um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
25.4.26
24.4.26
Abril
De Abril recordo o ano, o mês e o dia
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
21.4.26
TEIA-TRELA
Um poeta senta-se
passa um outro poeta
passa um outro poeta
O poeta levanta-se
diz-lhe "bom dia!"
O outro
diz-lhe "bom dia!"
O outro
simplesmente passa
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
13.4.26
no princípio era o beijo
no principio era o beijo
envolto pelo abraço
que ateou o desejo
com lesto desembaraço
entre a língua e os dentes
em busca da outra língua
deixando as duas frementes
a saciar-se da míngua
tal a fome a sede louca
da volúpia boca a boca
envolto pelo abraço
que ateou o desejo
com lesto desembaraço
entre a língua e os dentes
em busca da outra língua
deixando as duas frementes
a saciar-se da míngua
tal a fome a sede louca
da volúpia boca a boca
Domingos da Mota
12.4.26
ESTRATÉGIAS
1.
Água
pedras (sem arestas)
artefactos de cerâmica
espátulas de madeira
tersórios
esponjas marinhas
folhas de couve
conchas
pescoços de ganso
(os preferidos de Rabelais)
rolos de papel
2.
Na falta de papel
até um poema serve
Jorge Sousa Braga
A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024
11.4.26
Oliveira
Venho da Palestina
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
José Efe
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Do vinho elixir da vida
33.
bebe vinho, ele te devolve a alegria da juventude;
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
Omar Khayyam
versões de José Queiroga
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
7.4.26
[Da fúria épica]
Da fúria épica:
Fúria neurótica?
Fúria imagética?
Fúria caótica?
Fúria filípica?
Fúria virótica?
Fúria selvática?
Fúria ciclópica?Fúria lunática?
Fúria entrópica?
Fúria apocalíptica?
Fúria despótica
Domingos da Mota
(imagem colhida numa página de JE-N, no Facebook)
6.4.26
Onfaloscopia
O seu umbigo é o centro
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
29.3.26
Tentar perceber um poema
Tentar perceber um poema
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
Sérgio Ninguém
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
20.3.26
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar,
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar,
vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse
porque os dias passam sobre os dias
e de perscrutar a essência de deus nas geometrias
ainda se podem encontrar alguns vestígios.
às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas,
e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam
que alguém vindo do vento os denomine:
um selim, maçãs, tílias, mulheres,
um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse
porque os dias passam sobre os dias
e de perscrutar a essência de deus nas geometrias
ainda se podem encontrar alguns vestígios.
às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas,
e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam
que alguém vindo do vento os denomine:
um selim, maçãs, tílias, mulheres,
um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
18.3.26
[Em tudo o que fui ou que não soube]
Em tudo o que fui ou que não soube
Ou não pude ser
Procuro as palavras exactas para esta manhã
De um domingo de inverno
Ou não pude ser
Procuro as palavras exactas para esta manhã
De um domingo de inverno
Em que a luz tem a transparência
Do verão
Procuro uma carícia que possa dizer
Que venho de muito longe
Para este gesto
Tão breve
E de repente
Todas as coisas
Se tornaram claras
Simples
Ou
José da Cruz Santos
José da Cruz Santos: O poeta disfarçado. Entrevista e poemas inéditos
Autor: Francisco Duarte Mangas, Fotografia, Carlos Cunha, Edição, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Novembro de 2025
Do verão
Procuro uma carícia que possa dizer
Que venho de muito longe
Para este gesto
Tão breve
E de repente
Todas as coisas
Se tornaram claras
Simples
Ou
José da Cruz Santos
José da Cruz Santos: O poeta disfarçado. Entrevista e poemas inéditos
Autor: Francisco Duarte Mangas, Fotografia, Carlos Cunha, Edição, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Novembro de 2025
17.3.26
Fora de horas
não declines
nem te ausentes
em subjectivos lastros
cantemos de voz túrgida
mas cantemos
os nossos mortos
não perdoam a cobardia e o silêncio
que teima em algemar-nos
Domingos Lobo
quotidianos e outras noites, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Junho de 2020
nem te ausentes
em subjectivos lastros
cantemos de voz túrgida
mas cantemos
os nossos mortos
não perdoam a cobardia e o silêncio
que teima em algemar-nos
Domingos Lobo
quotidianos e outras noites, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Junho de 2020
15.3.26
Deus Abençoe a América
Lá vão eles outra vez,
Os Ianques e as suas blindadas paradas
Entoando as suas baladas de alegria
A galope pelo vasto mundo
Louvando o Deus da América.
As sarjetas estão entupidas de mortos
Dos que não puderam alistar-se
Dos outros que se recusam a cantar
Dos que estão a perder a voz
Dos que esqueceram a música.
Os cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça rola para a areia
A tua cabeça é uma poça no lixo
A tua cabeça é uma nódoa no pó
Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja apenas o fedor dos mortos
E todo o ar morto está vivo
Com o cheiro do Deus da América.
