo e a serpente
a chocar, sair da casca
e morder o pé descalço
que se atola, que se atasca
quando segue no encalço
de promessas e de juras
e de incertezas futuras.

III

Gostaria de me rir,
mas o riso não me sai
ante o que vejo surdir
e que analiso e que vai
ser fonte de muito choro,
muitas lágrimas de sangue,
muito abuso e desaforo,
ziguezague e bumerangue,
muitos actos de loucura,
em nome da lucidez
mais tenebrosa que augura
o reino da estupidez
sob a pata de tiranos
(por mil dias?, por cem anos?)

Domingos da Mota

[inédito]


19.1.17

POEMA DE INVERNO

Veio de longe, e mal chegou
partiu para mais longe ainda:
só o tempo justo para fazer
das águas dormentes  do meu trôpego
coração
um rumor de sílabas matinais.

Como toda a gente que partilha
com a luz a sua vida
era muito inocente, trazia do local
onde nascera
o ardor das coisas do mar.

Não sei de alegria mais pura
como a que morava nas molhadas
pedras dos seus olhos,
e baila ainda nas chamas
em qualquer lugar da casa.

Ao fim da tarde, o canto
do pequeno pássaro e o vento diziam
a mesma coisa: não deixes o incêndio
do deserto invadir-te o coração.
Sem que tu o suspeites, sequer.

Eugénio de Andrade

Os Sulcos da Sede, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Setembro 2001





17.1.17

Gestos

Um dia vamo-nos. Todos, 
ainda que haja variações no modo de partir,
a uns sobram-lhes asas
e outros enredam-se nas ervas daninhas
com o rosto colado ao lodo.

Aos que anseiam subir
e beijar as estrelas é conveniente
que saibam olhar o alto
sem se demorarem na idolatria.

Na montanha gelada há sempre lugar
e só o tempo aponta o caminho da neve
para alguns, não há desvios
para outros, todos os caminhos são desvios.

A única coisa que fica é o pó
uma definitiva mão
que tudo anoitece.

Maria João Cantinho

DO ÍNFIMO, Coisas de Ler Edições, Lda., Lisboa, 2016

12.1.17

a radiosa dentadura

exibe a radiosa dentadura
duma brancura tal que a luz se ofusca
e tacteia e tropeça e sonda e busca
a cega cicatriz da mordedura
dentada sob o halo dum sorriso
mais brilhante que o sol, o sol a pino,
afiados que estão desde o canino
ao dente sem porquê dito do siso;
e os dentes ora limpos, branqueados
ocupam o lugar dos cariados
que foram removidos totalmente;
e assim a dentadura, sem esforço,
aplica-se a esburgar até ao osso
o tempo de que goza, finalmente.

Domingos da Mota

[inédito]

10.1.17

Eis o que sói dizer-se

                                            (a M.S.)


Se para alguns foi um santo
e para outros um diabo,
não ousarei dizer tanto
nem toldarei o passado;
mas um homem de mão cheia
de virtudes e defeitos
cuja vida foi a preia-
mar de luta por conceitos,
que exerceu o dom de ser
odiado ou amado
por amigos a valer
ou inimigos em estado
de nojo, eis o que sói
dizer-se de quem se foi.

Domingos da Mota

[revisto]

9.1.17

[Álvaro de Campos]

(...)

Álvaro de Campos
o nome soava a qualquer coisa
e deu bastante que falar nos escritórios
e nas salas de jantar

o namorado duma aluna
um daqueles rapazes
a quem se vislumbra futuro
e até já tinha colaborado 
numa revista
afirmou que se tratava dum poeta
que não era dos mais falados
que estava ainda noutra onda
que não tinha nada que ver
com as mais recentes linhas poéticas
que se passavam todas
nas imediações da casa
bar rua transportes engates
actos quotidianos
que não se davam a fitas
de olhar para a lua
pois sabendo procurar
poesia há em todo o lado
até ou mais ainda no caixote do lixo
problema é a falta de vocações
e riu-se
depois explicou ao amigo
que foi numa jogada dessas
que conheceu a namorada

(...)

Alberto Pimenta

al Face-book, Editora 7 Nós, Porto, 2012

8.1.17

Chamaremos umbral

Chamaremos umbral o lugar de onde,
inteiramente nus enfim, partimos.
Sendo partir ir gravitar, conforme
o núcleo poderoso de vazio
acenda, desde longe,
o apelo de destino.
Que tudo canta, ou sofre,
desde essa densidão de corpo antigo
que chega a ciência quando se eleva um nome
do nome que o havia precedido.
E, assim, amarmos, sobe da lei. Comove
o peso de substância e o do olvido
com que a sombra persegue e intensifica a fome
de corpos violentos e sombrios.
Até encostarmos o ouvido à morte.
E ver seu nome de si, enfim, despido.

Fernando Echevarría

SOBRE OS MORTOS, Edições Afrontamento, Porto, 1991

7.1.17

O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobra a palavra em que acreditaste.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, POEMAS DO ESPÓLIO, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

5.1.17

(ser pedra)

com os pulsos abertos,
escrevi a vida nas pedras,
o sangue era a tinta,
escrevi até ser pedra.

Sérgio Ninguém

PEDRA, Edição de autor [COLECÇÃO: POETAS DA EUFEME], Novembro de 2016

3.1.17

Nós, deste tempo, avessos

Nós, deste tempo, avessos, imprecisos,
hóspedes, apóstrofes, relicários, suaves
por dentro, velozes na intimidade, leves,
rubros, talvez sentimentais, a quem é dito
que de nada vale antever erros ou soltura
encher a cabeça de desejos facas fumos
guerras surdas quartos vidas coisas vagas

Nós que com aspirinas esfareladas
nas gavetas umas poucas gravações
piratas de vozes amargas de amores
antigos em trampolins e em torno
ecrãs sem raízes, nervuras, biombos,
ecos, dentes, língua, fita-cola, saliva,
elegias, custos de vida, falésias, tudo,
vamos antevendo os erros e a soltura

Miguel Cardoso

Víveres, Edições tinta-da-china, Lda.,Lisboa, Julho de 2016

1.1.17

Dia Um de Janeiro

    Não me mostres nenhum norte
     nem estradas para lá:

     A. M. Pires Cabral


Não me tracem bissectrizes,
azimutes, direcções:
o tempo, como as raízes,
não precisa de sermões,
de decretos e alvitres
e nem sequer de parábolas,
de conselhos ou palpites,
mnemónicas ou cábulas.
Não me indiquem qualquer norte.
Habituado a nortadas,
apenas quero o suporte
das futuras caminhadas,
enquanto as pernas puderem
com os ossos que tiver.

Domingos da Mota

[inédito]