15/12/2018

Prosa para 2018

Malgrado as ondas curtas e as massagens
ao longo da coluna vertebral,
ultra-sons e correntes que interagem
da região lombar à cervical;
malgrado a diferença de calores,
ultra-sons, massagens, panos quentes,
e os ossos a ranger, sem estridores,
e as dores pouco a pouco mais dormentes;
e um dia atrás do outro e outro ainda,
e o ciclo normal de tratamentos,
e a contractura tensa, desavinda
com estes e com outros andamentos:
malgrado tanto mas, porém e pois,
bem-vindos sejam os meus setenta e dois

Domingos da Mota

[inédito]

13/12/2018

Alma Perdida

Duas flores sobre a mesa
uma para ti, a outra
para o corvo
Eu não era uma pedra no jardim
uma estrela no céu
ou uma pena na asa das nuvens
eu era uma alma primitiva como o fumo
pairando no isolamento dos seres
entrando como as intimidades no coração
e no olhar
Eu não tinha terra
a minha presença era a ausência

Fui sempre o silêncio das fontes
o murmúrio das pedras abrindo-se à erva
ou a revelação da terra devastada

Deixa-me pois
e fecha-me como um livro qualquer

Duas flores sobre a mesa
uma para ti
a outra
para o corvo

Iusuf Abdelaziz


PEQUENA ANTOLOGIA DA POESIA PALESTINIANA CONTEMPORÂNEA, Selecção e tradução de Albano Martins com um desenho de Alberto Péssimo, Edições ASA, Porto, 2003

05/12/2018

Bibliografia

Publicaste um livro.
Tens outro na editora.

(Na gaveta,
alguns

aguardam melhores
dias.)

Não esperes muito.
Se não for agora,

as traças comerão
a bibliografia.

Domingos da Mota

01/12/2018

DE PASSAGEM

O tempo
passa
e não
se vê.

Não se
pressente
enquanto
passa.

Só se
sente
quando
passou.

É por
isso que
nunca
o temos.

Fernando Aguiar

O POSSÍVEL DA MEDIDA, Edição BUSÍLIS (Tropelias & Companhia - Associação Cultural), outubro 2018.

28/11/2018

Águas passadas

Águas passadas,
nuvens escuras,
vento, rajadas,
chuvas futuras

no mesmo rio
ou noutros leitos:
lentos, bravios,
largos, estreitos.

Domingos da Mota

[revisto]

26/11/2018

Um pequeno cemitério no Texas

Não importa
ser-se espanhol, branco ou outra coisa:

quando o vento sopra violentamente,
arrasta consigo as flores.


A small cemetery in Texas


It makes no difference
if you're Spanish or white or whatever:

when the wind blows too hard,
it blows the flowers away.

Howie Good

Eufeme magazine de poesia n.º 9 Outubro/Dezembro 2018, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

24/11/2018

DESENCONTRO

Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussurro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentido, e é apenas som.
Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes apertos de mão,
passeios de braço dado,
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.

António Gedeão

POESIAS COMPLETAS (1956 - 1967), Portugália Editora, 3.ª edição, Lisboa, Janeiro de 1971

21/11/2018

Órgão de soberania/2

Se a função faz o órgão,
e o órgão está em greve,
sem sentença nem acórdão,
será que o crime prescreve?

Domingos da Mota

11/11/2018

[Tanto pássaro à minha beira a meter-se]

Tanto pássaro à minha beira a meter-se
para entrar nos tercetos.
Já me irritei. Mandei-os tentar os sonetos.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017

01/11/2018

[porque hoje é dia de todos os santos]

porque hoje é dia de todos os santos
porque hoje é dia de todos

porque hoje é dia
porque hoje é dia de todos os pecadores


Domingos da Mota

24/10/2018

«NÃO FORA O GRITO...»

Não fora o grito         a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto         o riso
a serena postura
do cadáver na praia

Não fora a flor     a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela

Não fora o cais        a posse
do nocturno segredo
a víbora     o polícia
o tiro     o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante

Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo

Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição

Daniel Filipe


        (A Invenção do Amor e outros poemas)

LÍRICAS PORTUGUESAS II VOLUME, Selecção e Apresentação de Jorge de Sena, Edições 70, Lisboa - Dezembro 83

16/10/2018

[Há quem mate por tudo e por nada]

Há quem morra de morte morrida
Há quem morra de morte matada
Há quem morra de bala   perdida
Há quem morra de faca espetada
Há quem morra de  morte pequena
Há quem morra na beira da estrada
Há quem morra de  morte    serena
Há quem mate por tudo e por nada
Há quem faça do   ódio   bandeira
Há quem vote no ódio como medo
De que a vida fugaz     passageira
Perca o chão mas mais tarde ou mais cedo
Ante a faca    do ódio   a fulgir
Sinta o medo a rosnar e a latir

Domingos da Mota


[inédito]

08/10/2018

DUPLICIDADE DO TEMPO

O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injecta em cada um seu veneno.