Janeiro 2003
Harold Pinter
Guerra, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, edições Quasi
Os Ianques e as suas blindadas paradas
Entoando as suas baladas de alegria
A galope pelo vasto mundo
Louvando o Deus da América.
As sarjetas estão entupidas de mortos
Dos que não puderam alistar-se
Dos outros que se recusam a cantar
Dos que estão a perder a voz
Dos que esqueceram a música.
Os cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça rola para a areia
A tua cabeça é uma poça no lixo
A tua cabeça é uma nódoa no pó
Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja apenas o fedor dos mortos
E todo o ar morto está vivo
Com o cheiro do Deus da América.
Janeiro 2003
Harold Pinter
Guerra, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, edições Quasi
13.3.26
MOAB
Que filhos há-de
parir a mãe de todas
as bombas?
Que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?
Que mostrengos do
seu ventre aguardaremos
que expludam
fulminados pela
fúria da loucura
altipotente?
© Domingos da Mota
parir a mãe de todas
as bombas?
Que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?
Que mostrengos do
seu ventre aguardaremos
que expludam
fulminados pela
fúria da loucura
altipotente?
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Edição Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto, 2025
27.2.26
[Não irei para o céu. Digo demasiados]
(para Domingos da Mota)
Não irei para o céu. Digo demasiados
palavrões, levanto tempestades em copos
d'água, tenho a maior dificuldade em perdoar
o mal que me fizeram, rasteiras insidiosas
que ao longo das estradas, invariavelmente,
me fazem cair e esfolar os joelhos.
Não irei para o céu, peço a cabeça
dos meus adversários e vejo-me a partir
cada um dos ossos dos meus inimigos,
em vez de ser benigno e lhes dar a outra face.
Não irei para o céu, a uns olho-os de lado
e em certas ocasiões até lhes rosno. Não irei para o céu.
Irei para outro lado, onde a hipocrisia não valha nada
e a verdade doa como espada a retalhar o espírito.
26.2.2026
Amadeu Baptista
colhido no perfil de Amadeu Baptista, no Facebook
Não irei para o céu. Digo demasiados
palavrões, levanto tempestades em copos
d'água, tenho a maior dificuldade em perdoar
o mal que me fizeram, rasteiras insidiosas
que ao longo das estradas, invariavelmente,
me fazem cair e esfolar os joelhos.
Não irei para o céu, peço a cabeça
dos meus adversários e vejo-me a partir
cada um dos ossos dos meus inimigos,
em vez de ser benigno e lhes dar a outra face.
Não irei para o céu, a uns olho-os de lado
e em certas ocasiões até lhes rosno. Não irei para o céu.
Irei para outro lado, onde a hipocrisia não valha nada
e a verdade doa como espada a retalhar o espírito.
26.2.2026
Amadeu Baptista
colhido no perfil de Amadeu Baptista, no Facebook
20.2.26
NEM O FIO DA ESPADA
Nem o fio da espada o atravessa,
o fogo não o queima mesmo forte,
a água embora muita não o molha,
o vento violento não o seca
o fogo não o queima mesmo forte,
a água embora muita não o molha,
o vento violento não o seca
e poderão trocar-se o sul e o norte,
destruírem-se enfim o este o oeste,
uma forma qualquer ficar disforme,
terra tornar-se mar e mar a terra,
tudo o que é ser e faz parte do mundo
saber que vai viver breves segundos,
que os polos andarão enlouquecidos -
perene sobre mim não vou esquecer
o teu olhar: sinal de uma certeza
que a morte ignora e para sempre existe.
António Salvado
Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A.23 Edições, 2014: 114
destruírem-se enfim o este o oeste,
uma forma qualquer ficar disforme,
terra tornar-se mar e mar a terra,
tudo o que é ser e faz parte do mundo
saber que vai viver breves segundos,
que os polos andarão enlouquecidos -
perene sobre mim não vou esquecer
o teu olhar: sinal de uma certeza
que a morte ignora e para sempre existe.
António Salvado
Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A.23 Edições, 2014: 114
18.2.26
Quarta-feira de cinzas
É quarta-feira de cinzas
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,
não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.
O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho
que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.
© Domingos da Mota
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,
não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.
O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho
que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas
18.11.25
A corveia
Depois de muitos anos, muita luta,
direitos e deveres, contratos mil,
arrogam-se alguns filhos-da-puta
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a dureza
duma austera, apagada e vil tristeza.
direitos e deveres, contratos mil,
arrogam-se alguns filhos-da-puta
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a dureza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Domingos da Mota
18.10.25
UMA LUZ ABSTRACTA
Era uma luz abstracta
quase de perfume.
Era uma rosa intacta
demoradamente nua.
J. Alberto de Oliveira
quase de perfume.
Era uma rosa intacta
demoradamente nua.
J. Alberto de Oliveira
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