É quarta-feira de cinzas
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,
não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.
O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho
que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.
© Domingos da Mota
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
18.2.26
15.2.26
ciática
esta dor aguda, fina
que vai da anca ao pé
esquerdo, e que amofina
e que mói, esta dor é
bem pior que a dor de dentes
insuportável, somática
ou não fosse, secamente
a lanceta da ciática.
que vai da anca ao pé
esquerdo, e que amofina
e que mói, esta dor é
bem pior que a dor de dentes
insuportável, somática
ou não fosse, secamente
a lanceta da ciática.
Domingos da Mota
12.2.26
'malware'
no nosso computador
o fado é o software
Vasco Graça Moura
sendo o fado o software,
que fazer quando um pirata
dissemina o malware,
bem pior que uma barata
no disco, no disco rígido
de qualquer computador,
e o disco fica frígido,
carregado de estupor?
limpar o vírus? pagar
o resgate em bitcoins,
como decreta o hacker
autoritário, esquizóide
no espaço cibernético,
será útil? será ético?
© Domingos da Mota
7.2.26
Os corvos
Cria corvos e eles te comerão os olhos.
Provérbio espanhol
negrejar os campos
onde espantalhos
serviçais
se agitam?
Pousam.
Crocitam.
© Domingos da Mota
6.2.26
Tu que dás colo ao mostrengo
Tu que dás colo ao mostrengo
sempre que ele aparece,
e o apoias sabendo
que é pior do que parece,
sem cuidar que a natureza
do mostrengo é ser letal
(e que o sonho de grandeza
poderá ser-te fatal);
tu que chocas e embalas
o ovo do escorpião
(e da peçonha não falas,
e ofereces-lhe a mão),
não te agarres ao remorso
quando um dia, esburgado,
for apenas pele e osso
o que sobrar do sonhado.
sempre que ele aparece,
e o apoias sabendo
que é pior do que parece,
sem cuidar que a natureza
do mostrengo é ser letal
(e que o sonho de grandeza
poderá ser-te fatal);
tu que chocas e embalas
o ovo do escorpião
(e da peçonha não falas,
e ofereces-lhe a mão),
não te agarres ao remorso
quando um dia, esburgado,
for apenas pele e osso
o que sobrar do sonhado.
Domingos da Mota
1.2.26
Ad nauseam
Dão-lhe espaço, tempo, corda,
propalam a verborreia
com que o chefe da horda
tece o canto de sereia,
e matraqueiam até
à náusea os soundbites,
dando vazão à má-fé
com que arrebanha os incautos.
propalam a verborreia
com que o chefe da horda
tece o canto de sereia,
e matraqueiam até
à náusea os soundbites,
dando vazão à má-fé
com que arrebanha os incautos.
© Domingos da Mota
25.1.26
Peregrinatio ad loca abjecta
Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
Jorge de Sena
Quem aclama e dá palco
a tanta velhacaria?
Quem no fundo, lá no alto
da tocada soberbia,
incentiva o insulto,
acicata a picardia,
porventura de teúda
e manteúda perfídia?
Mas que polvo financia
as mentiras e trapaças,
e engorda enquanto cria
uma teia de ameaças?
© Domingos da Mota
22.1.26
Tubo de ensaio
Um galo de crista
airada de ódio,
o fogo de vista
de um facho serôdio
num tubo de ensaio
de laboratório?
Não sigo nem caio
no seu relambório.
airada de ódio,
o fogo de vista
de um facho serôdio
num tubo de ensaio
de laboratório?
Não sigo nem caio
no seu relambório.
© Domingos da Mota
1.1.26
Um de Janeiro
Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá
A. M. Pires Cabral
Não venhas com directrizes,
azimutes, direcções:
o tempo, como as raízes,
não precisa de sermões,
de decretos e alvitres
e nem sequer de parábolas,
de conselhos e palpites,
mnemónicas ou cábulas.
Não me indiques qualquer ponto
cardeal, como destino:
encontros e desencontros
farão parte do caminho
sinuoso, porventura
bem pior do que se augura.
