Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência
tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.
Inês Lourenço
COISAS QUE NUNCA, &etc, Junho de 2010
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
7.11.26
1.11.26
PARA SEMPRE
Cavalgamos a luz.../ e eis-nos ante
O súbito lugar da eternidade:
O nó cego do tempo que nos há-de
Cumular de silêncio: doravante,
Rente ao chão do futuro deslizante,
Confina-se o devir que nos invade:
Irrompe, surde desde a intimidade
Da terra com a terra: culminante
Solapa-se o sentido dos sentidos:
Soterrados, dispersos, dissolvidos,
Talvez foz, para sempre, assoreada;
Talvez chuva de cinzas e de vento:
No baldio mais chão do esquecimento,
Talvez húmus apenas: pó/... e nada.
O súbito lugar da eternidade:
O nó cego do tempo que nos há-de
Cumular de silêncio: doravante,
Rente ao chão do futuro deslizante,
Confina-se o devir que nos invade:
Irrompe, surde desde a intimidade
Da terra com a terra: culminante
Solapa-se o sentido dos sentidos:
Soterrados, dispersos, dissolvidos,
Talvez foz, para sempre, assoreada;
Talvez chuva de cinzas e de vento:
No baldio mais chão do esquecimento,
Talvez húmus apenas: pó/... e nada.
Domingos da Mota
Pequeno trado das sombras, Busílis, 2018
Pequeno trado das sombras, Busílis, 2018
24.10.26
Quase-Haiku
Mudança de hora.
Atrasa-se o relógio
por dentro ou por fora?
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
12.10.26
Soneto das Horas
aos queridos mortos
Durs Grünbein
E manda-o também esperar a hora
de dar à luz a sua própria morte (...)
Rainer Maria Rilke
Por tardia que seja, é sempre cedo
Que se faz a viagem sem regresso,
Não sei se aliviada, se com medo
Da crença de que a vida tem um preço
A pagar no além, depois da morte.
Mas pior que a triste despedida,
Seria apresentar o passaporte
Da alma face à ausência de outra vida.
Outra vida haverá, havendo o ciclo
Do carbono que muda e transmuda,
E mesmo que o faça em contraciclo
Com a essência das coisas, talvez surda
Um ácido, uma base — uma semente
Que fecunde a matriz de um novo ente.
Domingos da Mota
Durs Grünbein
E manda-o também esperar a hora
de dar à luz a sua própria morte (...)
Rainer Maria Rilke
Por tardia que seja, é sempre cedo
Que se faz a viagem sem regresso,
Não sei se aliviada, se com medo
Da crença de que a vida tem um preço
A pagar no além, depois da morte.
Mas pior que a triste despedida,
Seria apresentar o passaporte
Da alma face à ausência de outra vida.
Outra vida haverá, havendo o ciclo
Do carbono que muda e transmuda,
E mesmo que o faça em contraciclo
Com a essência das coisas, talvez surda
Um ácido, uma base — uma semente
Que fecunde a matriz de um novo ente.
Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, edição Busílis, 2018
8.10.26
NEDA/TEERÃO
ruas, sem poesia
onde correm novo lamentos
mulheres e homens, em agitação desorientada
clamam e acusam a ofensa imensa
no extremo da multidão já se movem os cabelos delas
pouco cobertos
expostos sob as sedas mais coloridas que deslizam
lentas
cabeças perfeitas, dispostas ao antigo sacrifício
instantes:
a mancha vermelha da morte
impressa injusta presente
nas vestes contemporâneas
como vingar-te fora destas páginas?
Junho de 2009
Dália Dias
NÍVEIS DE CINZA, De Facto Editores, Santo Tirso, novembro 2025
4.10.26
INSEGURANÇA
3.
Opus vivendi
de Gustav Kilmt em tela de Verão,
de mão na garganta ao cair da folha
vou abrir-te a luz na camada de Outono,
ficam pêlos púbicos perdidos no chão.
António Ferra
de Gustav Kilmt em tela de Verão,
de mão na garganta ao cair da folha
vou abrir-te a luz na camada de Outono,
ficam pêlos púbicos perdidos no chão.
António Ferra
NÉFTYS, N.º 2 - Julho, 2026
Publicação não-periódica de poesia, coordenação e edição: Sérgio Ninguém
Publicação não-periódica de poesia, coordenação e edição: Sérgio Ninguém
18.9.26
Retrato
No alto do pedestal,
o Sr. S. é um sátrapa -
um mandarim feroz,
facundo, impositivo.
Cheio de mandamentos
quadrados e de
discursos cúbicos,
o Sr. S. agita imperativos
categóricos. Com o dedo
espetado, o Sr. S. ameaça.
De nariz apodíctico,
o Sr. S. fareja.
O Sr. S. é um crânio.
Um rato (fugaz)
de biblioteca:
Esgravata. Pesquisa.
Computa. Sopesa
números e adjectivos.
E traça percentagens.
