15/08/2019

OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE

II

2.

Esse tumulto anda, ouvido anda no ar, esse grave que
cresce, excessivo ligeiro.
Excessivo ligeiro, o deslize veloz, no sentido do grave,
no sentido da noite.
No sentido da noite, rumor evoluindo, no sentido da noite,
reversivo do mar.

Luís de Miranda Rocha

OS ARREDORES DO MAR, OS SUBÚRBIOS DA NOITE, Editora Limiar, Maio 1993

13/08/2019

PALAVRAS

Faço a travessia da noite
acossado por palavras.

Saem-me ao caminho com o cães
que guardam hortas,
ladram-me, procuram
morder-me os calcanhares.

Indóceis, sempre soturnas,
as palavras?

Pois são.
Mas é com elas que deito
remendos trapalhões
nesta espécie de sono com que à toa
e ingenuamente julgo limitar
os danos com que, com suas baionetas,
a noite me danifica.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

11/08/2019

Pássaro-bisnau

Um pássaro-bisnau
este pardal que ameaça
grasnar o tempo todo

pois não sabe cantar
nem bem nem mal - e veste
ricamente e pele de lobo

Domingos da Mota

10/08/2019

Micro-conto em forma de haiku

No princípio era um bidão
Acasalou com uma bomba de gasolina
que pariu um rancho de jerricãs

Domingos da Mota

03/08/2019

FORÇAS DE BLOQUEIO

Um padeiro com seios de ministro
Um jardineiro com sangue na relva
Um bispo sem púbis
Uma metáfora com coxas de rainha
Uma alforreca arrependida
Um bigode de freira seguido de beijo ortopédico
Uma vulva de gasolina Alberta toda a noite
Outra alforreca arrependida
Um piolho com crista de gato
Diversas pontadas nas costas
Um escalope com punho de renda
Um saco esotérico com pegas de cernelha
Um compasso de esper(m)a
E ainda
Certos outros rumores

João Gesta

Uma falha nos dentes, Porto Editora, Porto, maio de 2019

01/08/2019

Estudo para soneto: o estado da arte das golas, com estrambote

Gola alta
Gola marinheiro
Gola mandarim
Gola pescador

Gola chinesa
Gola prussiana
Gola holandesa
Gola em V

Gola Médicis
Gola Nehru
Gola careca
Gola em U

Gola com gorro
Gola anti-fumo

(Gola inflamável?)
Cabeção

Domingos da Mota

31/07/2019

PÁTRIA NOSSA

Pátria nossa que estais nos infernos
Vilipendiado seja o vosso nome
Venha a nós a vossa manjedoura
Seja feita a vossa boutade
Assim nos tribunais como na repartição
O pão nosso de cada dia
Nos sonegai hoje
Uma vez mais
Perdoai-nos as nossas virtudes
Assim como nós perdoamos
as vossas malfeitorias
Ensinai-nos a matar e estropiar
E não nos deixeis cair em expiação
Mas livrai-nos do bem
Am... ália

Sérgio Almeida

PERIFERIA, com um desenho de Paulo Moreira, octogésimo quarto título da colecção  o oiro do dia [nova série], Modo de Ler, Porto, Abril 2019

28/07/2019

Reportagem

Um beijo aqui, outro ali,
dois abraços, uma foto,
um comentário que ouvi,
uma sentença que anoto;
uma palavra, um alvitre,
um conselho, mais um beijo,
um sorriso, um palpite,
um parecer, um gracejo.

E toda esta canseira,
dia a dia, sem repouso,
com o séquito à beira
de dizer o que não ouso
da expedita roda-viva
que sacode a comitiva.

Domingos da Mota

25/07/2019

[O meu robe pendurado no jardim]

O meu robe pendurado no jardim
pingando como uma árvore.
Um dia vou sair
do meu corpo
exactamente assim.

*

My robe hangs in the garden,
dripping like a tree.
One day I'll step
out of my body
exactly like this

Peter Levitt

de Seis poemas* de Peter Levitt, do livro *One Hundred Butterflies, ed. Broken Moon Press, 1992, 110 pp., tradução de Sérgio Ninguém, Eufeme magazine de poesia 12 Julho/Setembro 2019

24/07/2019

Curso intensivo de afectibilidade

Os afectos - teoria e prática
O estado da arte dos afectos
Filosofia política dos afectos
Hermenêutica filosófica dos afectos

Sociologia política dos afectos
Economia política dos afectos
Geografia política dos afectos
Ontologia e ética dos afectos

Os afectos "captados pelas fotografias"
A administração pública dos afectos
Os afectos e suas indicações, contra-indicações,
Efeitos colaterais, doses e sobre-doses

Os afectos em tempo de eleições
Afectos versus desafectos
Cálculo simplificado dos afectos
Os afectos e a opinião pública e publicada

Domingos da Mota


16/07/2019

O diário habitual

Vou tomar café
ao café habitual,
a cem metros, vou a pé,
leio as gordas do Jornal
de Notícias, que é
o diário habitual.

