24/03/2019

ENTERRO DE CARAVAGGIO

não houve música
no enterro de Caravaggio
em vida como na morte
cercou-se de mendigos
crianças de rua
prostitutas e marinheiros
de negro vestiu o sagrado
e dava-lhes de beber
em vez de música correu vinho
no enterro de Caravaggio
e esqueceram
onde enterraram o seu corpo
nada, além da morte, nada
dizia que seria
passado em azul áspero
e seu nome diluir-se-ia com a treva
enganou-se
na Toscânia
certo dia de Sol
li num muro

Voglio Solo Stare Con Te, Caravaggio

Ivo Machado

ORATÓRIA, Busílis (Tropelias & Companhia - Associação Cultural) Trinta Por Uma Linha, Dezembro 2018

22/03/2019

BARCO

um barco
de proa apontada
para o nada
serve de colorido
a uma tela de fim de tarde.

as tintas dão vida
ao barco encalhado
num porto de abrigo.

Eduardo Roseira

SEM VÓS, Naucatrineta, 2019

15/03/2019

Por tentativa e erro

Aos que erram
Aos que falham
Aos que caem

Mas não desistem
E levantam-se
E continuam

(Por tentativa
E erro)
Até

Ao achamento
À nova
À descoberta

Domingos da Mota

[Inédito]

13/03/2019

Mulher

     Metade mulher    metade sonho

     Jorge Sousa Braga


Metade terra    metade lua
Metade céu    metade averno
Metade sol    metade chuva
Metade verão    metade inverno

Metade outono - a primavera
Mais que metade  (de vida grávida)
Metade eterna    metade efémera
Metade ansiosa    metade impávida

Metade recta    metade curva
Metade côncava    metade convexa
Metade lúcida    metade turva
Metade simples    metade complexa

Metade amora    metade maçã
Metade rosa    metade espinho
Metade noite    metade manhã
Metade urze    metade linho

Metade rua    metade casa
Metade beijo    metade abraço
Metade colo    metade asa
Metade mulher    metade pássaro

Domingos da Mota

[inédito]


03/03/2019

Do juízo

    
Ajuizar o juízo,
como se fosse ciência,

a partir do pré-juízo,
da vulgar mundividência,

será douto, será recto,
será muito ajuizado,

tendo em conta o desacerto
da sentença, do acórdão,

e do trânsito
em julgado?

Domingos da Mota

02/03/2019

ESCARAMUÇAS

Pequenos fantasmas (à minha dimensão)
provocam-me, alvoroçam-me as entranhas
do mesmo modo que as urtigas
me alvoroçam a pele.

Às duas por três, esgota-se-me a paciência,
e eis-me em guerra aberta contra eles.

Disparo então os meus quíries rotundos,
ineficazes como balas de borracha,
e eles ripostam com as armas que têm:
vaias, doestos, manguitos, carantonhas,
línguas de fora.

Há sangue (mas pouco) de parte a parte.
Por fim, os beligerantes retiram
cada qual para seu lado do campo de batalha,
lambendo as feridas.

E eu lambo as minhas com volúpia,
impaciente da próxima escaramuça.

Porra, mas alguém acredita nisto?

A. M. Pires Cabral

Telhados de Vidro N.º 23 . Novembro . 2018

23/02/2019

Curta-metragem

Era baixo
e o pescoço
curto e largo
até parecia

ter um osso
em vez da
maçã-de-adão.
E fazia finca-pé.

E falava
alto e grosso.

Domingos da Mota

18/02/2019

MUSA, SINCERAMENTE

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e outros promotores
da realidade? Eu sei que não identificas  real
com verdadeiro, nem sequer com existente,
mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,
por brilhante que seja, neste mundo de gritos,
de sementes apagadas em lameiros de cimento?
Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste
falar da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te
capaz de competir com traficantes de desejos,
decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um
desempregado, de excitar um espírito impotente?
Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo
Quaresma, proteger do frio as andorinhas,
transportar as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.

José Miguel Silva

LADRADOR, AVERNO | 2012

12/02/2019

Xerazade

Há quase mil noites que estou a inventar,
dói-me a cabeça, tenho a língua
seca e esgotadas as capacidades
e a imaginação. Nem sequer sei
se as minhas mentiras me salvarão.


Sherezade

Llevo casi mil noches fabulando,
me duele la cabeza, tengo seca
la lengua y agotados los recursos
y la imaginación. Y ni siquiera
sé si me salvaré con mis mentiras.

Amalia Bautista

Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Eufeme magazine de poesia 10 Janeiro/Março 2019, Editor Sérgio Ninguém 

11/02/2019

NOSTALGIA

Cada vez mais escassos
os momentos que quero recordar:
alguma manhã de Primavera,
alguma tarde de Outono,
algum instante em que ocorreu
desistir de imaginar
como será o mundo,
depois de o abandonar.

José Alberto Oliveira

Telhados de Vidro, N.º 23 . Novembro . 2018, Averno, Lisboa

09/02/2019

Canivete

A cheirar ainda a laranjas
depois de anos nesta gaveta
entre botões, clipes,
envelopes e óculos velhos...

uma prenda tua;
destinado a cortar,
é a coisa que nos liga
de algum modo.


Penknife


Still smelling of oranges
after years in this drawer
among buttons, paperclips,
envelopes, old specs ...

a present from you;
designed to sever,
it's the one thing
that somehow connects.

Pat Boran

o sussurro da corda, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições Sérgio Ninguém/Eufeme, Dezembro 2018

06/02/2019

POEMA

Para o banquete com talheres de prata
chegam os poetas com as musas ao colo
elas todas nuas
eles de gravata

servem-se as lagostas
ao som do piano
e depois a carne
carne de licorne
desce de aeroplano

tudo com muitos vinhos
de vários sabores
por copos infindos
como são os amores

e após o banquete
entre aves canoras
os poetas e as musas
saem para o espaço
em camas voadoras

António José Forte

Uma Faca nos Dentes, Prefácio de Herberto Helder, Desenhos e fotografias de Aldina, Parceria A. M. Pereira Livraria Editora, Lda., Lisboa 2003

04/02/2019

DESESPERO

Nem a alegria nem o amor
poderemos esquecer à entrada dos bosques
quando regressamos,
quando uma rosa de sangue se abre de
par em par
nas janelas abertas pela pancada dos
ventos.
E aí,
caminhando para as fontes,
as mulheres do silêncio, as irmãs, as mães,
enchem os cântaros da sua melancolia.
Já se foram embora,
já ninguém as vê,
quando ao anoitecer as chaminés soltam
o fumo,
e mais longe, debilmente,
se ouve uma canção desesperada.

José Agostinho Baptista

ANJOS CAÍDOS, Assírio & Alvim, Outubro 2003

20/01/2019

17/01/2019

12/01/2019

INSTRUÇÕES

Aperte o cinto em caso de emergência
É proibido falar com o motorista
Favor deixar a grana da gorjeta
Não alimente o pombo ou o turista
Libere o pombo em caso de polícia
É permitido beijar o manobrista
Evite circular pela direita
Tem gente demais por essa pista

Antonio Carlos Secchin

DESDIZER, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S.A., Lisboa, abril de 2018