15/08/2018

Pintura

O céu não clareou completamente, depois da morrinha
No retiro secreto, a meio da jornada, demasiado preguiçoso
                                                                             para sair
Sentado observo a cor verde do musgo
Ele começa a trepar pela minha roupa.

Wang Wei

HABITAR O VAZIO, Versões e Notas de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne

13/08/2018

AMAR

Amar foi durante muito tempo
gravar iniciais adolescentes,
no fuste das tílias.

Era então uma espécie
de idade de ouro do amor.

Mas tive de aprender à minha custa
que amar pode ser tão envolvente
como um polvo:
ama-se em muitas frentes.

Aprendi que amar, entre outras coisas,
é também navegar nas águas da noite
adultamente
sem bússola e sem cautelas,
à proa fugidia dum batel.

E que, em casos mais desesperados,
é ir aos trambolhões de mar em mar.
Tumultuosamente. Sem ser correspondido.
E em chamas, se preciso for.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

12/08/2018

Dos amigos

Os amigos festivos que nunca se zangam
Os amigos atentos que nunca se zangam
Os amigos fleumáticos que nunca se zangam
Os amigos impávidos que nunca se zangam
Os amigos amorfos que nunca se zangam
Os amigos distraídos que nunca se zangam
Os amigos distantes que nunca se zangam
Os amigos que ouvem cobras e lagartos
E engolem em seco e nunca se zangam
Os amigos do peito que nunca se zangam
Os amigos assim que nunca se zangam
Serão teus amigos?

Domingos da Mota

[a partir da leitura de Mário Cláudio]

06/08/2018

SONETO / SONETO

Poeta sou, se é isto ser poeta.
Distante, oculto, sibilino. Duro
pedaço de corindo, indício obscuro,
gota abissal de música secreta.

Amor apercebida já a seta.
Dor em riste, uma lança de amargura.
Espírito absorto, na sua clausura.
Imóvel, quieto, coração cata-vento.

Poeta sou se ser poeta é isto.
Angústia lancinante. Pavor surdo.
Velada melodia em contraponto.

Calado enigma atrás de intacto selo.
Meu sonho em fuga. Farto e carrancudo.
Na minha nau fantasma único a bordo.

13 de Abril, 1944

*

Poeta soy, si es ello ser poeta.
Lontano, absconto, sibilino. Dura
lasca de corindón, vislumbre obscura,
gota abisal de música secreta.

Amor apercebida da saeta.
Dolor en ristre lanza de amargura.
El espíritu absorto, en su clausura.
Inmóvil, quieto, el corazón veleta.

Poeta soy, si ser poeta es ello.
Angustia lancinante. Pavor sordo.
Vela melodía en contrapunto.

Callado enigma tras intacto sello.
Mi ensueño en fuga. Hastiado y cejijunto.
Y en mi nao fantasma único a bordo.

13 de abril, 1944


León de Greiff

TROCO A MINHA VIDA POR CANDEEIROS VELHOS / CAMBIO MI VIDA POR LÁMPARAS VIEJAS, Antologia Bilingue, Selecção|Hjalmar Greiff, Prefácio Jerónimo Pizarro, Tradução Gastão Cruz, Edição abysmo, Lisboa, Novembro 2014

04/08/2018

POESIA

Insectos de lirismo,
Filamentos no ar,
Na hora obscura e verde,
No céu crepuscular.

Vibráveis e eu não via
Nem ouvia vibrar,
Mas a noite crescia,
Mas a tarde ficava...

Enxofre, febre, sono,
Roxas dálias paradas...
Fins de tarde que em mim
Dia e noite não morrem...

Seria o mar tão verde
Ou a tarde cenário?...
Zumbiam frágeis, frágeis
Insectos de lirismo...

Cristovam Pavia

35+15 Poemas, Prefácio de Carlos Poças Falcão, OPERA OMNIA - Edição, Distribuição e Comercialização de Livros, Guimarães, Julho 2018

02/08/2018

Verão

Depósitos de cinzas por toda a terra.
Em alguns, as fogueiras do Holi*
ainda ardem lentamente.
Até a lua começou
a proteger-se do sol.


*Holi, também conhecida como festival of colours ou festival of love, é uma celebração 

hindu da primavera.


Summer

Ash pits all across the land,/In some, teh fires of Holi/still smoulder./
Even the moon has begun/to take refuge from the sun.

Eunice de Souza

Coração de Abacate, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Junho de 2018

01/08/2018

A MULHER DE LOT / LA MUJER DE LOT

Ainda ninguém nos esclareceu
se a mulher de Lot foi transformada
em estátua de sal como castigo
pela curiosidade irreprimível
e pela desobediência apenas,
ou se ela se virou pois no meio
de todo aquele incêndio pavoroso
ardia o coração que mais amava.

