17.5.22

16.5.22

(Cala-te boca)

Não foi num hospício
(Parecia, mas não era)
Que louvou os benefícios
Líquidos da guerra

Saudando os negócios
Que a guerra incentiva,
Modismos e ócios
De vento em popa

E sólidos ganhos:
(Cala-te boca).



© Domingos da Mota

15.5.22

EM PARTE INCERTA

Dizem-me
que a última vez que a minha musa foi vista
ia de armas e bagagens, às arrecuas, como que sugada
por um vento que soprasse às avessas.

Desde então tem estado ausente
em parte incerta.

Mas pelo menos podia telefonar.


A. M. Pires Cabral

de TRÉS POEMAS SOBRE POESIA, Nervo / 14, colectivo de poesia, maio-agosto 2022, Editora: Maria F. Roldão

11.5.22

Motes

Rodeado de holofotes,
sempre de língua afiada,
diz, comenta, propõe motes
sobre tudo e sobre nada.


© Domingos da Mota

10.5.22

ESTE ANO

Este ano cresceu de joelhos
a noite conservou as quatro luas
as crianças têm seus cabelos
seus gritos de paz intransmissíveis


Luiza Neto Jorge

poesia 1960-1989, 2.ª edição, organização e prefácio Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, Setembro 2001

1.5.22

Mãe

Tu que foste
Tu que és
Tu que serás
Tu que concebeste

E que pariste
Tu que deste o colo
E amamentaste
Tu que choraste

E que sorriste
Tu que educaste
E acompanhaste

Tu que és
Tu que serás
Tu que partiste


© Domingos da Mota

30.4.22

A SITUAÇÃO FAZ-SE DELICADA

Basta olhar para o sol
Através de um vidro fumado
Para ver que a coisa vai mal;
Ou vocês acham que vai bem?

Eu proponho voltar
Aos carros puxados a cavalo
Ao avião a vapor
Aos televisores de pedra.

Os antigos tinham razão:
É preciso voltar a cozinhar a lenha.


Nicanor Parra

ACHO QUE VOU MORRER DE POESIA, Selecção, tradução, prólogo e notas de Miguel Filipe Mochila, Língua Morta, Outubro de 2019

28.4.22

O fanático

O fanático da guerra,
se acaso a guerra esfria,
e uma débil luz ao fundo
do túnel se anuncia

no sentido de traçar
e propor um armistício,
não deixa de verberar,
não vá a paz virar vício.

O que persegue o fanático
- que não seja fabricante
nem traficante de armas,
mercenário ou mandante

que lucre com tais bisarmas?
Será louco ou lunático,
armado em boquirrota,
ou simplesmente idiota?

© Domingos da Mota

26.4.22

PHOKYLIDES

Phokylides diz: são velhacos
os de Leros. Não é este
ou aquele, são todos.
Excepto Prokles. E Prokles?
É de Leros.


Phokylides

Poemas da Antologia Grega, versões de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2018

22.4.22

O nó górdio

Ai de quem mostre que não,
não vai ouvir o sermão
que enaltece a cruz de ferro,
nem somar mais erro ao erro,

dizendo por que razão:
que não apoia nenhum
dos lados que se guerreiam.
Levanta-se um tal zunzum,

pois são tantos os que odeiam
tal modo de proceder,
que nesta fase da guerra
quem mantém os pés na terra

é um alvo a abater.
Pior mesmo se defende
que a paz se negoceie:
acusado de que pende

para o lado que incendeia
a terrível invasão,
mesmo que prove que não,
nada o liga ao agressor,

ouve pragas e insultos
de toda a casta de vultos,
bolçados com estridor.
Só falta fazer fogueiras

para queimar os hereges.
Açulam de mil maneiras
os cães de guerra, as falanges,
as hordas de mercenários.

Como a mentira constrange,
seguem o facho do ódio:
desatarão o nó górdio,
ou antes pelo contrário?


© Domingos da Mota

20.4.22

SOB UM QUADRO

Onda de trigo por bandos de corvos invadida.
Azul de que céu? Do de baixo? De cima?
Flecha tardia, desde a alma despedida.
Zumbido mais forte. Ardor mais próximo. Dois mundos.

Paul Celan

Não Sabemos mesmo O Que Importa - Cem Poemas
, Tradução e Posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio D'Água Editores, Outubro de 2014