12/02/2019

Xerazade

Há quase mil noites que estou a inventar,
dói-me a cabeça, tenho a língua
seca e esgotadas as capacidades
e a imaginação. Nem sequer sei
se as minhas mentiras me salvarão.


Sherezade

Llevo casi mil noches fabulando,
me duele la cabeza, tengo seca
la lengua y agotados los recursos
y la imaginación. Y ni siquiera
sé si me salvaré con mis mentiras.

Amalia Bautista

Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Eufeme magazine de poesia 10 Janeiro/Março 2019, Editor Sérgio Ninguém 

11/02/2019

NOSTALGIA

Cada vez mais escassos
os momentos que quero recordar:
alguma manhã de Primavera,
alguma tarde de Outono,
algum instante em que ocorreu
desistir de imaginar
como será o mundo,
depois de o abandonar.

José Alberto Oliveira

Telhados de Vidro, N.º 23 . Novembro . 2018, Averno, Lisboa

09/02/2019

Canivete

A cheirar ainda a laranjas
depois de anos nesta gaveta
entre botões, clipes,
envelopes e óculos velhos...

uma prenda tua;
destinado a cortar,
é a coisa que nos liga
de algum modo.


Penknife


Still smelling of oranges
after years in this drawer
among buttons, paperclips,
envelopes, old specs ...

a present from you;
designed to sever,
it's the one thing
that somehow connects.

Pat Boran

o sussurro da corda, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições Sérgio Ninguém/Eufeme, Dezembro 2018

06/02/2019

POEMA

Para o banquete com talheres de prata
chegam os poetas com as musas ao colo
elas todas nuas
eles de gravata

servem-se as lagostas
ao som do piano
e depois a carne
carne de licorne
desce de aeroplano

tudo com muitos vinhos
de vários sabores
por copos infindos
como são os amores

e após o banquete
entre aves canoras
os poetas e as musas
saem para o espaço
em camas voadoras

António José Forte

Uma Faca nos Dentes, Prefácio de Herberto Helder, Desenhos e fotografias de Aldina, Parceria A. M. Pereira Livraria Editora, Lda., Lisboa 2003

04/02/2019

DESESPERO

Nem a alegria nem o amor
poderemos esquecer à entrada dos bosques
quando regressamos,
quando uma rosa de sangue se abre de
par em par
nas janelas abertas pela pancada dos
ventos.
E aí,
caminhando para as fontes,
as mulheres do silêncio, as irmãs, as mães,
enchem os cântaros da sua melancolia.
Já se foram embora,
já ninguém as vê,
quando ao anoitecer as chaminés soltam
o fumo,
e mais longe, debilmente,
se ouve uma canção desesperada.

José Agostinho Baptista

ANJOS CAÍDOS, Assírio & Alvim, Outubro 2003

29/01/2019

[Tem pêlos no coração.]

Tem pêlos no coração.
Nas artérias, nas veias,
os pêlos serão ou não
tecidos como se teias?

E na língua terá ele
também uns pêlos hirsutos?
E os pêlos da sua pele
serão limpos, impolutos?

Passar-lhe a mão pelo pêlo,
distraí-lo, pô-lo a jeito
de lhe espetar o escalpelo,
será um crime perfeito?

Domingos da Mota

20/01/2019

17/01/2019

13/01/2019

Se o rio fosse negro

Se o rio fosse negro,
se o monte fosse branco,
se um grão de desapego,
uma pitada de espanto

criassem desassossego,
dessem cabo do marasmo,
mas não dão, por isso nego-
-me a abrir a boca de pasmo.

Domingos da Mota

[inédito]

12/01/2019

INSTRUÇÕES

Aperte o cinto em caso de emergência
É proibido falar com o motorista
Favor deixar a grana da gorjeta
Não alimente o pombo ou o turista
Libere o pombo em caso de polícia
É permitido beijar o manobrista
Evite circular pela direita
Tem gente demais por essa pista

Antonio Carlos Secchin

DESDIZER, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S.A., Lisboa, abril de 2018

01/01/2019

Dia 1 de Janeiro


     Não me mostres nenhum norte
       nem estradas para lá:

       A. M. Pires Cabral


Não me tracem bissectrizes,
azimutes, direcções:
o tempo, como as raízes,
não precisa de sermões,

de decretos e alvitres
e nem sequer de parábolas,
de conselhos e palpites,
mnemónicas ou cábulas.

Não me indiquem outro norte.
O caminho que fizer
passará pelo desnorte
se algum desnorte houver;

e mesmo que não conteste
as mais loucas ilusões,
ficarei por certo a leste
da melhor das intenções.

Domingos da Mota

31/12/2018

Passagem de ano

Um ano passa, vem outro:
se fosse novinho em folha,
mas de novo tem apenas
a folha do calendário,

o aumento dos impostos,
das portagens, das viagens
e das coisas necessárias
para uma vida frugal;

contudo seja bem-vindo
o novo que se anuncia,
enquanto o velho, partindo,
cospe fogo de alegria.

Domingos da Mota

24/12/2018

Poema de aniversário

Se nem sequer a família
se lembra do aniversário
(mas não esquece
a quezília,

antes pelo contrário),
como podes esperar
que os amigos
(virtuais)

te venham felicitar
pelos teus
setenta
e tais?

Domingos da Mota

[inédito]

23/12/2018

[Que seja]

Que seja
claro
um passo
sobre a terra

como é
flagrante

a composição
de uma
pedra

Vasco Gato

Um Passo Sobre a Terra, fotografias de Vitorino Coragem, Língua Morta, Setembro de 2018

17/12/2018

OUTONO

Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas
                                                             [arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.

Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.

As folhas juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.

Nuno Júdice

A NOÇÃO DE POEMA, Publicações Dom Quixote, Março de 1972

15/12/2018

Prosa para 2018

Malgrado as ondas curtas e as massagens
ao longo da coluna vertebral,
ultra-sons e correntes que interagem
da região lombar à cervical;
malgrado a diferença de calores,
ultra-sons, massagens, panos quentes,
e os ossos a ranger, sem estridores,
e as dores pouco a pouco mais dormentes;
e um dia atrás do outro e outro ainda,
e o ciclo normal de tratamentos,
e a contractura tensa, desavinda
com estes e com outros andamentos:
malgrado tanto mas, porém e pois,
bem-vindos sejam os meus setenta e dois

Domingos da Mota

[inédito]

13/12/2018

Alma Perdida

Duas flores sobre a mesa
uma para ti, a outra
para o corvo
Eu não era uma pedra no jardim
uma estrela no céu
ou uma pena na asa das nuvens
eu era uma alma primitiva como o fumo
pairando no isolamento dos seres
entrando como as intimidades no coração
e no olhar
Eu não tinha terra
a minha presença era a ausência

Fui sempre o silêncio das fontes
o murmúrio das pedras abrindo-se à erva
ou a revelação da terra devastada

Deixa-me pois
e fecha-me como um livro qualquer

Duas flores sobre a mesa
uma para ti
a outra
para o corvo

Iusuf Abdelaziz


PEQUENA ANTOLOGIA DA POESIA PALESTINIANA CONTEMPORÂNEA, Selecção e tradução de Albano Martins com um desenho de Alberto Péssimo, Edições ASA, Porto, 2003

05/12/2018

Bibliografia

Publicaste um livro.
Tens outro na editora.
(Na gaveta,
alguns

aguardam melhores
dias.)

Não esperes muito.
Se não for agora,
as traças comerão
a bibliografia.

Domingos da Mota