09/07/2020

Breve consideração

à margem do ano assassino de 1973.



Que ano mais sem critério
Esse de setenta e três...
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.

Três Pablos que se empenharam
Contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.

Três publicíssimos Pablos
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu...
Ô ano triste e sem sorte:

- VÁ PRA PUTA QUE O PARIU!

Vinicius de Moraes

História natural de Pablo Neruda A elegia que vem de longe, Apresentação de Ferreira Gullar, Companhia das Letras, São Paulo, 2006

04/07/2020

FACA

De gume muito fino
tira a casca aos frutos sem arranhar
e adormece a dor ao cortá-los
em pedacinhos

podes comê-los sem remorsos

Paulo Moreira Lopes

GAZETA DE POESIA INÉDITA

01/07/2020

SONETO

Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Carlos de Oliveira

A Leve Têmpera do Vento, Antologia Poética, Selecção e nota de João Pedro Mésseder, edições Quasi, Novembro de 2001

28/06/2020

Salvo erro

Já não ouso
Já não espero
Já não corro
Já não posso

Já não subo
Já não salto
Já não faço
Já não quero

Já não pulo
Salvo erro
Durmo pouco:
Já não sonho

Domingos da Mota

27/06/2020

TEORIA DO CONHECIMENTO

Quanto tempo é necessário
para perceber que se errou
a vida e não é a vida
que está errada? Quanto mais

para aceitar que isso
é o mínimo que se partilha
com amigos e vizinhos,
com estranhos e gente

de maior valia, que também
vai empurrando com brio
tal certeza para a cova?

José Alberto Oliveira

Rectificação da Linha Geral, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2020

24/06/2020

[A memória da tangerina]

A memória da tangerina
fica-nos cravada nas unhas

Francisco Duarte Mangas, Paulo Moreira Lopes

pequena lua cheia de sol, edições Eufeme/Sérgio Ninguém, Leça da Palmeira - Portugal, 2020

22/06/2020

Heteronomia pandémica

Poderia Fernando Pessoa
reunir numa boa
o seu ortónimo
com todos os heterónimos?

Domingos da Mota

21/06/2020

NINGUÉM NOS DIZ COMO

Ninguém nos diz como
voltar a cara contra a parede
e
morrer simplesmente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que tomou o rumo
da sua agonia
no passo solto de quem sabe
a cerimónia improrrogável,
acenando as orelhas
ao compasso da sua tromba;
só no reino animal
se contam os exemplos de tal
comportamento,
mudar o passo
aproximar-se
farejar o já vivido
e virar as costas
simplesmente
virar as costas

Blanca Varela

António Cabrita, As Causas Perdidas. Antologia de Poesia Hispano-Americana, Maldoror, Lisboa, 2019

20/06/2020

Sofrimento, insofrimento

Há quem sofra
e volte a sofrer
e sofra sempre:

e
não queira
morrer

Há quem sofra
e não aguente
e desespere:

e
impluda,
ou rebente

Domingos da Mota

(título a partir de José Carlos Ary dos Santos)

19/06/2020

O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
um vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

poesia 1960-1989, organização e prefácio Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, Setembro 2001




14/06/2020

Cântico rouco

Primeiro
ergueram-se contra
o racismo,
a xenofobia, a barbárie,
o medo,
e juntei-me à causa.

Depois,
na crista da onda
da indignação,
irromperam os ventos
alterosos do politicamente
correcto, com os olhos
fisgados no passado,
a açular os cães de guerra
contra as canelas da história,
latindo, uivando, ferrando,
vandalizando símbolos,
derrubando estátuas,
proibindo filmes,
censurando, rasurando,
apagando,
reescrevendo a história,
e acirrando as matilhas
no meio dos rebanhos,
manadas e multidões.

Agora,
antes que a febre
do anacronismo faça
desabar sobre o presente
os erros do passado,
e se crie um outro
Santo Ofício,
uma nova Inquisição
e Tribunais plenários
e campos de concentração
e fornos crematórios
e fogueiras,
e se queimem livros
e mais livros e pautas
musicais e discos
e CDs e DVDs
e audios e vídeos
e pinturas, e pessoas,
e pessoas, e mais pessoas,


que dizer
não,
assim não,
por aí não:
- Sei que não vou por aí!

Domingos da Mota

11/06/2020

(Dincas, Sudão)

No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

Herberto Helder

AS MAGIAS ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português, Assírio & Alvim, Outubro 2010

10/06/2020

[Que me quereis, perpétuas saudades?]

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos!, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Luís de Camões

Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho 2000

06/06/2020

Nós e os outros

Como falar dos outros sem falar de nós,
Nós que somos os outros para os outros
E, como os outros, muitas vezes só
Em busca de um lugar que nos acoite?

Domingos da Mota

05/06/2020

I can't breathe

a falta
de ar
a súplica
o sufoco

(sem
fôlego)
o
silêncio

: o
corpo

morto

Domingos da Mota