26.3.17

Há que franzir

Troco? Destroco? Não troco?
Falo? Respondo? Dou troco?
Calo? Engulo? Emborco?
Encharco? Caio de borco?

E assim caído, sufoco?
E amachucado e torto
Praguejo como se louco?
Ou faço-me então de morto?

E se respondo e retruco
E se contesto e debato,
Julgarão que sou zaruco
Ou pior, que sou um chato,

Uma melga, um piolho?
Há que franzir o sobrolho.

Domingos da Mota

[inédito]

25.3.17

o furúnculo

não descuides o furúnculo,
pois um furúnculo desses,
mesmo não sendo carbúnculo,
será melhor que te apresses
a mostrá-lo a quem o trate,
a quem saiba do assunto,
não faças o disparate
de o espremer; quando muito
desinfecta o ponto negro
e se ele tiver pus,
pega em ti, leva aconchego,
vai ao médico, faz jus
ao furúnculo, à verruga,
vai depressa, corre, estuga.

Domingos da Mota

[inédito]


24.3.17

furúnculo

é apenas um furúnculo.
e um furúnculo assim
virulento, quando muito,
espreme-se até ao fim.
não, não é uma ferida
aberta de par em par,
pois bem vista, bem espremida,
a coisa não tem o ar
de ser mais que uma borbulha
arrevesada, quiçá.
mas um furúnculo é isso:
por muito que cause engulho
e se mostre irritadiço,
há que espremê-lo,
vá lá.

Domingos da Mota

[inédito]

23.3.17

a mulher girava a mulher

a mulher girava a mulher
era a mó de um animal muito escuro

expandiam-se as redondezas do corpo
a mulher já não vinha no mapa mal cabia
na própria caligrafia.









mil águas depois
houve um homem.


Catarina Nunes de Almeida

MARSUPIAL, Mariposa Azual, Lisboa, Junho de 2014

20.3.17

Equinócio da Primavera

Fosse o sol da Primavera
que viesse celebrar
(e não a chuva, quem dera,
e não o vento a cortar)

que iluminasse este dia
depois da penosa espera
atribulada e sombria,
fosse a luz da Primavera;

fossem melros e pardais
e andorinhas em bandos,
e não estes surreais
avejões, com ditirambos

que decantam o Inverno
permanente, quase eterno.

Domingos da Mota

[revisto]

18.3.17

Paráfrase da indiferença

Primeiro 
provocaram as guerras: 
de genocídio, 
de ocupação, de prevenção, 
em nome de diversas 
primaveras, no pico do Outono 
ou em pleno Inverno, 
e forçaram centenas de milhares, 
para não dizer, milhões, a fugir 
das suas terras, aldeias, cidades, 
países, para salvar 
a pele,
mas como não era soldado, e 
no meu país havia o culto 
do Verão, 
não me importei.

Depois 
surgiram as vagas
de migrantes nos caminhos 
marítimos para os cemitérios 
mediterrânicos, mas como não 
era pescador, nem emigrante, 
e estava voltado para 
o Atlântico,
não me incomodei.

A seguir 
começaram a erguer muros 
de arame farpado, a fechar 
fronteiras, a criar campos 
de concentração,
e a acirrar os ânimos contra
os outros, os refugiados,
os estranhos, os estrangeiros,
e
cresceram, como 
cogumelos, os movimentos
e partidos xenófobos, 
racistas, extremados,
mas como tudo isso se passava 
lá longe e, na vizinhança, 
os cabeças-rapadas eram
um pequeno epifenómeno,
não me perturbei.

Agora 
que a xenofobia campeia
e tem prosélitos renomados 
em altos cargos,
dentro e fora 
de portas, que ofendem 
as minhas convicções, pois 
ameaçam cavar mais sepulturas,
não será tarde demais para 
abrir os olhos, 
olhar em volta, 
e me importar?

Domingos da Mota

[inédito,

a partir da leitura de Martin Niemöller ou Bertolt Brecht ou de quem quer que seja o seu autor]


15.3.17

AMENDOINS

Vivi o suficiente -- pensou.
Apenas uma única dúvida:
deveria dizer suficiente ou bastante?
Seja como for, chegou a um ponto
em que lhe era interiormente lícito dizer
que daquele ponto de vista em diante
a experiência entre os vivos
era mais ou menos redundante.
É claro que ao menor susto
haveria de agarrar-se à experiência redundante
como um macaco convictamente preênsil
por amendoins.
A vida era para ele amendoins.

Daniel Jonas

BISONTE, Assírio & Alvim, Porto, Abril de 2016

10.3.17

Terceiro soneto familiar

Pudéssemos saber dos tetravôs
e das mães de seus pais, saber
da árvore que a partir da raiz
chega até nós, e abrange

a família que nos cabe,
olhando para os ramos,
as flores e os frutos,
para as folhas caídas

no Outono, para os corpos
viçosos ou enxutos,
para a seiva que nutre

o abandono: pudéssemos 
saber dos que nos são, e até
dos nascituros, porque não?

Domingos da Mota

[inédito]

9.3.17

[Os velhos são manhosos]

Os velhos são manhosos.

Demoram-se a apanhar a fruta, sabem
que sabem esticar o braço antigo até aos primeiros figos,
que podem saber chegar ao fim da figueira.
Os velhos arrastam os pés em direcção à saída,
esgotam-se ao sol seguinte.
Cortam-se por vezes no vidro de emergência,
no buraco para o exterior.
Têm visões extraordinárias,
receitas específicas para o barroco do poema
e do mel.

Escrevo para os velhos.

Filipa Leal

VEM À QUINTA-FEIRA, Assírio & Alvim, Porto, 2016

6.3.17

Senhora da pós-verdade

Senhora da pós-verdade,
dizei-me, porque mentis
com a naturalidade
dum Pinóquio sem nariz
que se veja de verdade,
mas que cresce, oh se cresce,
porquanto a fatuidade
do seu umbigo parece
ser o exemplo perfeito
de como a venalidade
desdobrada num conceito
de aparente inocuidade,
não se esgota no filão
dos erros de percepção.

Domingos da Mota

[inédito]

4.3.17

O mesmo

Por muito semelhante que pareça,
é sempre diferente o que se vê,
e mesmo que a diferença se esvaneça
ou finja ser aquilo que não é,
a sua parecença, se olhada
de perto, com rigor, com precisão,
mostrará, quando muito, a camada
primeira do objecto de visão.
E ainda que pareça ser igual,
o mesmo não será, mesmo que seja
idêntico ao que os olhos podem ver:
no decurso do tempo, é natural
que mude muito mais do que deseja
e possa transformar-se noutro ser.

Domingos da Mota

[inédito]

1.3.17

O ANJO PERPLEXO

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos,
nem ícone que proteja, nem oração que console,
nunca houve milagres ou prodígios,
nem salvação da alma ou vida eterna;
nem palavras mágicas, nem bálsamo eficaz
contra a dor que nunca cicatriza;
nem luz do outro lado das sombras
nem saída do túnel, nem esperança.
Só nos acompanha nesta travessia
um anjo perplexo que suporta
como nós a mesma penosa vida.

Amalia Bautista

Jorge Sousa Braga, SOMBRAS BRANCAS, Setenta e sete poemas sobre anjos caídos de outras línguas, Língua Morta, Novembro de 2016