25/05/2018

COMENDO UMA CEREJA

Como uma cereja e,
Comendo a cereja, o meu corpo
Pede as cerejas todas do mundo,
Mas não posso comer as cerejas todas do mundo,
Pois faltam-me as cerejas que comeram
Sócrates, Hipasos de Metaponto
E os velhos camponeses da Gália,
Ou até os escravos de Roma.
Assim, como uma cereja
E deixo o gosto de a comer
Ficar em mim pelo gosto
De todas as cerejas que possa haver.
Uma cereja como todas as cerejas,
Uma cereja por todas as cerejas.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

24/05/2018

[Sobre o musgo escuto]

          4.

Sobre o musgo escuto
Pedras, digo

- estranha voz esta,
a do surdo.

Aurelino Costa

GADANHA [Sol & Locus], Modo de Ler - Centro Literário Marinho, Porto, 2018

Despojos de um ditador

Retalhos do esqueleto:
fragmentos do crânio (do 
lado esquerdo, um buraco)

cinco dentes na mandíbula,
vestígios de cianeto
e de tártaro.

Domingos da Mota

[revisto]

20/05/2018

Melros

Emigrados do campo,
deixaram-se ficar no burgo,
desde as primeiras casas
do tempo dos romanos.
Foram-se juntando outros
com o crescer dos lares e da gente,
perseguidos por fogos da floresta
e pela gula de bagas doces.
Frutificaram,
multiplicando-se, à imagem do nosso
Génesis, 1:28.
Na primavera fazem o ninho
entre as camélias,
e cantam, assobiam e saltitam,
e, velhacos, vão-me às cerejas todas.

Nuno Dempster

NA LUZ INCLINADA, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014

15/05/2018

14/05/2018

CRISE DE FÉ

Quebrou-se-me um mealheiro.

Dentro de mim
já não tilintam
as moedas
dos teus olhos.

Ana Paula Inácio

ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno | 2016

11/05/2018

Indiferentes

Há os que gostam
e os que não.
Indiferentes
quantos serão?

Se os que gostam
se manifestam,
e os que não gostam,
falam, protestam,

os indiferentes
não dizem nada:
nem sequer mordem
pela calada.

Domingos da Mota

[revisto]

07/05/2018

Da presunção de inocência

Até que se julgue
assim se dirá:
ajudas, empréstimos
sem juros, quiçá,

que a vida airada,
de fausto, de luxo,
provinha da fonte
e tinha um repuxo

de onde jorrava
o fluxo vivo
que se avigorava,
até ser cativo.

Se não for assim
e se for assado,
que fazer então 
deste arrazoado?

Até que se prove,
não vou desdizer,
malgrado a vergonha
ou coisa pior.

Domingos da Mota

[inédito]

05/05/2018

Provérbios

A boda e a baptizado
Não vás se não fores rogado;

Nem sequer a um festival
Literário ou funeral

Se não conheceres ninguém,
Nem o morto nem alguém

Da família ou dos amigos
Mais recentes ou antigos;

Sem convite, mesmo que
A entrada seja livre,

Não te deixes agarrar, 
Muito menos ofuscar

Pelo anúncio que houver,
Seja de homem ou mulher:

Será melhor que não chores,
Batas palmas, rias, cores,

Em caso de funeral 
Ou de grande festival

Da canção, da cançoneta,
Com negaças de opereta,

Quando tens o futebol
Mais a pino que o sol.

Domingos da Mota

[inédito]

03/05/2018

das perguntas

tuteias, indagas,
perguntas em que penso,
aqui e agora.

será só coscuvilhice
ou trabalhas
para fora?

não farás do algoritmo
outro moço
de recados

que destrambelha
o ritmo e manipula
os dados?

Domingos da Mota

[inédito]

02/05/2018

da opinião

dizer que sim ou que não 
ou que talvez, de que vale 
súbita opinião
de quem esperam que se cale?

Domingos da Mota

[inédito]

30/04/2018

o algoritmo

dizes: pim!
e o algoritmo
extrapola e solta:
pum!

e acelera 
o ritmo
e provoca
um trinta-e-um

Domingos da Mota

[inédito]

29/04/2018

Da sua relação com a poesia

Quando  Koslowski, após  um  dos seus  inúmeros  acidentes de
carro, está outra vez  preso  à  chapa, acontece  que  a  primeira
pessoa  a  chegar  ao  local  é  um  bem  conhecido  poeta   lírico
frustrado,  o  qual,  em  vez  de  lhe     administrar    os  primeiros
socorros, insiste  em ler-lhe, rapidamente, alguns dos seus mais
recentes  poemas, garantindo  que não  tomaria  muito tempo do
seu tempo. "O resultado disso", comentou Koslowski mais tarde,
"é que não só o meu  fémur, três costelas  e a minha clavícula se
quebraram, como também  se quebrou   a minha  relação com a
poesia".

Michael Augustin

UM TAL DE KOSLOWSKI, Tradução de João Claudio Arendt e João Luís Barreto Guimarães, edição do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Abril de 2018

28/04/2018

BURBURINHOS

14


Não sabe rezar,
estranhamente,
o louva-a-deus.

João Manuel Ribeiro

BURBURINHOS | RUMBLES, Edição Busílis (Tropelias & Companhia - Associação Cultural), Maio de 2015


24/04/2018

KOLYMBÍTRIA

O absoluto não é ter muitas coisa juntas,
Mas o quase nada que vibra no fim da tarde,
Quando as pedras se iluminam de dentro,
Com já saudades do sol que vai partir.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

23/04/2018

SO(U) NETO

SONETO
SOU
      NETO.
SOU
     U
     NETO
DO
SONETO.

Fernando Aguiar

Estratégias do Gosto, Palimage, Terra Ocre - unip. Lda., Coimbra, Março 2012

22/04/2018

Abril

De Abril recordo o ano, o mês e o dia
Que demarcaram o antes e o depois:
Se antes muita sombra nos traía,
Logo após a urgência tinha dois
Ou mais caminhos a fazer, trilhando
Por vezes o mais curto, tal a febre
Nos píncaros da pura agitação,
Do natural contágio, onde e quando
A fome de mãos dadas com a sede
Acicatavam a revolução.
De Abril recordo Maio e o seu primeiro
Dia de imensa multidão que sonhava
Ser livre o tempo inteiro e pedia
Trabalho, paz e pão.

Domingos da Mota

[inédito]

18/04/2018

Futurou Fernando Pessoa

Futurou Fernando Pessoa
em Durban ou em Lisboa
que os ossos dos seus heterónimos
seriam depositados nos Jerónimos?

Domingos da Mota

[inédito]

17/04/2018

Bernardo Soares

Quando o Bernardo Soares
de desassossego tinha ares,
pedia ao Álvaro de Campos
um cabaz de figos lampos?

Domingos da Mota

[inédito]

14/04/2018

Pois eu gosto de favas

Pois eu gosto de favas, mas também
de mandar à fava quem me agasta
com risos e soslaios de desdém
ou condutas piores. Chega! Basta
quando a fava me sai no bolo-rei
ou julgo que serão favas contadas
os factos e os feitos que sonhei
e as contas, vendo bem, estão furadas.
E uma vez que não vejo a fava-rica,
peço favas guisadas com chouriça
(não há migas de favas na botica)
e ao bacalhau com favas digo, chiça!,
pois há favas e favas -- e favelas
como espinhas cravadas nas goelas.

Domingos da Mota

[inédito]