26.6.17

sofreguidão

e quando o defensor do estado mínimo
exige que o estado faça tudo;
e quando o defensor do que é privado
reclama que o estado, mas que estado,
exerça o seu papel, tome medidas
que sejam contra aquelas que tomou
enquanto no poder (oh quantas vidas
sucumbiram à míngua que lavrou);
e quando o defensor do lucro máximo,
das parcerias público privadas,
um pastor do rebanho cujo gado
apascenta ao serviço da sagrada
sofreguidão de alguns, eis que propala
o boato pior que uma bala.

Domingos da Mota

[inédito]

25.6.17

da devastação

primeiro
negociaram o fim da agricultura
de subsistência; e os pequenos
agricultores como já não precisavam
do estrume
para adubar os campos (com as leiras
abandonadas ou em pousio)
venderam o gado
e o tojo que ano após ano era cortado
para a cama dos animais
começou a crescer abundantemente
nos matos e ao redor das casas;

entrementes
acabaram com os guardas
florestais
e com os cantoneiros que limpavam
as bermas das estradas
para evitar os fogos;

depois
começou a florescer 
uma casta de altos defensores do
eucalipto
do petróleo verde
e do pinheiro bravo
da fileira de grandes áreas 
de monocultura
amante do papel 

de muito papel
e de tudo o que suba
a cotação na bolsa de valores;

e a floresta 
à mercê do abandono de uns 
e da ganância de outros
alastrou desordenadamente;

e como as trovoadas secas
e as mãos criminosas não se extinguem
por decreto

e os fogos se tornaram  uma
constante nos meses de verão
montou-se uma indústria de combate
aos incêndios
que todos os anos corre o país de lés 
a lés como se fosse uma 
máquina de guerra;

e
entre mortos
e feridos
ninguém
escapa aos efeitos
da devastação.

Domingos da Mota

[inédito]

22.6.17

CENTRAL DA PRAÇA DAS FLORES

Falava de incêndios e de lugares
perdidos, dessas trovoadas
que só acontecem na infância
e nos perseguem depois
uma vida inteira. Estamos
em Julho, nunca fez tanto calor.

Não, corrige Benilde,
"Estamos num velório,
andam aí as moscas, a dançar".
Nesta taberna, volto a perceber,
o poeta fica por detrás do balcão
e oferece-me num largo sorriso
cansadas, certeiras palavras:

"Sou um ser vivo e humano.
Até os vermes são vivos".
-- Que lhes aproveite, Dona
Benilde, a nossa morte,
estas tardes que prefiro a tudo

e a sombra, o manso prodígio da sombra.

Manuel de Freitas

A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, Lisboa, 2005

17.6.17

Prenúncio

Mal vejo a cor das palavras líquidas,
a não ser das que têm sangue e fel;
o tom das que vejo é terroso e seco
como as fragas cobertas pelo musgo

que acentua a ferrugem salgada
dos seus veios; realço a cor
das palavras sólidas,
erectas como esteios;

o tom bruscamente encanecido,
como se fosse o prenúncio dum
nevão, é dum quadro gélido, vivido,
e não há como dar-lhe outra demão.

Domingos da Mota

Eufeme, magazine de poesia n.º 3, abril / junho de 2017

12.6.17

indirecto livre

um romance é que era!...
dizem-me olhando de lado
os poemas 
longos
magros
enguias pensantes
agarradas ao papel
do centro de reabilitação

um romance é que era
com acção tempo
uma casa inteira
da raiz quadrada 
ao tecto
corredores a dar
para personagens
ténues
não totalmente
apatetadas
(sepultemos realismo
experimentalismo
e deus nos livre
do pós-colonialismo)

um romance é que faz
virar as cabeças na rua
calça mesas
duplica escaparates
expande a crítica
constipada
no seu casulo refinado

agora a conveniente
pausa descritiva
logo seguida
de autoconsciência
referencial
à guitarra e à viola

um romance é que era!...
sobrancelha arqueada
entre a cobiça e a paráfrase

Rosa Oliveira

tardio, Edições Tinta-da-china, Lda., Março de 2017

10.6.17

Sobras incompletas

    São as alavancas do inconsciente
     que empurram a máquina de fazer versos.