Domingos da Mota
Domingos da Mota
[revisto]
25.11.25
Abril
De Abril recordo o ano, o mês e o dia
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
18.11.25
A corveia
Depois de muitos anos, muita luta,
direitos e deveres, contratos mil,
arrogam-se alguns filhos-da-puta
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a dureza
duma austera, apagada e vil tristeza.
direitos e deveres, contratos mil,
arrogam-se alguns filhos-da-puta
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a dureza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Domingos da Mota
13.11.25
Ad libitum
Amigos, uns quinhentos, virtuais,
são tantos, mas tão poucos os citáveis
que utilizam as redes sociais
em debates abertos, memoráveis
com doutos comentários que ademais
exijam uma aguda autocrítica.
De tantos e tão poucos, gosto mais
dos amigos frontais e não politica-
mente correctos, que aprofundam as
questões com perspicaz acutilância,
cabalmente, sem mas nem meio mas,
que mesmo quando em franca discordância,
a forma como os vejo é de modo
a não tomar a parte pelo todo.
são tantos, mas tão poucos os citáveis
que utilizam as redes sociais
em debates abertos, memoráveis
com doutos comentários que ademais
exijam uma aguda autocrítica.
De tantos e tão poucos, gosto mais
dos amigos frontais e não politica-
mente correctos, que aprofundam as
questões com perspicaz acutilância,
cabalmente, sem mas nem meio mas,
que mesmo quando em franca discordância,
a forma como os vejo é de modo
a não tomar a parte pelo todo.
Domingos da Mota
10.11.25
Teatro de sombras
Fosse o começo, mas é quase o fim;
e o fim começa quando principia
o lusco-fusco, a meia luz que o dia
deixa medrar até que a noite, enfim,
derrame a escuridão (o sol deserte
para o lado de lá do oceano),
enquanto deste lado sobe o pano
do teatro de sombras que promete
entrar em cena, sendo o palco o ser
que enche de ilusões o seu vazio
levado pela crença, e ao arrepio
da luz que a razão procure ter
sobre a húbris tocada por demónios
que geram impassíveis unicórnios.
Domingos da Mota
1.11.25
De profundis
Colho as flores negras do tempo
que murcharam no jardim;
as dobras do pensamento
são da cor do tempo assim
que tarda o esquecimento
dos que chegados ao fim
deixaram em testamento
uma saudade sem fim.
Do tempo não colho as rosas,
das searas o seu trigo,
e se adejam mariposas
o seu voo é tão antigo
que me perco, apesar
de ver a estrela polar.
que murcharam no jardim;
as dobras do pensamento
são da cor do tempo assim
que tarda o esquecimento
dos que chegados ao fim
deixaram em testamento
uma saudade sem fim.
Do tempo não colho as rosas,
das searas o seu trigo,
e se adejam mariposas
o seu voo é tão antigo
que me perco, apesar
de ver a estrela polar.
© Domingos da Mota
18.10.25
UMA LUZ ABSTRACTA
Era uma luz abstracta
quase de perfume.
Era uma rosa intacta
demoradamente nua.
J. Alberto de Oliveira
quase de perfume.
Era uma rosa intacta
demoradamente nua.
J. Alberto de Oliveira
14.10.25
Poeiras
Bem cedo hoje de manhã
mangueira na mão o meu vizinho
a correr com o Sara.
Francisco José Craveiro de Carvalho
Dois Primos Gémeos, Edição: Temas Originais, Lda., 2025
10.10.25
[Passos velhos na escada.]
Passos velhos na escada.
Um cansaço já antigo.
Ave desassossegada
Do caminho percorrido.
Uma raiva acetinada
- o corpo todo estremece -
Vem fria indiferente
Colocar-se a teu lado.
De repente decidida
Avança e triunfante
Te envolve e tortura.
Depois hesita. Recua.
Ficas só vendo passar
«A Senhora Dona Morte».
Um cansaço já antigo.
Ave desassossegada
Do caminho percorrido.
