22/02/2018

Com a língua prestes

Sabe o NIF, diz o nome
(não é apenas um número),
acentua o sobrenome;
e não sendo um catecúmeno
que se possa conduzir
pela trela, bem-mandado,
quando se sente insultado,
decide-se a retorquir.
Mas não chama fdp
a qualquer um: não se baixa
nem avilta nem rebaixa
nem dá troco mesmo que,
perante o tom de uma afronta,
tenha a língua prestes, pronta.

Domingos da Mota

[inédito]

15/02/2018

Pedras parideiras

     o fogo queima ao cavalo as patas


Nasceu
no meio das pedras
e cresceu: petrificou-se.

(Passam cavalos
a trote, todos pisam
o seu corpo).

Leva as pedras
parideiras
até ao ninho das águias

onde vai chocar
as pedras: quer ver
as pedras voar.

Domingos da Mota

[revisto]

12/02/2018

Duplo sentido

Quando um piropo é tido
como se fosse um assédio
sexual aborrecido
e faz parte do compêndio
dos crimes do novo código
de conduta que ameaça,
do temporão ao serôdio,
se galanteiam quem passa,
com um gesto, um olhar,
um sorriso atrevido,
uma palavra a soar
com um duplo sentido,
se cortejar for um crime,
quem da fleuma se exime?

Domingos da Mota

[inédito]

11/02/2018

Segredo de justiça

Anuncia
outra busca
(em busca de quê
não sei),

mas que indaga,
fere e ofusca
(e abocanha)
também.

Domingos da Mota

[inédito]

06/02/2018

Soneto da rouquidão

Não decanto o amor, mas se o cantasse,
seria rouco o hino que me pedes,
por muito cristalino que o tentasse,
tendo em conta as palavras que não medes
nesse mar de soluços cujo pranto
verte lágrimas tais de crocodilo,
que mesmo que sofresses de quebranto,
duvidaria do porquê daquilo
que te aflige e aperreia e mói,
se me pedes um canto afinado
e a garganta magoada dói
de tanta rouquidão, olhando o estado
em que andamos os dois, assim sem mais
ninguém com paciência para os ais.

Domingos da Mota

Eufeme magazine de poesia n.º 5 Outubro/Dezembro 2017

04/02/2018

Dúvida hiperbólica

     (a partir de um comentário lido algures)

Escrever
para a gaveta
será vida?

Para o caixote
de lixo,
melhor sorte?

Publicar
sem cuidar
de quem edita,

será beijo
de vida
ou de morte?

Domingos da Mota

[inédito]

03/02/2018

Agravos

Agravos, quem os não sofre
pelo menos uma vez?
E quantos deles, de chofre,
disparados de viés?

Domingos da Mota

[inédito]

01/02/2018

ÚLTIMOS DESEJOS

Quero voar como os anjos
quero lavar os dentes com triflúor
quero o Belinho sem o Oliveira
quero cornear o duque de Kent

quero 250 de Platão bem passados
quero a destreza do okapi
quero ir ao Douro às vindimas
quero pagar com letrasset

quero vestir de linho (e do Veiga)
quero ser primeiro no Mundial
quero pudim francês com caramelo
quero ler um cabinda em verso branco

quero uma sequóia para o quarto
quero voar de Spitfire
quero esmurrar o Marcel Cerdan
quero a Maja Desnuda

quero-te de bicicleta
quero-te outra vez de bicicleta sobre as folhas
quero-te ouvir chegar de bicicleta
quero o som macio que fazia na mata a tua bicicleta

Fernando Assis Pacheco

Variações em Sousa, Angelus Novus - Cotovia, 2004

28/01/2018

ELOGIO DA MAÇÃ

Elogias a maçã,
a textura, o perfume, a cor.
Prevejo um sentido para a solidão das coisas,
escrevi, há uns anos, assim, sem pensar.
Agora as mesmas palavras ganham significados terríveis,
verdadeiros.

Luís Filipe Parrado

NERVO/1 colectivo de poesia, Janeiro/Abril 2018, Editora Maria F. Roldão

27/01/2018

A corda

Não perceberam,
não ouviram bem.
Cada um ia
na sua corda
a equilibrar-se.
Cruzaram-se e
empurraram-se.
Insultaram-se.
Traíram-se.
Amaram-se
um pouco
por engano
às vezes?
Quem sabe?
A corda partiu-se,
ficou só o vazio
para pôr os pés.