     José Manuel Simões


Muitos anos, quanta vida
projectada, mãos à obra,
quanto sonho se desdobra
numa rima, numa trova,

quanta noite mal dormida;
e que grito se levanta
e que brado, quanta voz,
quantos braços, quantos nós,

quanta dentada feroz,
quanta corda na garganta:
e depois da obra feita

de sobras incompletas,
quem a lê, quem a rejeita,
neste país de poetas?

Domingos da Mota

(publicado na Revista Triplov)

8.6.17

Tem catarro

    É raro eu rimar, e é raro alguém rimar com juízo.
     Mas às vezes rimar é preciso.

     Fernando Pessoa



Não leva saia travada,
põe de lado o espartilho,
a blusa decotada,
sugestiva, debruada,
pendente por um atilho,

não se ajusta na visita
a um bairro social,
não é blusa de chita,
mas de uma seda inaudita,
seda de luxo, afinal;

calça botas sempre que
se junta ao povoléu,
e veste calças de ganga
ou saia larga, uma tanga,
uma capa, que sei eu;

e desse modo vestida,
acena, dizendo apenas
a lengalenga sabida
de quem mexe na ferida,
mas não sente qualquer pena.

E com essa indumentária
na passagem pelo bairro
(falsamente proletária),
populista, perdulária,
a formiga tem catarro.

Domingos da Mota

[inédito]

4.6.17

A invenção do lugar

Quem me dera ter saudade
da saudade que não tenho:
na era da pós-verdade,
saber quem sou, donde venho,
para onde vou, mesmo sem
saber tudo, onde e quando
e de que modo; porém,
sem saudade vou andando,
apesar da nostalgia
que não deixa de pairar,
e apressa e desafia
a vontade de apurar
a dilecta companhia:
a invenção do lugar.

Domingos da Mota

[inédito]

1.6.17

LUGAR EM BRANCO

Eu posso abrir aqui uma simples cratera.
Basta soprar o ar, estender braços e pernas,
dizer que sim ao corpo
e não enlouquecer.

É um lugar em branco, afundado no mundo.
A luz que o ilumina ele próprio
há-de gerá-la.
Por mais negra que seja será dele.

Então a vida vibra.
Os animais virão com músculos e raízes.
O reino vegetal trará as suas crias.
E a mão dura do sol será um bago de uva.

Uma simples cratera,
um poiso para os deuses, um riso sem paredes,
branquíssimo lugar,
uma pedra, um pão, uma só palavra.

Armando Silva Carvalho

A SOMBRA DO MAR, Assírio & Alvim, Julho de 2015

31.5.17

Perfeitamente domesticada,

Perfeitamente domesticada,
aparentando todo um rebanho de boas intenções,
atacava pela calada.

Desta vez, foi em pleno palco,
à frente de toda a gente.

Unhas e peles, braços em volta.
O bico dos abutres
a rasgar o dia em dois.

Ninguém gritou,
mas houve sangue.
Não me lembro se fui César,
se fui Bruto.

Golgona Anghel

NADAR NA PISCINA DOS PEQUENOS, Assírio & Alvim, Porto Editora, maio de 2017

28.5.17

O sal da terra

         a partir da leitura de Mário de Carvalho


Se a coisa for bem mais que mera coisa
e o sítio não for sítio sitiado,
e quiser ver melhor, tocar na coisa
e a coisa permitir o gesto ousado,
e se sob o efeito do contacto,
do toque que a coisa consentiu,
resolver escrever, contar de facto,
revelar o que viu e o que não viu;
se o sítio merecer outra visita
e a coisa mantiver o mesmo apuro,
e apetecer voltar, como quem fita
as estrelas cadentes do futuro,
ainda que pareça uma quimera,
a coisa pode ser o sal da terra.

Domingos da Mota

[inédito]

26.5.17

Quantos zeros à direita

    Ao passado  --  para quê -- não lhe peço contas,
     faltam-lhe muitos dedos para as fazer todas.

     Jesús Jiménez  Domínguez


Quantas mãos e quantos dedos
teria de convocar
para contar os erros
sem máquina de calcular?
E entre os dedos mais ávidos
de saber o número certo
afogueados ou pálidos
com o saldo a descoberto
quanto tempo duraria
a sua tarefa ingrata
agravada dia a dia
pelos erros à socapa?
E depois da conta feita
quantos zeros 
à direita?

Domingos da Mota

[inédito]