26.5.17

Quantos zeros à direita

    Ao passado  --  para quê -- não lhe peço contas,
     faltam-lhe muitos dedos para as fazer todas.

     Jesús Jiménez  Domínguez


Quantas mãos e quantos dedos
teria de convocar
para contar os erros
sem máquina de calcular?
E entre os dedos mais ávidos
de saber o número certo
afogueados ou pálidos
com o saldo a descoberto
quanto tempo duraria
a sua tarefa ingrata
agravada dia a dia
pelos erros à socapa?
E depois da conta feita
quantos zeros 
à direita?

Domingos da Mota

[inédito]

24.5.17

como corrói

      (aos amigos brasileiros)


mal saberei
o quanto dói
apenas sei
como corrói:
ferida aberta
oh como infecta
como supura
com a ameaça
de ditadura

Domingos da Mota

[inédito]

pura evidência

não se fez nada para crescer
não se fez nada para aumentar
não se fez nada para entender
não se fez nada para alcançar
mas fez-se tudo para descer
mas fez-se tudo para acanhar
mas fez-se tudo para perder
mas fez-se tudo para afundar
rogou-se até que o diabo
mostrasse os cornos o satanás
e perseguisse de cabo a rabo
quem agastasse o capataz
não se fez nada diz a eminência:
aconteceu. pura evidência.

Domingos da Mota

[inédito]

23.5.17

redes


quem poste
quem leia
quem goste

tresleia
quem olhe
perfilhe
acolha

partilhe
quem veja
atente
reveja

comente
quem espreite
repare
rejeite

dispare
censure
invective
rasure

se esquive
quem mostre
desgoste
quem siga

persiga
quem faça
desfaça
insulte

ameace:

do nódulo
ao quisto
pequeno 
ou graúdo

quem ache
que tudo
é visto
e revisto

Domingos da Mota

PIOLHO 021 [REVISTA DE POESIA] Edições Mortas, Abril 2017

22.5.17

ofício de

o oficio de ouvir, de estar à escuta,
o ofício de ver e de prever
um disparo fortuito, uma disputa
que possa de repente acontecer,
o ofício de ler nas entrelinhas,
ofício de sentir de onde sopra
a brisa com as asas miudinhas
ou a língua de fogo que galopa,
ofício de cheirar desde o perfume
ao esturro que alastra na panela,
ofício de no meio do negrume
encontrar uma porta, uma janela,
um farol que desvie os navegantes
das arribas abruptas e cortantes.

Domingos da Mota

[inédito]

21.5.17

simulacro

voz roufenha 
soava
ressoava

ordenava 
saída
de emergência

evacuação
célere
do centro

repetia
ordem seca
grave

voltava a
soar fanhosa
cava

Domingos da Mota

[inédito]

20.5.17

ÚLTIMO OLHAR PARA A ILHA KIRRIN

Viver consiste em ir perdendo coisas:
o leme do ar nos cabelos, os amores,
as lembranças, os remos dos dias felizes.
Ao dizer-lhes adeus com a mão
deixamos no ar a casca da despedida,
vemos passar as bicicletas sem ninguém
a caminho da ferrugem, a arder sem som.
Outros invernos cegaram as lanternas,
apagaram os binóculos e ficamos mais longe.
A cerveja de gengibre bebeu-a o sol do fim  do dia
e a empada de carne, tal como a infância
foi comida pelas moscas.

Jesús Jiménez Domínguez

ensinar o eco a falar, tradução de Maria Sousa, edição do lado esquerdo, exemplar 15/100, Coimbra / Fundão, Abril de 2017

19.5.17

modo de ver

digo? não digo?
ouço e calo?
nego? desdigo?
falo? não falo?
se não consigo
se não embalo
nem contradigo
se não me ralo
se tudo está
dito e contado
melhor será 
ficar calado?
terá ou não
razão de ser
e de dizer
sem interdito
outra versão
modo de ver
e de abranger
o inaudito?

Domingos da Mota

[inédito]

17.5.17

Má para a poesia

A meia idade é terrível para a poesia,
Sobretudo para um surrealista.
Perder a vista é perder palavras.

Que correu mal? Não sabe.
A luz matinal ainda cai nas folhas.
A pessoa que ele era morreu há anos.

Agora, sentado numa poltrona,
Fixa os olhos na parede branca em frente,
Protegendo-os da luminosidade.


Bad for verse


Middle age is bad for verse,
Specially for a surrealist.
A loss of vision is a loss of words.

What went wrong? He doesn't know.
The morning light still falls on leaves.
The man he was died years ago.

Now, sitting in an easy-chair,
He stares at the blank wall in front,
Shading the eyes to cut the glare.

Arvind Krishna Mehrotra

antes de o tigre se abrigar, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições Sérgio Ninguém (Eufeme), 2017

16.5.17

Faduncho do malware

   no nosso computador
     o fado é o software

     Vasco Graça Moura


se o fado é o software,
que fazer quando o faduncho
dissemina o malware
como se fosse caruncho
no disco, no disco rígido
de qualquer computador,
e o disco fica frígido,
carregado de estupor?
limpar o vírus? pagar
o resgate em bitcoins,
como decreta o hacker
autoritário, esquizóide,
no espaço cibernético,
será útil? será ético?

Domingos da Mota

[inédito]

15.5.17

Caminho das pedras

O chão que pisas, chão de terra
Dura, saibro, seixos, pedras, erva
Seca, tojo e urtigas,
E a secura das pernas
A correr Ceca e Meca,
E as pegadas visíveis dos sapatos
E o rasto das sandálias e dos pés
E os espinhos dos cactos e dos cardos:

E se um veio da fonte de Castália
Transvazasse da nascente de água
Pura e jorrasse entre as dunas
Do deserto, oásis no meio da secura,
Da aridez de quem trilha ou chega perto
Do caminho das pedras e calhaus --
Farto de serpentes
E lacraus?

Domingos da Mota

[inédito]

9.5.17

Ensaio sobre a visão

    Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

     José Saramago


Se podes olhar,
Se podes ver,
Se podes reparar,

Olha em redor,
Repara no que está
A acontecer,

Com minúcia,
Detalhe,
Pormenor.

Não deixes
Porém
De comprovar

Se o que vês
É real
Ou uma visão,

Um transtorno
Delirante,
Singular,

Acaso
Uma suposta
Aparição.

Domingos da Mota

[inédito]

7.5.17

e, de súbito

porque hoje é segunda-feira
e, de súbito, domingo,
uma semana inteira
mais veloz que um relâmpago,
ou como a vida se abeira
do seu fim, cheia de espanto.

Domingos da Mota

[inédito]

6.5.17

Sonâmbulo

Foram muitos os sonhos e, sonâmbulo,
com os olhos abertos, às escuras,
passou noites em volta do preâmbulo
sem entrar no miolo das leituras;
e mal ouvia o galo que espalhava
o seu canto diurno, matutino,
voltava para a cama e dormitava
até que o acordasse o sol a pino.
Foram muitos os sonhos e utopias
que assumiu sem cuidar das sequelas,
abraçando o real e as fantasias
(a contar mais carneiros que estrelas),
mas apesar do tempo dissipado,
não chora sobre o leite derramado.

Domingos da Mota

[inédito]