23.7.17

Recado

Se por acaso aqui passa,
não se vê, não deixa rasto,
nem um ar de sua graça
que indicie o tempo gasto
na passagem velocíssima,
mais veloz que um relâmpago,
uma brisa suavíssima,
um nocturno pirilampo.
Pudesse deixar recado,
uma palavra, um sinal,
um gesto, mesmo apressado,
um sorriso matinal,
um aceno, um até já
ou até sempre, sei lá.

Domingos da Mota

[inédito]

22.7.17

AVARENTO

Cobiça
concupiscente a moeda

o metal com um sorriso
avarento infinitesimal

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

20.7.17

Toada dos batráquios

Estes batráquios,
sapos e rãs,
velhos terráqueos,
arrastam fãs;
mesmo de louça,
de louça fina,
há quem os ouça

a coaxar,
tal a verrina,
basta escutar.
Com pés de barro
sobre os balcões,
de olho avaro,
camaleões,

quando um cigano
se aproxima,
lançam, disparam
os palavrões,
com ou sem rima.
São uns racistas
pardos, xenófobos

e arrivistas.
Fossem macrófagos
contra as bactérias,
as inimigas.
Mas os batráquios
são candidatos?
Nem-sei-que-diga.

Domingos da Mota

[revisto]


19.7.17

Poemas Quotidianos

10


Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto

António Reis

Poemas Quotidianos, Prefácio Fernando J. B. Martinho, Posfácio Joaquim Sapinho, Lisboa, Tinta-da-China, Julho de 2017

17.7.17

Só quando os incêndios

Só quando os incêndios
forem naturais:
relâmpagos, raios,
faíscas normais
que os acendam
e soprem e alastrem
(sem mãos escondidas,
fogachos que bastem);

e as trovoadas,
súbitas e secas,
que sejam culpadas,
forem descobertas;
e nem a montante
do fogo que arde
sequer a jusante
soprar com alarde

o rol de granjeios,
de ganhos, proventos,
manobras, maneios,
desculpas, lamentos;
só quando os incêndios
depois do sol-posto
não derem estipêndios,
nem mesmo em Agosto.

Domingos da Mota

[inédito]

16.7.17

Porque hoje é domingo

Porque hoje é domingo. Depois
de operado às cataratas na 
semana passada, nem 
replico, apesar da série 
de dislates que ouço nos canais 
televisivos (e que leio amiúde 
nos jornais noutros sítios 
de opinião, como revistas 
e blogues e murais). Domingo 
soalheiro. Lá terei de pôr óculos 
de sol, sempre que for tomar 
o café, na mesa ao lado 
de um ou dois vizinhos, e ao 
sabor de duas de conversa, 
pouco mais, sobre o tempo 
e as leituras desiguais.

                                   16 de Julho de 2017

Domingos da Mota

[revisto]

15.7.17

E nem cito o cognome

   Não, não vou por aí! Só vou por onde
     Me levam meus próprios passos...

     José Régio


Já deu o que tinha a dar,
dizem alguns, com fervor,
o tempo está-se a esgotar,
venha daí o rigor,

venha quem ouse voltar
a extorquir, sem contrição,
o melhor que possa dar
aos deuses da redenção.

(Se deu o que tinha a dar,
olhando os que nada deram,
mas tiraram sem parar
tudo aquilo que quiseram),

entre quem deu, mesmo pouco,
e quem tirou quase tudo,
só mesmo se fosse louco
escolheria um maçudo

e feroz unhas-de-fome
com redobrados intuitos
(e nem cito o cognome,
pois o diabo tem muitos).

Domingos da Mota

[inédito]

13.7.17

cabeça de aluguer

uma ideia na cabeça
da sua própria cabeça
que brotasse, que saísse,
que engendrasse, que parisse,
mas fareja, busca, aboca
na cabeça de aluguer
qualquer ideia que aloca
no discurso que tiver
de dizer no hemiciclo
quando vai, sobe à tribuna,
de nariz em contraciclo,
e dispara, engrossa, escuma
a vulgar imprecação
sobre o estado da nação.