E mói a paciência.
E dói-lhe o fígado.
E tem más digestões.
O Sr. S. é um mocho
com penas de pavão.
O Sr. S. é um aranhão
com patas de tarântula.
O Sr. S. é um verme.
O Sr. S. é um vírus.
O Sr. S. infecta.
O Sr. S. infesta.
E replica-se.
Alta figura
de estilo, capataz
dos capatazes,
o Sr. S. é o ponto final,
parágrafo.
© Domingos da Mota
in revista DI VERSOS - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé
o Sr. S. é um sátrapa -
um mandarim feroz,
facundo, impositivo.
Cheio de mandamentos
quadrados e de
discursos cúbicos,
o Sr. S. agita imperativos
categóricos. Com o dedo
espetado, o Sr. S. ameaça.
De nariz apodíctico,
o Sr. S. fareja.
O Sr. S. é um crânio.
Um rato (fugaz)
de biblioteca:
Esgravata. Pesquisa.
Computa. Sopesa
números e adjectivos.
E traça percentagens.
E mói a paciência.
E dói-lhe o fígado.
E tem más digestões.
O Sr. S. é um mocho
com penas de pavão.
O Sr. S. é um aranhão
com patas de tarântula.
O Sr. S. é um verme.
O Sr. S. é um vírus.
O Sr. S. infecta.
O Sr. S. infesta.
E replica-se.
Alta figura
de estilo, capataz
dos capatazes,
o Sr. S. é o ponto final,
parágrafo.
© Domingos da Mota
in revista DI VERSOS - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé
in 'Tempestade seca e outros poemas', Edição de Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
1.8.26
OLHAR PARA TRÁS
Cambaleante sai do vão da sombra
com seu passo de pássaro cansado.
Há muito que não fende o ar em vôo planado:
agora arrasta os pés por um atalho
na montanha, até chegar ao cume,
donde se avista o caminho andado.
António Barahona
RASPAR O FUNDO DA GAVETA E ENFUNAR UMA GÁVEA, Averno | 2011
com seu passo de pássaro cansado.
Há muito que não fende o ar em vôo planado:
agora arrasta os pés por um atalho
na montanha, até chegar ao cume,
donde se avista o caminho andado.
António Barahona
RASPAR O FUNDO DA GAVETA E ENFUNAR UMA GÁVEA, Averno | 2011
6.7.26
A meia adriça!
De um país tocado a ver a bola,
os olhos na pantalha ou no relvado,
que discute as jogadas, mata, esfola,
escalpeliza o jogo e o resultado,
e cumpre piamente essa função
e assiste com fervor à nova missa,
ao debate acirrado ou ao sermão
(e esconjura a bandeira a meia adriça);
de uma nação assim, arrebatada
que se julga a melhor entre as melhores,
e quando joga mal e é derrotada
vitupera os seus, e diz horrores
dos antigos heróis a quem verbera
com ferrenha paixão, o que se espera?
os olhos na pantalha ou no relvado,
que discute as jogadas, mata, esfola,
escalpeliza o jogo e o resultado,
e cumpre piamente essa função
e assiste com fervor à nova missa,
ao debate acirrado ou ao sermão
(e esconjura a bandeira a meia adriça);
de uma nação assim, arrebatada
que se julga a melhor entre as melhores,
e quando joga mal e é derrotada
vitupera os seus, e diz horrores
dos antigos heróis a quem verbera
com ferrenha paixão, o que se espera?
Domingos da Mota
17.5.26
O PINTOR BÊBADO
Noite. Bebo. Pinto.
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
(colhido aqui)
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
Antonio Carlos Secchin
Desmentir, Patuá Editora, 2026
(colhido aqui)
28.4.26
ESTALACTITE
VII
O pulsar
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem, Publicações Dom Quixote, 3.ª edição, Setembro de 1969
27.4.26
vita brevis
a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
25.4.26
ELEGIA
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
21.4.26
TEIA-TRELA
Um poeta senta-se
passa um outro poeta
passa um outro poeta
O poeta levanta-se
diz-lhe "bom dia!"
O outro
diz-lhe "bom dia!"
O outro
simplesmente passa
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
12.4.26
ESTRATÉGIAS
1.
Água
pedras (sem arestas)
artefactos de cerâmica
espátulas de madeira
tersórios
esponjas marinhas
folhas de couve
conchas
pescoços de ganso
(os preferidos de Rabelais)
rolos de papel
2.
Na falta de papel
até um poema serve
Jorge Sousa Braga
A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024
11.4.26
Oliveira
Venho da Palestina
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
José Efe
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Do vinho elixir da vida
33.
bebe vinho, ele te devolve a alegria da juventude;
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
Omar Khayyam
versões de José Queiroga
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
6.4.26
Onfaloscopia
O seu umbigo é o centro
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
29.3.26
Tentar perceber um poema
Tentar perceber um poema
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
Sérgio Ninguém
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
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