um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. João Cabral de Melo Neto Falo de Abril, da torrente breve: do rio grande, quase nu: revolto galgou as margens, inundou. (Rebelde resiste ainda num riacho rouco). Falo de Abril, de Maio, do verão, do verão cheio, sublevado, vivo nas fontes sequiosas deste chão: deste chão de pé: jamais cativo. Domingos da Mota Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
no principio era o beijo envolto pelo abraço que ateou o desejo com lesto desembaraço entre a língua e os dentes em busca da outra língua deixando as duas frementes a saciar-se da míngua tal a fome a sede louca da volúpia boca a boca
bebe vinho, ele te devolve a alegria da juventude; a estação divina das rosas, dos amigos sinceros, a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta desse fugidio momento que é a tua curta vida.
Omar Khayyam
versões de José Queiroga
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar, vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse porque os dias passam sobre os dias e de perscrutar a essência de deus nas geometrias ainda se podem encontrar alguns vestígios. às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas, e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam que alguém vindo do vento os denomine: um selim, maçãs, tílias, mulheres, um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
Em tudo o que fui ou que não soube Ou não pude ser Procuro as palavras exactas para esta manhã De um domingo de inverno
Em que a luz tem a transparência Do verão Procuro uma carícia que possa dizer Que venho de muito longe Para este gesto Tão breve E de repente Todas as coisas Se tornaram claras Simples Ou
José da Cruz Santos José da Cruz Santos: O poeta disfarçado. Entrevista e poemas inéditos Autor: Francisco Duarte Mangas, Fotografia, Carlos Cunha, Edição, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Novembro de 2025
não declines nem te ausentes em subjectivos lastros cantemos de voz túrgida mas cantemos os nossos mortos não perdoam a cobardia e o silêncio que teima em algemar-nos
Domingos Lobo
quotidianos e outras noites, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Junho de 2020
Lá vão eles outra vez, Os Ianques e as suas blindadas paradas Entoando as suas baladas de alegria A galope pelo vasto mundo Louvando o Deus da América.
As sarjetas estão entupidas de mortos Dos que não puderam alistar-se Dos outros que se recusam a cantar Dos que estão a perder a voz Dos que esqueceram a música.
Os cavaleiros têm chicotes que ferem. A tua cabeça rola para a areia A tua cabeça é uma poça no lixo A tua cabeça é uma nódoa no pó Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz Fareja apenas o fedor dos mortos E todo o ar morto está vivo Com o cheiro do Deus da América. Janeiro 2003
Harold Pinter Guerra, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, edições Quasi