24/11/2020

vai-ficar-(quase)-tudo-bem

mal a pandemia se escafeda

mal a pandemia dê de frosques

mal a pandemia sai ou ceda

à pressão dos ataques e remoques


mal a pandemia nos deslargue

mal a pandemia entre em coma

mal a pandemia chegue ao fim

mal a pandemia


morra, Pim!


© Domingos da Mota

22/11/2020

NA PARTE DE TRÁS DO REAL

Na parte de trás do real

largo da estação de San José

vagueava acabrunhado

perto de uma fábrica de tanques

e sentei-me num banco

ao pé da guarita do agulheiro.


Uma flor jazia no feno que jazia

no asfalto da auto-estrada

- a temida flor do feno,

pensei eu. Tinha um caule

negro quebradiço e uma 

corola de picos sujos

amarelados - picos longos como

os da coroa de Jesus -, e no centro

um sujo tufo de algodão

como um pincel de barba usado

guardado no meio de coisas velhas

na garage há mais de um ano.


Flor, flor amarela, e

flor da indústria também, 

flor forte agreste e feia,

mas flor de qualquer modo,

com a forma da grande rosa

amarela do teu cérebro!

Esta é a que é a flor do Mundo.


     (Do volume Howl and other poems)


Allen Ginsberg


UIVO (e outros poemas), Selecção e tradução: José Palla e Carmo, Publicações Dom Quixote, 1973

18/11/2020

Ruínas

Por onde quer que tenha começado,

pelo corpo ou pelo sentido,

ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,

como num sono agitado interrompido.


O teu nome tinha alturas inacessíveis

e lugares mal iluminados onde

se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam

e deveria talvez ter começado por aí.


Agora é tarde, do que podia

ter sido restam ruínas;

sobre elas construirei a minha igreja

como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.


Manuel António Pina


COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011

16/11/2020

Mancheia

Mancheia de boas intenções.

Mentiras piedosas?

Ilusões?


Vamos ficar todos bem.

Todos?

Quem?


© Domingos da Mota

13/11/2020

RETRATO

Quando menino encompridava rios.

Andava devagar e escuro - meio formado em

silêncio.

Queria ser a voz em que uma pedra fale.

Paisagens vadiavam no seu olho.

Seus cantos eram cheios de nascentes.

Pregava-se nas coisas quanto aromas.


Manoel de Barros


Compêndio para Uso dos Pássaros, Poesia Reunida 1937-2004, edições Quasi , Junho de 2007

09/11/2020

O veneno existe ao meu lado

O veneno existe ao meu lado

diz-me que é feliz

subitamente tira a mascarilha.

Canta na sua voz rouca

o barroco ou a essência de um cometa

de infinitas mutações.


Palavras incandescentes

que deixo à guarda dos teus silêncios

logo ali lançam raízes

na primavera

florescem em mil bocas sequiosas.


Sete óvulos

passaram por este leito

tinto de sangue

e de vinho.


Mas quando a noite por fim me visita

vem exausta.


Então olho-te como a luz me olha

como uma ininterrupta jogada com o tinteiro seco

como o momento preciso

em que o espelho encontra a árvore,

perdida no labirinto.


                                                                                              Áfricas 60


Artur do Cruzeiro Seixas


Obra poética - I [Organização de Isabel Meyrelles], Porto Editora: Junho de 2020

07/11/2020

Animus nocendi

É sem preço a coluna 

vertebral mantida erecta.


Por que preço, quem se curva, 

numa permuta secreta 


de arranjos contranatura,

como acabam de fazer


(com despóticas urdiduras), 

para ascender ao poder?


© Domingos da Mota

05/11/2020

CAÇA ÀS BRUXAS

Blusa de decote grande, saia

azul comprida, sandálias pretas,

anda por aqui perto, voando

de ramo para ramo com

asas incansáveis, reservando

bilhetes de comboio, assinando

um contrato, pagando contas.

Melhor deixar poemas inacabados,

interrompidos a meio, num país

onde uma mulher pode ser morta

porque um boato assim o quis.


*


WITCH HUNT


In slutty, long blue

skirt, black floaters, she's

somewhere around, flitting

from branch to branch on

quicksilver wings, booking

rail tickets, signing a lease,

paying bills. Best to leave

poems unfinished, aborted

midway, in a country

where a woman can be killed

because a rumour willed it.


Arvind Krishna Mehrotra


ASSINATURA DE  ZAYN-UL-DIN, Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Edição Busílis, setembro de 2020

04/11/2020

VAN GOGH, MILHEIRAL COM COTOVIA

Mais do que pintor

ele queria ser poeta,


assim, ao tentar

pintar o barulho


da cotovia a ascender

direita ao céu


sobre o milheiral,

Van Gogh pintou a cotovia.


*


VAN GOGH, CORNFIELD WITH LARK


He wanted to be a poet,

more than a painter,


so when van Gogh tried

to paint the sound


of the lark as it ascended

into the sky


above the cornfield,

he painted the lark.


J. R. Solonche


UM PEQUENO LIVRO AZUL, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Edição Busílis, outubro 2020

02/11/2020

Estado de emergência

Decretam novas medidas,

prolongam medidas velhas:

umas serão desmedidas,

outras, caldos e cautela.


Onde a cautela e os caldos

de galinha já não bastam,

fortalecem-se os respaldos,

mas as dúvidas alastram.


© Domingos da Mota

30/10/2020

Pequeno ensaio sobre o achismo

O sábio não sabe tudo

(e tanta coisa ignora).

O ignorante, contudo,

acha da boca para fora.


© Domingos da Mota

28/10/2020

MOVIMENTO

Viajo para fora do meu corpo, e dentro de mim há continentes

que não conheço. O meu corpo

é um eterno movimento no exterior de si.

Não pergunto: De onde? Ou onde estavas? Pergunto, para

                                                                     [onde vou?

A areia olha-me e transforma-me em areia,

e a água olha-me e irmana-me com ela.


Na verdade, não há nada para obscurecer a não ser a memória.


Adonis


O Arco-Íris do Instante - Antologia Poética, Introdução, selecção e tradução de Nuno Júdice, Publicações Dom Quixote, Outubro de 2016