Domingos da Mota

[inédito]

12.7.17

A vida de cada um

A vida de cada um
tem duas eras:
antes
e depois
da morte da Mãe

Teresa Rita Lopes

CICATRIZ, Editorial Presença, Lisboa, 1996

6.7.17

Quarto de hotel

     a partir do poema diana no banho, de Vasco Graça Moura


O chape-chape
bem que se ouvia:
alvoroçado,
descompassado,
era, seria
talvez o banho
de quem no quarto
de banho ao lado
estivesse a arder
e se acalmasse
com água fria;
arrepiado,
sobreexcitado,
não era um baque,
era, diria,
banho gelado,
ao fim do dia.

Fosse Diana,
Sara ou Inês,
pelo ouvido,
um grito agudo
ou dois ou três,
digo, diria
que se banhava,
molhava tudo:
(como gemia).

Quem dera vê-la
nessa banheira.
Mas só podia
imaginá-la
em pêlo, nua,
branca ou trigueira,
em carne viva,
como se fosse
brasa contígua
do fogo erecto
que exasperado
subia ao tecto.

Domingos da Mota

PIOLHO  021 [REVISTA DE POESIA], Edições Mortas, Black Sun editores, Abril 2017

4.7.17

Belicosa e não segura

     a partir da leitura de Luís de Camões


Vai a Salomé do Caldas
animosa até Belém,
e leva consigo as salvas
de prata, como convém,
para pedir as cabeças
dos ministros que abomina,
se vai por portas travessas
ou de língua viperina,
mandante que foi do mar
e do ar, da agricultura,
vai e vem a exuberar
belicosa e não segura.

Domingos da Mota

[inédito]

3.7.17

MIOPIA

São a janela para a alma, tu disseste, esses olhos;
e que dizes agora, quando a luz os esculpe,

células se dispersam, e a miopia parece sonho,
cortina, sombra de sombra, velo que a luz

fez violentar, lembrado apenas?

Eu atravesso a estrada sem óculos;
da ciência, a sua crença recuperada.

Tu acenas, nitidamente.

Luís Quintais

 A NOITE IMÓVEL, Assírio & Alvim, Março de 2017

29.6.17

Vinagre e azeite

A solidão pelas razões erradas avinagra a alma,
a solidão pelas razões certas lubrifica-a.

Que frágeis que somos, entre os raros momentos bons.

Indo e vindo incompletos,
intrigados com o destino,

como o relevo inacabado
de um burro caído, por cima de uma porta de igreja na Finlândia.


Vineger and oil

Wrong solitude vinegars the soul,
right solitude oils it.

How fragile we are, between the few good moments.

Coming and going unfinished,
puzzled by fate,

like the half-carved relief
of a fallen donkey, above a church door in Finland.

Jane Hirshfield

a mulher do casaco vermelho, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Colecção Poetas da Eufeme, Edições de Sérgio Ninguém (Eufeme), Julho de 2017

28.6.17

da flatulência

o peido feito ameaça,
o peido que não se deu,
o peido como chalaça,
um motejo, um ar de graça,
agastou, mas não fedeu.

envolto pela canção,
o peido apenas foi
um peido proclamação,
um peido com ovação;
um peido assim como sói

dizer-se do peido mestre?
não soltou ventosidade,
não foi um traque pedestre,
nem foi um peido equestre,
foi um peido de vaidade.

mas se houve quem pegou
no peido que não fedeu
e contra o peido clamou,
praguejou, se abespinhou
e fez um tal escarcéu,

que faria se o cheirasse,
se fosse um peido real,
um peido que empestasse
como o pivete rapace
que tresanda, tal e qual.

Domingos da Mota

[inédito]