12.1.17

a radiosa dentadura

exibe a radiosa dentadura
duma brancura tal que a luz se ofusca
e tacteia e tropeça e sonda e busca
a cega cicatriz da mordedura
dentada sob o halo dum sorriso
mais brilhante que o sol, o sol a pino,
afiados que estão desde o canino
ao dente sem porquê dito do siso;
e os dentes ora limpos, branqueados
ocupam o lugar dos cariados
que foram removidos totalmente;
e assim a dentadura, sem esforço,
aplica-se a esburgar até ao osso
o tempo de que goza, finalmente.

Domingos da Mota

[inédito]

10.1.17

Eis o que sói dizer-se

                                            (a M.S.)


Se para alguns foi um santo
e para outros um diabo,
não ousarei dizer tanto
nem toldarei o passado;
mas um homem de mão cheia
de virtudes e defeitos
cuja vida foi a preia-
mar de luta por conceitos,
que exerceu o dom de ser
odiado ou amado
por amigos a valer
ou inimigos em estado
de nojo, eis o que sói
dizer-se de quem se foi.

Domingos da Mota

[revisto]

9.1.17

[Álvaro de Campos]

(...)

Álvaro de Campos
o nome soava a qualquer coisa
e deu bastante que falar nos escritórios
e nas salas de jantar

o namorado duma aluna
um daqueles rapazes
a quem se vislumbra futuro
e até já tinha colaborado 
numa revista
afirmou que se tratava dum poeta
que não era dos mais falados
que estava ainda noutra onda
que não tinha nada que ver
com as mais recentes linhas poéticas
que se passavam todas
nas imediações da casa
bar rua transportes engates
actos quotidianos
que não se davam a fitas
de olhar para a lua
pois sabendo procurar
poesia há em todo o lado
até ou mais ainda no caixote do lixo
problema é a falta de vocações
e riu-se
depois explicou ao amigo
que foi numa jogada dessas
que conheceu a namorada

(...)

Alberto Pimenta

al Face-book, Editora 7 Nós, Porto, 2012

8.1.17

Chamaremos umbral

Chamaremos umbral o lugar de onde,
inteiramente nus enfim, partimos.
Sendo partir ir gravitar, conforme
o núcleo poderoso de vazio
acenda, desde longe,
o apelo de destino.
Que tudo canta, ou sofre,
desde essa densidão de corpo antigo
que chega a ciência quando se eleva um nome
do nome que o havia precedido.
E, assim, amarmos, sobe da lei. Comove
o peso de substância e o do olvido
com que a sombra persegue e intensifica a fome
de corpos violentos e sombrios.
Até encostarmos o ouvido à morte.
E ver seu nome de si, enfim, despido.

Fernando Echevarría

SOBRE OS MORTOS, Edições Afrontamento, Porto, 1991

7.1.17

O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobra a palavra em que acreditaste.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, POEMAS DO ESPÓLIO, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

5.1.17

(ser pedra)

com os pulsos abertos,
escrevi a vida nas pedras,
o sangue era a tinta,
escrevi até ser pedra.

Sérgio Ninguém

PEDRA, Edição de autor [COLECÇÃO: POETAS DA EUFEME], Novembro de 2016

3.1.17

Nós, deste tempo, avessos

Nós, deste tempo, avessos, imprecisos,
hóspedes, apóstrofes, relicários, suaves
por dentro, velozes na intimidade, leves,
rubros, talvez sentimentais, a quem é dito
que de nada vale antever erros ou soltura
encher a cabeça de desejos facas fumos
guerras surdas quartos vidas coisas vagas

Nós que com aspirinas esfareladas
nas gavetas umas poucas gravações
piratas de vozes amargas de amores
antigos em trampolins e em torno
ecrãs sem raízes, nervuras, biombos,
ecos, dentes, língua, fita-cola, saliva,
elegias, custos de vida, falésias, tudo,
vamos antevendo os erros e a soltura

Miguel Cardoso

Víveres, Edições tinta-da-china, Lda.,Lisboa, Julho de 2016

1.1.17

Dia Um de Janeiro

    Não me mostres nenhum norte
     nem estradas para lá:

     A. M. Pires Cabral


Não me tracem bissectrizes,
azimutes, direcções:
o tempo, como as raízes,
não precisa de sermões,
de decretos e alvitres
e nem sequer de parábolas,
de conselhos ou palpites,
mnemónicas ou cábulas.
Não me indiquem qualquer norte.
Habituado a nortadas,
apenas quero o suporte
das futuras caminhadas,
enquanto as pernas puderem
com os ossos que tiver.

Domingos da Mota

[inédito]

29.12.16

[O verdadeiro poema]

O verdadeiro poema
não se pode ler
É um tiro no escuro
inaudito e cego

Ana Hatherly

FIBRILAÇÕES, Quimera Editores, 2005

28.12.16

A hora

Há-de chegar a hora: como, quando,
aguardada, brutal, de supetão?
Ou dolorosamente prolongando
a vida sem sentido e sem razão
por mais uns dias, vegetal ou quase,
na expectativa de que algo surja,
medicamento ou não, olhando a fase
em que o tempo acelera e garatuja
a hora exacta, mesmo sem ponteiros,
do fim do prazo, não havendo nada
que possa suspender os derradeiros
momentos duma vida que se apaga,
mal atravessa a porta desse cais
de embarque, para sempre e nunca mais?

Domingos da Mota

[inédito]

27.12.16

noção

a noção do tempo
a visão do espaço
a noção do vento
a visão do traço
a noção do ar
a visão do fogo
a noção de par
a noção de logro

a visão da terra
a visão da água
a visão da guerra
a noção de mágoa
a ambição de querer
a ambição de haver
a ambição de ter
a noção de ser

Domingos da Mota

[inédito]

26.12.16

IA NO BATALHA

      [sessões matinalmente dominicais
promovidas pelo CineClube do Porto]


saías
p'la crueldade
maior

o Inverno ferrando-te
nos olhos
uma luz metálica
por mera opção cromática
fixavas
as pombas

Ana Paula Inácio

ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno | 2016

23.12.16

Dezembro

Era Dezembro. O natal esperado
(não havia então ecografia),
poderia ser dum rapaz
ou duma rapariga

(por meninos e meninas eram 
tratadas as crianças que nasciam
em berços de oiro).
E nasceu um rapaz. Gritou,

chorou, foi parido numa casa
humílima, que não era um presépio,
mas ouvia-se o cantar dos galos,
o ladrar dos cães, o mugir

das vacas nos currais.
Era Dezembro, mês propício
a partos difíceis,
naturais.

Domingos da Mota

[inédito]

22.12.16

Segundo Poema de Natal

Pudesse do Natal dizer que é mais
que o corre-corre, que a lufa-lufa,
que a passada célere demais,
que a mole humana que se adensa e arrufa
e satura nos amplos corredores,
nas ruas e nas lojas, nos mercados
(valendo-se da casa de penhores,
como outrora do livro de fiados);
pudesse do Natal dizer que é muito,
muito mais que o bulício que se sente
atraído pelo larvar intuito
da febre consumista, futilmente,
que faz da pretensão de ter e haver
o santo-e-senha contra o próprio ser.

Domingos da Mota

[inédito]