Uma raiva acetinada
- o corpo todo estremece -
Vem fria indiferente
Colocar-se a teu lado.
De repente decidida
Avança e triunfante
Te envolve e tortura.
Depois hesita. Recua.
Ficas só vendo passar
«A Senhora Dona Morte».
Liberto Cruz
ÚLTIMA COLHEITA [poesia reunida 1954-2021], Edição Carlos Nogueira, Officium Lectionis edições, Porto 2022
ÚLTIMA COLHEITA [poesia reunida 1954-2021], Edição Carlos Nogueira, Officium Lectionis edições, Porto 2022
20.9.25
ALEXANDRA PIZARNIK ATRAVESSA A ZONA PROIBIDA
A vida impõe-me condições a que não sei
responder, não sei como suportar esta réstia de sol
na minha cama, esta noite obstinada
no meu espírito, a sitiar-me o cansaço
de uma culpa insustentável, despovoada.
Não sei o que faço entre a vitória
e a derrota, desprovida de oblação e realidade,
enquanto nada temo e tudo me fere. Aqui se esgotam
as atribulações da bonança e não sei que tormenta
se seguirá. Ah, não fui profeta nesta terra
e as pequenas elegias que escrevi
foram as únicas conivências a que me permiti,
nesta greve de sangue, total e irrespondível.
Amadeu Baptista
responder, não sei como suportar esta réstia de sol
na minha cama, esta noite obstinada
no meu espírito, a sitiar-me o cansaço
de uma culpa insustentável, despovoada.
Não sei o que faço entre a vitória
e a derrota, desprovida de oblação e realidade,
enquanto nada temo e tudo me fere. Aqui se esgotam
as atribulações da bonança e não sei que tormenta
se seguirá. Ah, não fui profeta nesta terra
e as pequenas elegias que escrevi
foram as únicas conivências a que me permiti,
nesta greve de sangue, total e irrespondível.
Amadeu Baptista
As Sombras Nítidas, Edição RJV - Editores, Lda., Castelo Branco, Junho de 2025
11.9.25
Dies Irae
o ódio sopra uma bolha de desespero
na vastidão do sistema do mundo do universo e explode
e. e. cummings
Falo
agora dos tempos cegos,
surdos, das vinganças
cruéis, dos ódios
roucos, do terror
a bramir, do absurdo
encharcado de fé
até aos ossos. Das torres,
do poder, de tanto orgulho
a ruir das alturas,
bruscamente
(do riso amarelo dos abutres)
e da fúria das águias
e dos ventos.
© Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
na vastidão do sistema do mundo do universo e explode
e. e. cummings
Falo
agora dos tempos cegos,
surdos, das vinganças
cruéis, dos ódios
roucos, do terror
a bramir, do absurdo
encharcado de fé
até aos ossos. Das torres,
do poder, de tanto orgulho
a ruir das alturas,
bruscamente
(do riso amarelo dos abutres)
e da fúria das águias
e dos ventos.
© Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
24.8.25
WhatsApps
Ah, quanto afastamento! agarrados
aos Smarts, iPhones, TikToks,
e tantas, quase todos tatuados
nos mais estranhos sítios, e a reboque
de oblíquas mensagens que destilam
o ódio contra quem não segue os bandos,
as bandas, os clubes, nem desfilam
na cauda de rebanhos ou quejandos;
se no meio dum grupo, em família,
numa roda de amigos, WhatsApps
são o alfa e o ómega, razão
de muita desconversa e de quezília,
nem o toque dos sinos a rebate
sustará a constante obsessão.
aos Smarts, iPhones, TikToks,
e tantas, quase todos tatuados
nos mais estranhos sítios, e a reboque
de oblíquas mensagens que destilam
o ódio contra quem não segue os bandos,
as bandas, os clubes, nem desfilam
na cauda de rebanhos ou quejandos;
se no meio dum grupo, em família,
numa roda de amigos, WhatsApps
são o alfa e o ómega, razão
de muita desconversa e de quezília,
nem o toque dos sinos a rebate
sustará a constante obsessão.
Domingos da Mota
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