20/10/2018

Olhos de lince

Olhos de lince
De olhar arguto:
O destro, lírico.
O sestro, lúbrico?

Domingos da Mota

[inédito]

16/10/2018

[Há quem mate por tudo e por nada]

Há quem morra de morte morrida
Há quem morra de morte matada
Há quem morra de bala   perdida
Há quem morra de faca espetada
Há quem morra de  morte pequena
Há quem morra na beira da estrada
Há quem morra de  morte    serena
Há quem mate por tudo e por nada
Há quem faça do   ódio   bandeira
Há quem vote no ódio como medo
De que a vida fugaz     passageira
Perca o chão mas mais tarde ou mais cedo
Ante a faca    do ódio   a fulgir
Sinta o medo a rosnar e a latir

Domingos da Mota


[inédito]

08/10/2018

DUPLICIDADE DO TEMPO

O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injecta em cada um seu veneno.

A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejectos
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.

João Cabral de Melo Neto

POESIA COMPLETA 1940-1980, Prefácio de Óscar Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Maio de 1986

29/09/2018

IMPROMPTU

E assim te foste, luz de vaga-lume,
feita de segredo e brevidade.
Impossível definir aquele perfume
que o teu surgir me trouxe nessa tarde.

Alberto de Lacerda

Labareda - Poemas escolhidos, Selecção e prefácio: Luís Amorim de Sousa, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Junho de 2018

22/09/2018

CARÊNCIA

Eu não sei de pássaros
não conheço a história do fogo.
Mas julgo que a minha solidão deveria ter asas.

*

LA CARENCIA


Yo  no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

Alejandra Pizarnik

Antologia Poética (edição bilingue), Tradução de Alberto Augusto Miranda, Selecção de Poemas de Alberto Augusto Miranda, António Sá Moura, Carlos Saraiva Pinto, o correio dos navios | estratégias criativas, Porto

19/09/2018

FILMITALUS

1.

Quando se apagavam as luzes no Sonoro Cine
e no ecrã aparecia a palavra Filmitalus
a tremer como se estivesse à superfície
dum líquido sobre o qual fossem pingando
finas gotas de som (de cítara, parecia),

nós, que com quinze anos tínhamos entrado
(porque o polícia compincha fechou os olhos)
para um filme para maiores de dezoito,
já sabíamos que o filme que aí vinha
era dos 'tais' -- quero dizer, dos que mostravam
beijos que escaldam, alguma coisa
das coxas de uma mulher, alguma coisa
duma cena de alcova,

não demasiado, mas o suficiente
para mais tarde, já entre lençóis,
ajustarmos contas com a actriz, mediante
os manejos solitários do costume --
aquilo a que, por riso e não por pudor,
dávamos o pitoresco nome de gaiola.

2.

E isto no tempo em que Deus não era mais
que uma desajeitada
distorção de si mesmo e, pela severa
boca dos seu vigários, proibia
masturbações e manobras afins --

-- o que, uma vez apaziguadas as hormonas,
nos trazia ressacas contritas, arrependimentos,
juras de que aquela tinha sido a última vez.

Mas agora pergunto eu:
se nos queria castos, arredados do corpo,
porque permitia Deus que se fizessem filmes assim
e houvesse mulheres como Anna Magnani
-- que nos abrasavam e tão facilmente
forçavam as muralhas da nossa castidade?

A. M.Pires Cabral

Trade Mark, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Agosto de 2018

17/09/2018

Guerra

O dedo a tremer de uma mulher
Percorre a lista de vítimas
Na noite da primeira neve.

A casa está gelada e a lista é longa.

Estão lá os nossos nomes todos.

*

War


The trembling finger of a woman
Goes down the list of casualties
On the evening of the first snow.

The house is cold and the list is long.

All our names are included.


Charles Simic

o último soldado de napoleão, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro de 2018

16/09/2018

LOBOS? SÃO MUITOS

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

Hilda Hist

[Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, Ed. Massao Ohno, S. Paulo, 1974]

O POVO, MEU POEMA, TE ATRAVESSA, Antologia poética de língua portuguesa nos cem anos da revolução de outubro, Selecção e Prefácio, Francisco Duarte Mangas, Modo de Ler - Centro Literário Marinho, Lda., Porto

05/09/2018

POESIA AMERICANA

Embora o nome deles
Não deva ser revelado,
Muddy Waters chamava-se
Mckinley Morganfield,
Howlin' Wolf chamava-se
Chester Burnett,
Bo Diddley chamava-se
Elias Mc Daniels,
Sonny Boy Williamson chamava-se
Aleck Miller,
Slim Harpo chamava-se
James Moore,
E Bob Dylan chama-se
Robert Allen Zimmermann.