Saúdo este e aquele,
vizinhos da mesma rua,
sem cuidar da cor da pele
ou das crenças ou da sua
visão do mundo - pois
não discuto filosofia
nem sequer religião
(e muito menos poesia)
com os vizinhos.

A conversa comum
tem a ver com o futebol;
mas se vejo um trinta-e-um
a pôr os cornos ao sol,
mudo de pouso ou de tema,
pois bolapé não debato;
ou então saio de cena,
com um manguito abstracto.

Domingos da Mota

13/07/2019

Pergunta retórica

Bloqueio, corte, exclusão
sem saber por que motivo,
o fundamento, a razão,
entre nós, qual o sentido?

Porque tiveste uma urgência,
porque não foste à sessão,
houve alguém, sua excelência
que, sem cuidar do senão,

resolveu excluir-te,
pôr-te de lado, apagar-te
e, doravante, banir-te
ou, quiçá, excomungar-te

de maneira categórica?
Fica a pergunta retórica.


Domingos da Mota

09/07/2019

POÉTICA (I)

DE MANHÃ escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
-- Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes

O POETA APRESENTA O POETA, antologia seleccionada e prefaciada por Alexandre O'Neill, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1969

08/07/2019

O nó

Não diz, insinua;
não expõe, oculta;
não declara, alude;
não afirma, inculca;

não espera, espia;
não encara, treme;
não fala, cicia;
não assegura, teme.

Simula um sorriso:
aperta ou dilata
o ar indeciso
e o nó da gravata.

Domingos da Mota

03/07/2019

SONETO ERRÁTICO

        com duas caudas
(codas, para gente distinta)


foi já há muito tempo
mas eu não lamento
eu não lamento
não lamento
o pouco
tempo
que
                                        foi.
pois é
parece que
lamentar esse
tempo que se diz
pouco fá-lo maior
mas já não é o que foi
só finge ter sido mas não
                                          é.

Alberto Pimenta

ZOMBO, edições do saguão, 1.ª edição, Lisboa, Maio de 2019

29/06/2019

Epigrama

Que não seja a maioria
Em qualquer democracia

Como a verdade apodíctica,
Absolutamente inequívoca.

Domingos da Mota

25/06/2019

NÃO É TARDE

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde. Foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.

José Miguel Silva

ULISSES JÁ NÃO MORA AQUI, & etc, Lisboa, Março de 2002

23/06/2019

Quadra sanjoanina II

Cuidado co'a lenha seca.
Uma faísca brejeira,
Se for levada da breca,
Pode atiçar a fogueira.

Domingos da Mota

22/06/2019

O começo de tudo

No primeiro dia, descansou.
No segundo dia, descansou.
No terceiro dia, descansou.
No quarto dia, descansou.
No quinto dia, descansou.
No sexto dia, descansou.
No sétimo dia,
entregou-se inteiramente
ao passar do tempo
o passar do tempo
passar do tempo
do tempo
tempo

Fabrício Marques

DiVersos - Poesia e Tradução / n .º 28 - fevereiro de 2019 (pp: 34, 35)

17/06/2019

Áporo

Um insecto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite,
raiz de minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

Carlos Drummond de Andrade

Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2015

10/06/2019

[E de súbito a urgência]

E de súbito a urgência
vira o dia do avesso:
tardado pela emergência,
quando será que regresso?

Domingos da Mota

09/06/2019

Tertúlia

A mesa pronta composta
17 cadeiras

vazias
28 pessoas dispostas

(bem-dispostas)
a conversar e a ouvir


Domingos da Mota

MELODIA

V


Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas...

Os pássaros quando morrem
caem no céu.

José Gomes Ferreira

POESIA. I, Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1969

01/06/2019

TEMPO

O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias só dum sorvo
como as corujas o azeite
dos lampadários bentos.

E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo dum paul
dormimos.

Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbado de luz,
caio ou não caio?)
nos lembra a dor do tempo que se perde.

Carlos de Oliveira

TRABALHO POÉTICO, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 3.ª Edição, 1998