19.10.21

Matéria escura

       a Manuel António Pina


Penso na matéria escura,
o grande pano de fundo
do que foi, é e perdura
desde o princípio do mundo,

matéria negra intangível,
espelho sem reflexo
do silêncio indecidível
das cordas do universo;

e nos mundos paralelos
que o espaço-tempo germina
como se fossem cabelos
da equação divina.

(inédito)


© Domingos da Mota

16.10.21

A via estreita

Sob a luz dos holofotes,
e a mexer os cordelinhos
com arreganhos, hissopes,
cenários e torvelinhos,

segue o santo no andor
(há quem diga de pau oco);
mas o grão-maquinador
não é parvo nem bacoco.

Tece intrigas e enredos,
leva a água ao seu moinho;
e acicata alguns medos
para forçar o caminho,

mesmo sendo a via estreita,
numa guinada à direita.


© Domingos da Mota

9.10.21

Uns atrás dos outros

Uns atrás dos outros, foram tantos
aqueles que partiram, sem aviso:
cheios de incertezas e de espanto,
o fôlego a faltar, sendo preciso

manter a vontade de viver,
agarrar-se à vida, e não dar azo
a que a foice ou a gadanha, a bem dizer,
ceifasse por descuido ou por acaso;

ou
então, numa luta contra
o tempo, vencidos pelo gélido
fim do prazo.

© Domingos da Mota

5.10.21

Fernando Echevarría (1929-2021)

Abstraído. Mas todo, corpo de si no pulso,
campeia além de si e a si estranho.
A luz, à volta, cumpre só vir do susto
de ver-se, de repente, separado
do outro corpo de jacência, mudo,
e onde ainda reinaria o espaço.
Que aqui tudo é primeiro. Ou tudo último.
Porque o tempo ficou naquele lado
em que se conta o percurso
por pontos sucessivos do seu trânsito.
Agora, somos prumo.
Vultos duríssimos durando,
com todo o corpo fora de nós. No pulso
que descobre outros em sua luz de espanto.


Fernando Echevarría

Sobre os Mortos, Edições Afrontamento, Porto, 1991

2.10.21

FICAR NA SOMBRA

Vens de tão longe
e olhamos por ti
nas ondas da noite

Esperamos desde sempre
são as primeiras
últimas coisas

Ficar na sombra
de mundo a mundo
ou arder em eclipse

O que queiram, enfim, dizer
as palavras aparecer
desaparecer, deslumbrar


José Manuel Teixeira da Silva

MÚSICA DE ANÓNIMO [poesia, 2001- 2009], Companhia das Ilhas, 2015

24.9.21

IN MEMORIAM

     ao meu Pai


Fosse vivo e teria
agora cento e dez anos.
Partiu há sessenta e sete,
tinha eu sete e ainda sinto

a falta que me fez,
mais do que pão para a boca,
o vazio que deixou
neste caminho de pedras,

de falta de ar que sufoca
quem tem de subir a pulso
e dá com o nariz na porta
uma e outra e outra vez

e, quando a porta se abre,
numa bicha aguarda
a vez,
mas raramente lá cabe.

Partiu há sessenta e sete,
muitos anos de distância:
quantos mais virão depois,
minha pobre ignorância.


© Domingos da Mota

14.9.21

SEGREDO

       A Rosa é o órgão sexual duma planta extremamente evoluída.

                       Ana Hatherly



Nada mais havendo que te desse,
oferecia-te uma rosa
em botão amargo e verde    ainda
num caule muito longo em solitário altíssimo
e o tempo
desfolhando o segredo lento dessa rosa
abrindo-se     madura
em flor.


Rita Taborda Duarte


Roturas e Ligamentos, Ilustrações e logótipo convidado: André da Loba, edição Abysmo. Lisboa, Novembro 2015

8.9.21

VIAGEM NA GRÉCIA

Visitando esta espécie de país
Demos com um pastor à beira-estrada,
Perito das ovelhas e de nada,
Mostrando os podres dentes pastoris.

Infelizmente o sol de mau cariz
Foi que nos trouxe à erma serra parda,
Turistas enfadados de alma à banda,
Heróis com menos olhos que nariz.

Falou dos alemães, da guerra suja,
Das casas destruídas, do penar,
Da morte que com vida nos intruja.

Os figos ali, e ele a falazar!
Ele que se vá antes que o sol fuja,
Que eu quero roubar figos pró jantar!


Manuel Resende

Poesia reunida, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

5.9.21

Futebol Americano

Uma reflexão sobre a Guerra do Golfo


Aleluia!
Funciona.
Rebentámos-lhes com aquela merda toda.

Rebentámos-lhes com a merda pelo cu acima
Até lhes sair pela porra das orelhas.

Funciona.
Rebentámos-lhes até com a merda.

Eles sufocaram na própria merda!

Aleluia.
O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Desfizemos aquela porra toda em merda.
Estão a comê-la.

O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Rebentámos-lhes os tomates em estilhaços de pó,
Na porra de estilhaços de pó.

Conseguimos.

Agora quero que venhas aqui e me beijes
     na boca.


Agosto de 1991


Harold Pinter


Guerra, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, Quasi edições