20.2.17

AMOR FORTUITO

Seduziu. E levou
naquele rubro olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.

Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silêncio
e quietude de assomo.

E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaído
que não teve percurso.

António Salvado

Essa Estória, Portugália Editora, Junho de 2008

18.2.17

o semblante

tinha um sorriso amarelo,
capcioso e contrafeito,
era grisalho o cabelo,
e o seu velho preconceito
de raiva tinha uma cor
que não sei bem definir,
um tudo-nada pior
que o sorriso a fingir;
e achacada à pesporrência
no discurso e na postura,
aquela parda eminência
retesava a catadura,
e empinava o semblante
supinamente arrogante.

Domingos da Mota

[revisto]

17.2.17

a pós-verdade

quando se mente e desmente
e a pós-verdade se diz,
pois a verdade somente
frutifica se a raiz
for plantada na terra
que lhe permita crescer,
apesar da muita guerra
que a mentira fizer;
e se esta for a erva
daninha que ameaça
a seara de centeio,
repara bem na caterva
de joio que se congraça
com a lama de permeio.

Domingos da Mota

[inédito]

16.2.17

Tudo isso e um par de botas

O diabo anda à solta, que dianho!
O dianho anda à solta, que diabo!
O Satã anda à solta, e o rebanho
Em pânico, aturdido e agitado
Investe contra o demo, o mafarrico,
Com a língua e os cornos afiados,
Mesmo que dê o dito por não dito
E ouse denegar muitos pecados.
O diabo, porém, está nos detalhes
Das vitórias a pulso e das derrotas,
E mesmo que tu ganhes ou que falhes,
Usando tudo isso e um par de botas,
Diante das mentiras e falácias,
Suas costas são largas, coriáceas.

Domingos da Mota

[inédito]

15.2.17

À espera do grande dia

   Grande vida que tudo dás e tiras
Nem sequer a recordação permanecerá nos nossos ossos
Nem sequer a música do violino de Mendelssohn.


En Espera del Gran Día


   Gran vida que das y todo quitas
ni siquiera el recuerdo quederá en nuestros huesos
ni siquiera la música del violín de Mendelssohn.

Haroldo Alvarado Tenorio

[Tradução de João Rasteiro]

Di Versos, Poesia e tradução, N.º 24, Junho de 2016, Vinte anos: 1996-2016, Edições Sempre-em-Pé

13.2.17

(pin) gente

de pingente na lapela,
armado ao pingarelho,
o discurso que afivela,
como um velho do restelo,
segue o tom e a toada
(pois repete a voz do dono),
duma prédica ajustada
com laivos de desabono.
e redobra a litania
entre a sua comandita
que sibila e pressagia
uma tremenda desdita
para quem não dobre a espinha
e não cumpra a ladainha.

Domingos da Mota

[inédito]

11.2.17

VONTADE

Debruço-me num rio de palavras,
alimento de nada
que se vai esvaindo do meu pulso.
Apenas serve a seres
que não voltam como antes.
É isto ter morrido,
nomear o pinheiro manso
e não ser o que foi, um rosto.
Não te dissolva a pena.
A uns mortos resta o choro;
a outros, o silêncio.
Recorda a tundra
para cima do círculo polar,
sem bétulas nem flores,
recorda essa paisagem
mais nua do que um claustro
e deixa escrito
que espalhem nela as tuas cinzas.

Nuno Dempster

Eufeme, magazine de poesia, n.º 2 (Janeiro/Março 2017) Editor e coordenador: Sérgio Ninguém 

8.2.17

No lugar da pouca farinha

1.

É a mesma navalha.

Aquela que levanta no mar exterminado
Uma ilha
E risca no centro da mão a métrica derrotada
De uma colmeia.

E não é o mel que exulta nas linhas inúteis
Dos dedos:

É o brilho náufrago
Das migalhas do estio
Que nelas coagula
A gotas de sombra mais insubmissa.

Luís Filipe Pereira 

No lugar da pouca farinha, edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2016

7.2.17

TANKA

*

A vizinha
de língua afiada
está grávida --
o cacto dela na janela
em flor

*

The neighbor
with the sharp tongue
is pregnant --
her window cactus
in full bloom

George Swede

um mosquito no meu braço, tradução de Francisco José Craveiro Carvalho, edição de Sérgio Ninguém (Eufeme), Fevereiro de 2017

5.2.17

RONDEL DO ALENTEJO

Em minarete
mate
bate 
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-Noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo
de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida 
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos,
girassóis
e os bonnets,
e os braços
destes dois
giram laços
de luar.

O colete
desta Virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

                                                          1913

José de Almada Negreiros

Poemas Escolhidos, edição Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar, Mariana Pinto dos Santos, Sara Afonso Ferreira, Assírio & Alvim, Novembro de 2016

2.2.17

de poucas palavras

era de poucas palavras, tão
poucas que mesmo quando
conversava com os botões,
só usava monossílabos.

Domingos da Mota

[inédito]

1.2.17

se isto?

se isto 
é um poeta que se preze
quando deveria ter
uns vinte livros publicados

e pelo menos duas antologias,
entre quinhentas a mil páginas 
cada, em papel-bíblia,
e apenas deu à estampa

um livro,
um pequeno livro
com cinquenta e cinco
poemas?

que fazer das
sobras incompletas
(à mercê das traças)
dispersas por gavetas,

pastas, cadernos,
revistas, colectâneas
e noutros sítios,
que dizer?

Domingos da Mota

[inédito]

29.1.17

auto-retrato 60

depois temos o resto da vida

e não chega

para descobrir que no seio materno
já havia uma gramática

Paulo José Miranda

auto-retrato, abysmo, Lisboa, Abril, 2016