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8.9.21

VIAGEM NA GRÉCIA

Visitando esta espécie de país
Demos com um pastor à beira-estrada,
Perito das ovelhas e de nada,
Mostrando os podres dentes pastoris.

Infelizmente o sol de mau cariz
Foi que nos trouxe à erma serra parda,
Turistas enfadados de alma à banda,
Heróis com menos olhos que nariz.

Falou dos alemães, da guerra suja,
Das casas destruídas, do penar,
Da morte que com vida nos intruja.

Os figos ali, e ele a falazar!
Ele que se vá antes que o sol fuja,
Que eu quero roubar figos pró jantar!


Manuel Resende

Poesia reunida, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

29.1.20

SEM TÍTULO

Um lago de luz negra sorveu-te os olhos
Com eles te arrastando e todo o peso do mundo
Cai na mesa onde estás deitado.
Só um vago sorriso ficou de fora
E é só de dentro que nos falas.

O tempo, enfim, deixou-te em paz,
Selou-te o coração com a última rubrica
Mas vem limpar em nós a sua faca.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril, 2018

25.5.18

COMENDO UMA CEREJA

Como uma cereja e,
Comendo a cereja, o meu corpo
Pede as cerejas todas do mundo,
Mas não posso comer as cerejas todas do mundo,
Pois faltam-me as cerejas que comeram
Sócrates, Hipasos de Metaponto
E os velhos camponeses da Gália,
Ou até os escravos de Roma.
Assim, como uma cereja
E deixo o gosto de a comer
Ficar em mim pelo gosto
De todas as cerejas que possa haver.
Uma cereja como todas as cerejas,
Uma cereja por todas as cerejas.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

24.4.18

KOLYMBÍTRIA

O absoluto não é ter muitas coisa juntas,
Mas o quase nada que vibra no fim da tarde,
Quando as pedras se iluminam de dentro,
Com já saudades do sol que vai partir.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018