A solidão pelas razões erradas avinagra a alma,
a solidão pelas razões certas lubrifica-a.
Que frágeis que somos, entre os raros momentos bons.
Indo e vindo incompletos,
intrigados com o destino,
como o relevo inacabado
de um burro caído, por cima de uma porta de igreja na Finlândia.
Vineger and oil
Wrong solitude vinegars the soul,
right solitude oils it.
How fragile we are, between the few good moments.
Coming and going unfinished,
puzzled by fate,
like the half-carved relief
of a fallen donkey, above a church door in Finland.
Jane Hirshfield
a mulher do casaco vermelho, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Colecção Poetas da Eufeme, Edições de Sérgio Ninguém (Eufeme), Julho de 2017
Falava de incêndios e de lugares
perdidos, dessas trovoadas
que só acontecem na infância
e nos perseguem depois
uma vida inteira. Estamos
em Julho, nunca fez tanto calor.
Não, corrige Benilde,
"Estamos num velório,
andam aí as moscas, a dançar".
Nesta taberna, volto a perceber,
o poeta fica por detrás do balcão
e oferece-me num largo sorriso
cansadas, certeiras palavras:
"Sou um ser vivo e humano.
Até os vermes são vivos".
-- Que lhes aproveite, Dona
Benilde, a nossa morte,
estas tardes que prefiro a tudo
e a sombra, o manso prodígio da sombra.
Manuel de Freitas
A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, Lisboa, 2005
um romance é que era!...
dizem-me olhando de lado
os poemas
longos
magros
enguias pensantes
agarradas ao papel
do centro de reabilitação
um romance é que era
com acção tempo
uma casa inteira
da raiz quadrada
ao tecto
corredores a dar
para personagens
ténues
não totalmente
apatetadas
(sepultemos realismo
experimentalismo
e deus nos livre
do pós-colonialismo)
um romance é que faz
virar as cabeças na rua
calça mesas
duplica escaparates
expande a crítica
constipada
no seu casulo refinado
agora a conveniente
pausa descritiva
logo seguida
de autoconsciência
referencial
à guitarra e à viola
um romance é que era!...
sobrancelha arqueada
entre a cobiça e a paráfrase
Rosa Oliveira
tardio, Edições Tinta-da-china, Lda., Março de 2017
Eu posso abrir aqui uma simples cratera.
Basta soprar o ar, estender braços e pernas,
dizer que sim ao corpo
e não enlouquecer.
É um lugar em branco, afundado no mundo.
A luz que o ilumina ele próprio
há-de gerá-la.
Por mais negra que seja será dele.
Então a vida vibra.
Os animais virão com músculos e raízes.
O reino vegetal trará as suas crias.
E a mão dura do sol será um bago de uva.
Uma simples cratera,
um poiso para os deuses, um riso sem paredes,
branquíssimo lugar,
uma pedra, um pão, uma só palavra.
Armando Silva Carvalho
A SOMBRA DO MAR, Assírio & Alvim, Julho de 2015