22/02/2020

Pelo sim pelo não

Retiro o que não disse.
Não vá o diabo dizê-las.

Paulo Jorge Borges

Um ócio todo estendido, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Dezembro de 2019

20/02/2020

SE BEM QUE SEJA OUTONO

Se bem que seja outono
e véspera d'inverno,
eu canto a primavera,
nela o meu estro ponho,

que és tu, ilimitada
tão constante presença,
o ar purificado
que sempre de ti vem.

E ali estamos ardendo
sempre desencontrados,
num benéfico espaço
com tão desiguais tempos.

António Salvado

ECOS DO TRAJECTO seguido de PASSO A PASSO, Edição Ricardo Neves Produção, Lda. - A.23 Edições, 2014

19/02/2020

DESENCONTRO

Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussurro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentido, e é apenas som.

Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes apertos de mão,
passeios de braço dado,
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.

António Gedeão

POESIAS COMPLETAS (1956-1967), Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1971

14/02/2020

ARTE MENOR

O amor é onde
quem o sente e quando
o sentir responde
ao que está buscando
se durante a busca
o que acha é tanto
que a visão se ofusca
e cega porquanto
o amor não vê:
tem olhos nos dedos
e gosto no tacto
quando cheira e crê
ouvir os segredos
ocultos de facto

Domingos da Mota

Pequeno tratado das sombras, Edição Busílis, Dezembro de 2018

10/02/2020

Dado o caso

Escolhe entre os erros
que tens à tua disposição,
mas escolhe certo.
Talvez seja errado
fazer o que está certo
no momento errado,
ou esteja certo
fazer o que é errado
no momento certo?
Um passo ao lado,
impossível de corrigir.
O erro certo,
uma vez desaproveitado,
não é fácil que volte a surgir.

*

Gegebenenfalls

Wähle unter den Fehlern,
die dir gegeben sind,
aber wähle richtig.
Vielleicht ist es falsch,
das Richtige
im falschen Moment
zu tun, oder richtig,
das Falsche
im richtigen Augenblick?
Ein Schritt daneben,
nicht  wieder gut zu machen.
Der richtige Fehler,
einmal versäumt,
kehrt nicht so leicht wieder.

Hans Magnus Enzensberger

66 poemas escolhidos e traduzidos por Alberto Pimenta, edições do Saguão, Outubro de 2019

08/02/2020

GOMES LEAL, II

(Grito de Gomes Leal no céu:)

"Cansado de dormir no basalto,
morri e meteram-me numa nuvem de elevador.
E agora cá estou no céu alto
com uma estrela ao peito em vez de flor.

Mas qualquer dia dou um salto.
(Ou peço a um anjo que me transporte
para não quebrar as pernas.)

Estou farto de céu e quero mundo! Quero morte!
Quero dor! Quero tabernas!"

José Gomes Ferreira

Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Campo das Letras - Editores, S. A., Porto, Novembro de 1999

02/02/2020

Um mau exemplo

Nunca quis chegar a sítio algum
nem tampouco a paisagem
me interessou particularmente.

Um pequeno bar de bairro
com uma mesa
de onde ver o mundo apagar
e acender
- debaixo de chuva -
as luzes nos passeios,
chegou-me para ser quase feliz.

Exilado dentro de mim,
nunca à venda
nem a beijar a mão a ninguém,
arrasto a minha epopeia minúscula
- por umas ruas
que nem sequer são já as minhas ruas -
e vou-me afastando.

*

Un mal ejemplo
Nunca quise llegar a ningún sitio/ ni tampoco me interesó/ especialmente
el paisaje.// Un pequeño bar de barrio/ con una mesa/ desde la que ver
el mundo apagarse/ y encenderse/ - bajo la lluvia -/las farolas en las
aceras,/ me ha bastado para ser casi feliz,// Exiliado en mi interior,/ nunca
en venta/ ni besando la mano de nadie,/ arrastro mi minúscula épica/
- por unas calles/ que ni siquiera son ya mis calles -/ y me voy alejando.

Karmelo C. Iribarren

Estas coisas acontecem sempre de repente, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição do lado esquerdo, Coimbra, Setembro de 2019

29/01/2020

SEM TÍTULO

Um lago de luz negra sorveu-te os olhos
Com eles te arrastando e todo o peso do mundo
Cai na mesa onde estás deitado.
Só um vago sorriso ficou de fora
E é só de dentro que nos falas.