*

Nadie nos ha aclarado todavía
si la mujer de Lot fue convertida
en estatua de sal como castigo
a la curiosidad irrefrenable
y a la desobediencia solamente,
o si se dio la vuelta porque en medio
de todo aquel incendio pavoroso
ardía el corazón que más amaba.

Amalia Bautista

CORAÇÃO DESABITADO, Selecção e tradução de Inês Dias, Desenhos de Débora Figueiredo, Averno | 2018

29/07/2018

Discípulo de frei Tomás?

Não seria Ricardo Robles,
Se embolsasse tantos cobres,
Discípulo de frei Tomás
Que bem prega, mas não faz?

Domingos da Mota

[DUAS SENTENÇAS / TWO SENTENCES]

1. Estou a tentar escrever um poema.

2. A vassoura está no canto.


*


1. I'm trying to write a poem.


2. The broom is in the corner.



Aram Saroyan


outono [de COMPLETE MINIMAL POEMS], tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, colecção: Poetas da Eufeme, edição de Sérgio Ninguém, Leça da Palmeira, Janeiro 2017

26/07/2018

Dia cinco / Day five

Hoje o
carteiro trouxe-
-me um haiku
de Issa.

Pela

nova legislação
antiterrorista
teve de ser
traduzido
para Inglês
antes de ser
entregue.

Dezanove sílabas

em tradução literal.
Paguei mais portes de correio.

*


Today the

postman brought
me a haiku
from Issa.

Under the

new anti-
terror
legislation
it had to be
translated into
English before
delivery.

Nineteen syllables

in literal translation.
Excess postage was charged.

Mark Young


Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Eufeme, magazine de poesia n.º 8, Julho/Setembro 2018

24/07/2018

ESTÁTUA

Juventude de pedra,
Ó estátua, ó estátua do abismo humano...

Todo o tumulto após tanta viagem

Uma rocha corrói
À flor dos lábios.

Giuseppe Ungaretti


SENTIMENTO DO TEMPO, selecção e tradução de Orlando de Carvalho, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1971

20/07/2018

ARTE POÉTICA

Este poema tem vírgulas
De sol,
Pausas de sombra,
Suores frios.

Não tem ele outra coisa:

Febre alta,
Ferida aberta,
Cratera nua.

Divindade vulgar,

Ícone destroçado,
Não nos resta senão
Fazê-lo.

Cada um sabe de si

E o poema de todos.

José Pascoal


SOB ESTE TÍTULO, Editorial Minerva, Lisboa, Setembro de 2017

19/07/2018

Anúncio

Procura-se
escritor 
fantasma

para efabulação

de factos e 
feitos

torcidos 

distorcidos
(ditos 

desditos)

por altas 
baixas

figuras

do estado-a-que-isto-chegou
candidatas ao

Nobel da Mistificação.

Preço 
a combinar.

Domingos da Mota


[inédito]

12/07/2018

Falámos tantos anos de tão pouco

Falámos tantos anos de tão pouco
entre os campos
do corpo
a fala fende os dentes
o corpo que te ouve ampara
a tua fala

É o último dia mas que dia
poderia deter assim a boca
dizíamos ainda que viríamos
ouvir-nos um ao outro
a fala dolorosa encontra os dentes
e olho a tua boca como um corpo

Gastão Cruz

Teoria da Fala, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1972

03/07/2018

AVENTINO

1.


Tudo é divino e trágico,

saboreia-se o fel do verbo
o leito do delírio, a sílaba.

João Rasteiro


A DIVINA PESTILÊNCIA, Assírio & Alvim, Março 2011

19/06/2018

04/06/2018

Nocturno

Pelas duas da manhã o gato leva-me
à cozinha para 
me dar de comer. Hoje à noite atrasa a hora -
é esta a noite ideal para
a ilusão dos amantes (o que acontecer nessa hora
jamais 
aconteceu). Acordado o
pensamento é a minha geografia -
o que fazer às imagens que nenhum poema
reclamou (a
gota que cai da torneira é sempre
a mesma gota? O
mar que um búzio contém é
o da praia onde estava?) Às duas
torna a ser uma e
o gato leva-me ao quarto
(se a noite não traz respostas é
sempre o silêncio quem fala)
o gato que escreve com as patas tem decerto
algo a dizer.

João Luís Barreto Guimarães



nómada, Quetzal Editores, Lisboa, Maio de 2018

30/05/2018

de Sousa

M R de Sousa,
vivacíssimo, repousa
sempre que usa e abusa
de retórica profusa?

Domingos da Mota


[inédito]