A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejectos
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.

João Cabral de Melo Neto

POESIA COMPLETA 1940-1980, Prefácio de Óscar Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Maio de 1986

29/09/2018

IMPROMPTU

E assim te foste, luz de vaga-lume,
feita de segredo e brevidade.
Impossível definir aquele perfume
que o teu surgir me trouxe nessa tarde.

Alberto de Lacerda

Labareda - Poemas escolhidos, Selecção e prefácio: Luís Amorim de Sousa, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Junho de 2018

22/09/2018

CARÊNCIA

Eu não sei de pássaros
não conheço a história do fogo.
Mas julgo que a minha solidão deveria ter asas.

*

LA CARENCIA


Yo  no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

Alejandra Pizarnik

Antologia Poética (edição bilingue), Tradução de Alberto Augusto Miranda, Selecção de Poemas de Alberto Augusto Miranda, António Sá Moura, Carlos Saraiva Pinto, o correio dos navios | estratégias criativas, Porto

19/09/2018

FILMITALUS

1.

Quando se apagavam as luzes no Sonoro Cine
e no ecrã aparecia a palavra Filmitalus
a tremer como se estivesse à superfície
dum líquido sobre o qual fossem pingando
finas gotas de som (de cítara, parecia),

nós, que com quinze anos tínhamos entrado
(porque o polícia compincha fechou os olhos)
para um filme para maiores de dezoito,
já sabíamos que o filme que aí vinha
era dos 'tais' -- quero dizer, dos que mostravam
beijos que escaldam, alguma coisa
das coxas de uma mulher, alguma coisa
duma cena de alcova,

não demasiado, mas o suficiente
para mais tarde, já entre lençóis,
ajustarmos contas com a actriz, mediante
os manejos solitários do costume --
aquilo a que, por riso e não por pudor,
dávamos o pitoresco nome de gaiola.

2.

E isto no tempo em que Deus não era mais
que uma desajeitada
distorção de si mesmo e, pela severa
boca dos seu vigários, proibia
masturbações e manobras afins --

-- o que, uma vez apaziguadas as hormonas,
nos trazia ressacas contritas, arrependimentos,
juras de que aquela tinha sido a última vez.

Mas agora pergunto eu:
se nos queria castos, arredados do corpo,
porque permitia Deus que se fizessem filmes assim
e houvesse mulheres como Anna Magnani
-- que nos abrasavam e tão facilmente
forçavam as muralhas da nossa castidade?

A. M.Pires Cabral

Trade Mark, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Agosto de 2018

17/09/2018

Guerra

O dedo a tremer de uma mulher
Percorre a lista de vítimas
Na noite da primeira neve.

A casa está gelada e a lista é longa.

Estão lá os nossos nomes todos.

*

War


The trembling finger of a woman
Goes down the list of casualties
On the evening of the first snow.

The house is cold and the list is long.

All our names are included.


Charles Simic

o último soldado de napoleão, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro de 2018

16/09/2018

LOBOS? SÃO MUITOS

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

Hilda Hist

[Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, Ed. Massao Ohno, S. Paulo, 1974]

O POVO, MEU POEMA, TE ATRAVESSA, Antologia poética de língua portuguesa nos cem anos da revolução de outubro, Selecção e Prefácio, Francisco Duarte Mangas, Modo de Ler - Centro Literário Marinho, Lda., Porto

05/09/2018

POESIA AMERICANA

Embora o nome deles
Não deva ser revelado,
Muddy Waters chamava-se
Mckinley Morganfield,
Howlin' Wolf chamava-se
Chester Burnett,
Bo Diddley chamava-se
Elias Mc Daniels,
Sonny Boy Williamson chamava-se
Aleck Miller,
Slim Harpo chamava-se
James Moore,
E Bob Dylan chama-se
Robert Allen Zimmermann.

José Pascoal

NERVO / 3 colectivo de poesia setembro-dezembro 2018

03/09/2018

Museu Nacional do Rio de Janeiro

Não fosse o descaso
vulgar, asinino,
não fosse o desleixo
dos outros ou nosso,

não fosse o descuido
brutal ou supino
que diz que não pode,
mas que fala grosso,

não fosse a incúria,
não fosse o desprezo,
não fossem as teias,
não fossem as tramas,

não fosse o menoscabo,
o letal menosprezo,
a memória ferida:
não fossem as chamas.


Domingos da Mota

[inédito]

01/09/2018

cançoneta para um ausente

não sei se ainda bolinas
e se te é farta a colheita
dos apêndices
se trabucas ou petiscas
donzelas do intendente

não sei nem o ar de tua
tumba sequer desmente
se ainda inoculas
a rubros golpes de tinto
as musas dos sonetos

não sei sadino irmão
se há ainda eficaz
remédio
pois nesta bela choldra
muita lírica se assemelha
a putrefacto exscremento

João Rios

Não é grave ser português, capa Pedro Pousada, Abysmo, Lisboa, Abril 2018