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22.7.24

RIZOMAS

As vozes dos poetas
que ouço desde criança
são caules submersos na minha fala
a enviar o rumor das raízes

Todos eles navegam
na superfície da minha língua materna
transportando saberes e ignorâncias
transmitindo negrumes e fulgores
cumprindo desvios e sentidos
na ameaça da certeira eternidade
do pó.


Inês Lourenço


Ainda o Lugar Incerto da Procura, Edição Glaciar, Lisboa, Agosto de 2024

4.2.24

INSULTO AO POEMA

O poema não é lindo
como tantas vezes acham alguns ingénuos
e maus leitores. Pode ser dúvida dor ou disfarce
e tantas outras coisas começadas por d como
devastação desistência despedida ou
por r como raiva rasura ressurreição. Lembro
sempre os versos de Ana Hatherly
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta.

Inês Lourenço

in Inês Lourenço, As Palavras Beijam Sem Carga Viral, pág. 6,
e Andreia C. Faria, Este Fresco Sanatório para o Sangue,
Editor Câmara Municipal do Porto, Porto, agosto de 2021

7.11.22

A FURTIVA ALEGRIA

Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.


Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, & etc Julho de 2010

22.12.21

CARTUCHO DE CASTANHAS

Vem da infância
e de uma cidade molhada esse cheiro
ímpar de um pequeno carro de cor neutra
envolto em fumo. Brasas
no estalido de cascas aquecendo
as nossas mãos friorentas. O sabor
macio e doce confortava
as árvores despidas. Esvaziado o cartucho
ficava no corpo a quentura
de um abraço materno
ou beijo enamorado.

Inês Lourenço

As Palavras Beijam Sem Carga Viral, Editor Câmara Municipal do Porto - Museu da Cidade, Porto, agosto de 2021

7.11.19

La Maja Desnuda

Ao fundo da sala olhava-me humana e natural
como teria olhado Goya com os braços nus erguidos
atrás da nuca. Todo o corpo
desvendado e sem sombras mitológicas
a esconder a penugem do púbis. Por essa ousadia
inaugural da arte do nu bramiram inquisições
e até outra tela com o nu vestido
cumulou a penitência do herético pintor para ocultar
o inicial desbragamento que permaneceu oculto
mais de um século. Hoje as duas
telas estão na mesma sala descobrindo
a incontáveis visitantes
a impotência das mordaças da Arte.


Madrid, Museo del Prado

Inês Lourenço

Eufeme n.º 13 Magazine de Poesia (Outubro/Dezembro 2019)

7.10.19

O MEU MELHOR ÂNGULO

Prefiro o agudo. Muito menos o recto
e nunca o obtuso. O raso adormenta
todas as audácias e o adjacente agrega-nos
em parede mútua e indissolúvel. Assim,
é no estreito e resguardado vértice
do agudo que apetece ficar, abrigada
do rotundo e celebrado círculo.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, Lisboa, Julho de 2010

22.4.19

GANHOS - PERDAS

Ganhar é quase sempre
um verbo obsceno. Porque para um vencedor
há sempre outro que perde a quem chamam
vencido. E assim a sábia Natureza
e as coisas que a habitam
estão provavelmente enganadas. Porque
uns se derrotam aos outros sendo
que alguns muito ganham e outros
muito perdem. Mas
os perdedores são sempre o sal da Terra.

Inês Lourenço

O Jogo das Comparações, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Outubro de 2016

25.1.18

DISJUNTIVA

Ter um gato no colo ou
vestir uma criança mudar uma cama
de lavado ou fazer uma canção
é muito mais belo
do que carregar uma arma dar pontapés numa bola ou
pilotar um motor ruidoso. Só que há
pouca gente para dar por isso.

Inês Lourenço

TELHADOS DE VIDRO  N.º 22 . NOVEMBRO 2017, Averno, Lisboa

23.4.17

PARA UM LIVRO

O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, 2010

8.12.16

PEDRAS

Morar no tempo, mesmo
soterradas, coexistir no ofício durável da
neutralidade: dólmen menir pirâmide ameia
agulha gótica ou soleira
humilde, espelho duradouro
de poderes e impudores, brasão
seixo alvo fonte ou pedra de
arremesso, de jogar, de roçar à espera de
fertilidade, de esmigalhar, urinar,
sepultar. Vértebra
do mundo.

Inês Lourenço

O JOGO DAS COMPARAÇÕES, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Outubro de 2016

29.4.12

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

Inês Lourenço

Sete poemas, in Revista de Poesia Relâmpago N.º 28, Abril de 2011, Ano XIV.

12.4.12

OXÍMORO

Desde a esfinge de Tebas
à águia dos impérios,
das sandálias dos deuses
aos anjos de Rilke,
também as asas pertencem
aos efémeros insectos,
às aves domésticas ou
ao último abutre
que limpa selvas e planuras
da podridão da morte.


Inês Lourenço


A ENGANOSA RESPIRAÇÃO DA MANHÃ, ASA Editores II, S.A., Porto, Abril de 2002

5.1.12

CONSOANTES ÁTONAS

Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, Junho de 2010

7.10.11

ALMAS

Sempre admirei dos bichos
a magnífica destreza. Mesmo sem
alma, filosofia ou pátria,
defendem os limites
da pele e dos ameaçados territórios
onde se ocultam, no auge vital dos parcos anos.

Sempre admirei o desinteresse
soberano com que as fêmeas assistem
às competições masculinas e como
se mantêm independentes
e mestras na arte da caça
e sustento das crias, sem pensão
de alimentos ou outras demandas.

A sua maior tragédia
é serem tantas vezes criados
para serviço e digestão de bípedes
com alma, pátria e filosofia.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa, Julho de 2010