Sublevas a luz:
macia de veludo
tua pele desprende
aromas subtis
e o fulgor alucina
leve desenvolto
num sorriso de sol
e sal quase feliz:
odores que latejam
sensuais translúcidos
apascentam promessas
(meneias os quadris)
e brilham as retinas
que o rubor seduz:
sublevas o lume
a túmida raiz
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
14.6.26
4.6.26
A corveia
Depois de muitos anos, muitas lutas,
direitos e deveres, contratos mil,
arroga-se um poder de vistas curtas
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a torpeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
direitos e deveres, contratos mil,
arroga-se um poder de vistas curtas
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a torpeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Domingos da Mota
30.5.26
Variações sobre o ritmo
Em ritmo acelerado
o coelho pisa a relva,
e manda o seu recado
ao prostituto na selva
que ajudou a criar
e gostaria de ver
mais agreste, dura, densa.
O ambiente larvar
que anima o populismo
alimenta-lhe a crença
de um dia executar
o seu projecto adiado,
com manifesto
Domingos da Mota
o coelho pisa a relva,
e manda o seu recado
ao prostituto na selva
que ajudou a criar
e gostaria de ver
mais agreste, dura, densa.
O ambiente larvar
que anima o populismo
alimenta-lhe a crença
de um dia executar
o seu projecto adiado,
com manifesto
arrivismo.
Domingos da Mota
29.5.26
Os corvos
Cria corvos e eles te comerão os olhos.
Provérbio espanhol
negrejar os campos
onde espantalhos
serviçais
se agitam?
Pousam.
Crocitam.
© Domingos da Mota
17.5.26
O PINTOR BÊBADO
Noite. Bebo. Pinto.
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
(colhido aqui)
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
Antonio Carlos Secchin
Desmentir, Patuá Editora, 2026
(colhido aqui)
1.5.26
Primeiro de Maio
Tanta bandeira
vermelha
Teresa Horta
Tanta bandeira
vermelha
tanto sol
quanta alegria
tanta gente
nova e velha
ombro a ombro
de mãos dadas
rua afora
neste dia.
Fosse agora
como outrora
maré alta
um mar de gente:
tanta bandeira
vermelha
a drapejar
livremente.
© Domingos da Mota
vermelha
Teresa Horta
Tanta bandeira
vermelha
tanto sol
quanta alegria
tanta gente
nova e velha
ombro a ombro
de mãos dadas
rua afora
neste dia.
Fosse agora
como outrora
maré alta
um mar de gente:
tanta bandeira
vermelha
a drapejar
livremente.
© Domingos da Mota
28.4.26
ESTALACTITE
VII
O pulsar
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem, Publicações Dom Quixote, 3.ª edição, Setembro de 1969
27.4.26
vita brevis
a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
25.4.26
ELEGIA
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
24.4.26
Abril
De Abril recordo o ano, o mês e o dia
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
21.4.26
TEIA-TRELA
Um poeta senta-se
passa um outro poeta
passa um outro poeta
O poeta levanta-se
diz-lhe "bom dia!"
O outro
diz-lhe "bom dia!"
O outro
simplesmente passa
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
13.4.26
no princípio era o beijo
no principio era o beijo
envolto pelo abraço
que ateou o desejo
com lesto desembaraço
entre a língua e os dentes
em busca da outra língua
deixando as duas frementes
a saciar-se da míngua
tal a fome a sede louca
da volúpia boca a boca
envolto pelo abraço
que ateou o desejo
com lesto desembaraço
entre a língua e os dentes
em busca da outra língua
deixando as duas frementes
a saciar-se da míngua
tal a fome a sede louca
da volúpia boca a boca
Domingos da Mota
12.4.26
ESTRATÉGIAS
1.
Água
pedras (sem arestas)
artefactos de cerâmica
espátulas de madeira
tersórios
esponjas marinhas
folhas de couve
conchas
pescoços de ganso
(os preferidos de Rabelais)
rolos de papel
2.
Na falta de papel
até um poema serve
Jorge Sousa Braga
A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024
11.4.26
Oliveira
Venho da Palestina
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
José Efe
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Do vinho elixir da vida
33.
bebe vinho, ele te devolve a alegria da juventude;
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
Omar Khayyam
versões de José Queiroga
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
7.4.26
[Da fúria épica]
Da fúria épica:
Fúria neurótica?
Fúria imagética?
Fúria caótica?
Fúria filípica?
Fúria virótica?
Fúria selvática?
Fúria ciclópica?Fúria lunática?
Fúria entrópica?
Fúria apocalíptica?
Fúria despótica
Domingos da Mota
(imagem colhida numa página de JE-N, no Facebook)
6.4.26
Onfaloscopia
O seu umbigo é o centro
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
29.3.26
Tentar perceber um poema
Tentar perceber um poema
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
Sérgio Ninguém
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
20.3.26
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar,
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar,
vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse
porque os dias passam sobre os dias
e de perscrutar a essência de deus nas geometrias
ainda se podem encontrar alguns vestígios.
às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas,
e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam
que alguém vindo do vento os denomine:
um selim, maçãs, tílias, mulheres,
um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse
porque os dias passam sobre os dias
e de perscrutar a essência de deus nas geometrias
ainda se podem encontrar alguns vestígios.
às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas,
e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam
que alguém vindo do vento os denomine:
um selim, maçãs, tílias, mulheres,
um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
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