O tempo, enfim, deixou-te em paz,
Selou-te o coração com a última rubrica
Mas vem limpar em nós a sua faca.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril, 2018

19/01/2020

QUE TRABALHO

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, com um retrato de Alfredo Cruz e um desenho do escultor José Rodrigues, em edição fora do mercado, numa tiragem de 250 exemplares destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1997

03/01/2020

vita brevis

a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,

é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou

pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,

nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.

Vasco Graça Moura

uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997

01/01/2020

[Saber ganhar nem todos nós sabemos]

Saber ganhar nem todos nós sabemos;
saber perder nem todos conseguimos;
saber olhar o muito que não temos;
saber contar as metas que atingimos;
saber correr parado vendo quem
estuga o passo e acelera e vai
em busca de não sei que coisa nem
se na passada perde o pé e cai;
saber chegar ao pé de quem caiu
e dar-lhe a mão, sorrir-lhe, levantá-lo;
chamar o 112 se o que viu
for mau demais para poder cuidá-lo:
saber no fundo que ignora muito
quem muito sabe de saber fortuito.

Domingos da Mota

31/12/2019

Passagem de ano

Um ano passa; vem outro:
se fosse novinho em folha,
mas de novo tem apenas
a folha do calendário,

o aumento dos impostos,
das portagens, das viagens
e das coisas necessárias
para uma vida frugal.

Contudo, seja bem-vindo
o novo que se anuncia,
enquanto o velho partindo
cospe fogo de alegria.

Domingos da Mota

30/12/2019

[No inverno, a árvore]

No inverno, a árvore
pede à neve:
- Agasalha-me!

Albano Martins

Com as Flores do Salgueiro,  Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995

28/12/2019

[Oh anda ver]

Oh anda ver
uma bola de neve
a arder

Matsuo Bashô

O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO seguido de O CAMINHO ESTREITO, versões e introdução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2003

26/12/2019

SETE PANFLATOS e um provérbio colombiano

6.

Portanto para si acabou a missa do galo!
já lhe disse que estou farta 
de discriminações,
e esta é uma discriminação de base;
não aceito, fim.
Compreendo.
claro que não compreende, os homens
não compreendem da missa a metade!
Quê, da missa do galo?
não é isso, 
mas sabe qual é a discriminação
da missa do galo, sabe?
         .....................................
pois, por que é que não é
da galinha, sabe?
Claro, a galinha não canta!
a galinha não canta!?
Não, nunca ouvi.
então!! depois de pôr o ovo
a galinha não canta?!
Tem razão! e estrelado
é o céu que nós é
nesta noite prometido...
e olhe que escalfado
não lhe fica atrás!
a galinha sabe o que faz
e fica feliz!
o galo não sabe nada e você
também não sabe o que diz!
Então vamos à missa da galinha,
só uma perninha?
isso é outro falar!
mas eu prefiro a asinha.

Alberto Pimenta

ZOMBO, edições Saguão, Lisboa, Maio de 2019

21/12/2019

Outro poema de Natal

E se fosse o Natal a data apenas
do nascimento de um menino algures,
menino que não cabe nos poemas
e que mora na rua de nenhures?

Domingos da Mota

20/12/2019

Boletim meteorológico

Mal prevê as depressões
As superfícies frontais
Baptiza as tempestades
Ciclones furacões
Como fulanos de
Tais

Domingos da Mota

19/12/2019

RIR, ROER

E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,

Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor
Que o homem se veja.

Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...

E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

15/12/2019

Poema de aniversário

Malgrado as contracturas, distensões
(ondas curtas, massagens e correntes),
receitas e alvitres, sugestões
de mezinhas antigas e recentes
para as dores, ora crónicas, reais,
ora agudas, intensas, imprevistas
que por muito que sejam naturais,
não deixam de alarmar e dar nas vistas;
apesar do círculo vicioso
de evidentes erros de postura,
cada dia mais duro, mais custoso,
mais perto de falhar a quadratura;
apesar do que olhas, mas não vês,
bem-vindos sejam os teus setenta e três

Domingos da Mota