Tendo em conta o agrafo retorcido,
o pós-operatório umbilical
com o desbridamento da ferida
em segunda intenção (acidental?)
que o deixou agastado com o modo
como foi suturado no bloco,
sem tomar a parte pelo todo,
não afasta o olhar nem muda o foco:
e sente que o grampo, esse descaso
causador de infecção (e até de azia)
lhe aumentou o receio: se outro caso
vier a acontecer, não gostaria
de somar no futuro (quantos anos?)
mais descuidos, agrafos, desenganos.
Domingos da Mota
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
31.8.26
21.8.26
Silogismos do medo
a Alexandre O'Neill
Em forma de assim cá vamos,
ou pior, em forma disto,
e aturdidos coçamos
as verrugas do imprevisto;
em forma de quem nos pôs
a dois passos do abismo,
e mal erguemos a voz
e levantá-la é preciso
contra a dolosa urdidura
de quem manobra o enredo
(para cevar a usura)
com silogismos do medo.
Domingos da Mota
12.8.26
O eclipse
a Amadeu Baptista
Será cego quem não vê
sem óculos especiais
o progressivo eclipse
dos direitos sociais?
12 de Agosto de 2026
Domingos da Mota
1.8.26
OLHAR PARA TRÁS
Cambaleante sai do vão da sombra
com seu passo de pássaro cansado.
Há muito que não fende o ar em vôo planado:
agora arrasta os pés por um atalho
na montanha, até chegar ao cume,
donde se avista o caminho andado.
António Barahona
RASPAR O FUNDO DA GAVETA E ENFUNAR UMA GÁVEA, Averno | 2011
com seu passo de pássaro cansado.
Há muito que não fende o ar em vôo planado:
agora arrasta os pés por um atalho
na montanha, até chegar ao cume,
donde se avista o caminho andado.
António Barahona
RASPAR O FUNDO DA GAVETA E ENFUNAR UMA GÁVEA, Averno | 2011
28.7.26
Aqui há gato!
Aqui há gato!
O cão-polícia
intimorato
ante a malícia
fariscará
sacos e saques,
sacos azuis,
salamaleques
de colarinhos
brancos e pardos,
alaranjados
e doutras cores
e apanhará
alguns deslizes,
negociatas,
quiçá, narizes.
intimorato
ante a malícia
fariscará
sacos e saques,
sacos azuis,
salamaleques
de colarinhos
brancos e pardos,
alaranjados
e doutras cores
e apanhará
alguns deslizes,
negociatas,
quiçá, narizes.
Domingos da Mota
15.7.26
Poema pós-setenta
Quem para as partes de baixo
outro tal remédio achara!
Tomé Tavares Carneiro
Não carecesse de lupa
para ver a natureza
que mingua e preocupa
quem a viu com mor grandeza,
e antes que a toalha
seja atirada ao chão,
ora agora que lhe valha
na hora da micção.
Não carecesse de lupa
para ver as miudezas,
as rugas em catadupa,
as depressivas molezas
que pior que friolentas
continuam ciumentas.
Domingos da Mota
6.7.26
A meia adriça!
De um país tocado a ver a bola,
os olhos na pantalha ou no relvado,
que discute as jogadas, mata, esfola,
escalpeliza o jogo e o resultado,
e cumpre piamente essa função
e assiste com fervor à nova missa,
ao debate acirrado ou ao sermão
(e esconjura a bandeira a meia adriça);
de uma nação assim, arrebatada
que se julga a melhor entre as melhores,
e quando joga mal e é derrotada
vitupera os seus, e diz horrores
dos antigos heróis a quem verbera
com ferrenha paixão, o que se espera?
os olhos na pantalha ou no relvado,
que discute as jogadas, mata, esfola,
escalpeliza o jogo e o resultado,
e cumpre piamente essa função
e assiste com fervor à nova missa,
ao debate acirrado ou ao sermão
(e esconjura a bandeira a meia adriça);
de uma nação assim, arrebatada
que se julga a melhor entre as melhores,
e quando joga mal e é derrotada
vitupera os seus, e diz horrores
dos antigos heróis a quem verbera
com ferrenha paixão, o que se espera?
Domingos da Mota
3.7.26
Quiproquó
Quando perguntas por alhos
e recebes em resposta
meia dúzia de bugalhos
ou outra coisa que arrosta
uma carga de trabalhos
para opores que a questão
não tem a ver com bugalhos,
mas com os alhos, então,
por muito que possa haver
acuidade e cortesia,
suportas, é bom de ver,
juntamente com a azia,
um sério aperto do nó
que agudiza o quiproquó.
© Domingos da Mota
e recebes em resposta
meia dúzia de bugalhos
ou outra coisa que arrosta
uma carga de trabalhos
para opores que a questão
não tem a ver com bugalhos,
mas com os alhos, então,
por muito que possa haver
acuidade e cortesia,
suportas, é bom de ver,
juntamente com a azia,
um sério aperto do nó
que agudiza o quiproquó.
© Domingos da Mota
A corveia
Depois de muitos anos, muitas lutas,
direitos e deveres, contratos mil,
arroga-se um poder de vistas curtas
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de aumentar a avidez com a torpeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
direitos e deveres, contratos mil,
arroga-se um poder de vistas curtas
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de aumentar a avidez com a torpeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Domingos da Mota
1.7.26
26.6.26
Mosca varejeira
Fosse abelha, desse mel,
mas é mosca varejeira
numa guerra sem quartel
contra a abelha-carpinteira.
mas é mosca varejeira
numa guerra sem quartel
contra a abelha-carpinteira.
Domingos da Mota
21.6.26
Ofício
Ofício de verão -
a sede abrasa o canto
insurrecto das cigarras
a sede abrasa o canto
insurrecto das cigarras
Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, edição Busílis, 2018
14.6.26
SUBLEVAÇÃO
Sublevas a luz:
macia de veludo
tua pele desprende
aromas subtis
e o fulgor alucina
leve desenvolto
num sorriso de sol
e sal quase feliz:
odores que latejam
sensuais translúcidos
apascentam promessas
(meneias os quadris)
e brilham as retinas
que o rubor seduz:
sublevas o lume
a túmida raiz
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
macia de veludo
tua pele desprende
aromas subtis
e o fulgor alucina
leve desenvolto
num sorriso de sol
e sal quase feliz:
odores que latejam
sensuais translúcidos
apascentam promessas
(meneias os quadris)
e brilham as retinas
que o rubor seduz:
sublevas o lume
a túmida raiz
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
17.5.26
O PINTOR BÊBADO
Noite. Bebo. Pinto.
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
(colhido aqui)
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
Antonio Carlos Secchin
Desmentir, Patuá Editora, 2026
(colhido aqui)
28.4.26
ESTALACTITE
VII
O pulsar
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem, Publicações Dom Quixote, 3.ª edição, Setembro de 1969
27.4.26
vita brevis
a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
25.4.26
ELEGIA
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
24.4.26
Abril
De Abril recordo o ano, o mês e o dia
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
21.4.26
TEIA-TRELA
Um poeta senta-se
passa um outro poeta
passa um outro poeta
O poeta levanta-se
diz-lhe "bom dia!"
O outro
diz-lhe "bom dia!"
O outro
simplesmente passa
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
12.4.26
ESTRATÉGIAS
1.
Água
pedras (sem arestas)
artefactos de cerâmica
espátulas de madeira
tersórios
esponjas marinhas
folhas de couve
conchas
pescoços de ganso
(os preferidos de Rabelais)
rolos de papel
2.
Na falta de papel
até um poema serve
Jorge Sousa Braga
A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024
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