José Pascoal

NERVO / 3 colectivo de poesia setembro-dezembro 2018

03/09/2018

Museu Nacional do Rio de Janeiro

Não fosse o descaso
vulgar, asinino,
não fosse o desleixo
dos outros ou nosso,

não fosse o descuido
brutal ou supino
que diz que não pode,
mas que fala grosso,

não fosse a incúria,
não fosse o desprezo,
não fossem as teias,
não fossem as tramas,

não fosse o menoscabo,
o letal menosprezo,
a memória ferida:
não fossem as chamas.


Domingos da Mota

[inédito]

01/09/2018

cançoneta para um ausente

não sei se ainda bolinas
e se te é farta a colheita
dos apêndices
se trabucas ou petiscas
donzelas do intendente

não sei nem o ar de tua
tumba sequer desmente
se ainda inoculas
a rubros golpes de tinto
as musas dos sonetos

não sei sadino irmão
se há ainda eficaz
remédio
pois nesta bela choldra
muita lírica se assemelha
a putrefacto exscremento

João Rios

Não é grave ser português, capa Pedro Pousada, Abysmo, Lisboa, Abril 2018

29/08/2018

Livraria Lello

No fim
da bicha?
Está
na fila?
Sorri,

cochicha,
fala,
refila,
o pé
comicha,

de pé,
aguarda,
procura
a senha,
ei-la,

mas tarda
um passo
em frente,
a fila
é longa:

gente
e mais
gente:
quanta
delonga.

Domingos da Mota

[inédito]

24/08/2018

LEGENDA

Quero o silêncio perfeito
onde minha lembrança não abra rios de sangue.

Luís Amaro


DIÁRIO ÍNTIMO 
____________________

DÁDIVA E OUTROS POEMAS, 2.ª Ed., com prefácio de Albano Nogueira & testemunhos epistolares inéditos, &etc 2006

22/08/2018

CRIA-SE A MORTE NO TEU LEITO ABERTO

Cria-se a morte no teu leito aberto
entre a rosa deleite e a buganvília
que em mim tinge-se o peito de vermelho
Sei que fazia sempre o meu nó cego

Na vaga cintilante dorme um monstro
marinho que se esconde nos desertos
Apenas se apercebem as doninhas
do rodar deste tempo noites frias

A cal viva lacrado um sobrescrito
existe algures no reino da Moirama
oscila o templo o pêndulo vazio
Cai nos espaços mortos do sigilo

José Afonso

Textos e canções, 3.ª edição revista, Organização Elfriede Engelmayer (1.ª edição, Organização J. H. Santos Barros), Relógio D'Água Editores, Outubro de 2000

15/08/2018

Pintura

O céu não clareou completamente, depois da morrinha
No retiro secreto, a meio da jornada, demasiado preguiçoso
                                                                             para sair
Sentado observo a cor verde do musgo
Ele começa a trepar pela minha roupa.

Wang Wei

HABITAR O VAZIO, Versões e Notas de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne

14/08/2018

Do lado dos abrunheiros

Os frutos alternam entre o vermelho maduro e o verde,
Como se flores de novo desabrochassem
Na montanha, se queremos reter um convidado,
Oferecemos-lhe um copo de aguardente de abrunho.

Wang Wei

HABITAR O VAZIO, Versões e Notas de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne

13/08/2018

AMAR

Amar foi durante muito tempo
gravar iniciais adolescentes,
no fuste das tílias.

Era então uma espécie
de idade de ouro do amor.

Mas tive de aprender à minha custa
que amar pode ser tão envolvente
como um polvo:
ama-se em muitas frentes.

Aprendi que amar, entre outras coisas,
é também navegar nas águas da noite
adultamente
sem bússola e sem cautelas,
à proa fugidia dum batel.

E que, em casos mais desesperados,
é ir aos trambolhões de mar em mar.
Tumultuosamente. Sem ser correspondido.
E em chamas, se preciso for.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015