(SB, Set. 6, 2006)

João Camilo

Eufeme magazine de poesia n.º 6 Janeiro/Março 2018

25/01/2018

DISJUNTIVA

Ter um gato no colo ou
vestir uma criança mudar uma cama
de lavado ou fazer uma canção
é muito mais belo
do que carregar uma arma dar pontapés numa bola ou
pilotar um motor ruidoso. Só que há
pouca gente para dar por isso.

Inês Lourenço

TELHADOS DE VIDRO  N.º 22 . NOVEMBRO 2017, Averno, Lisboa

20/01/2018

MIRADOURO DE S. SALVADOR DO MUNDO

Quem trouxe o inferno para aqui
e o converteu em serrania
talhada, retalhada
de vastidões, fundões e penedia?

O pensamento gela nas palavras...

António Cabral

Poemas durienses, Prefácio de A. M. Pires Cabral, OPERA OMNIA - Edição, Distribuição e Comercialização de Livros, Guimarães, Novembro 2017

19/01/2018

ANTÍSTROFE

Essa que um dia disse "fosse eu 
mais atenta aos sons e ouviria
gorgolejar a água", agora,
das árvores, ela ouve
o eco da folhagem sem o movimento.
Das ondas, escuta
a absoluta linha silente do horizonte.
De Bóreas, ela sabe 
que o inaudível vário vento
no que é diverso traz o mesmo.
E ouvinte de leitor, alheio e seu,
ela ouve o som das suas letras
e aprende que os silêncios breves
somente são um eco das palavras
e que o total silêncio é no Todo
o máximo eco para que tende a voz.

24/5/94

Fiama Hasse Pais Brandão

CANTOS DO CANTO, Relógio D'Água Editores, 1995

14/01/2018

METAFÍSICA

No limiar da consciência
um deus espreita. É impalpável
e frio e não é omnipotente
ou omnipresente: Espreita
e facilmente se vence
ou ilude. Não promete
a vida eterna mas lembra
a silenciosa certeza
da morte eterna.
É lúcido e não metafísico,
não existia antes de nós,
mas em nós germina,
em nós vive e connosco
perecerá.
É um deus com que retomamos
diariamente o diálogo interrompido
de Ulisses. Um deus que
surge a horas mortas na
memória do que somos
e não é um deus, mas
o julgamento dos actos que, somados,
somos. É um outro
ser que somos e sendo outro
nos olha com outros olhos
que nossos são. Nos olha
e fita, nos olha e fita
e faz significar olhando.
No limiar da consciência
é um deus que espreita.
E eu, irreligioso,
me confesso ao deus que
em mim me assoma.

Rui Knopfli

Nada Tem já Encanto - Poemas Escolhidos, Selecção, Pedro Mexia, Prefácio, Eugénio Lisboa, Tinta-da-China, Lisboa, Outubro de 2017

11/01/2018

Conjugação

Eu tuteio
Tu tuteias
Ele tuteia
Nós dizemos você
Vós dizeis vossemecê
Eles dizem vossa excelência

Domingos da Mota

[inédito]

05/01/2018

Holofotes

A moeda dos afectos
não é d'ouro nem de prata
nem precisa de inquietos
holofotes, sempre à cata
de exibir, mostrar o timbre
ou realçar o sinal
de monta que a distingue
da lata habitual:
os afectos de quilate
não têm preço nem são
a coroa da moeda
que sobe de cotação
sempre que há um dislate
ou se lamenta uma perda.

Domingos da Mota

[inédito]

03/01/2018

Para memória futura

Ninguém te livrará 
Do esquecimento

Alguém se livrará?

Ninguém 
Te livrará

Domingos da Mota

[inédito]

01/01/2018

[Saber perder nem todos nós sabemos]

Saber perder nem todos nós sabemos;
saber ganhar nem todos conseguimos;
saber olhar o muito que não temos;
saber passar as metas que atingimos;
saber correr parado vendo quem
estuga o passo e acelera e vai
em busca de não sei que coisa nem
se na passada perde o pé e cai;
saber chegar ao pé de quem caiu
e dar-lhe a mão, sorrir-lhe, levantá-lo;
chamar o 112 se o que viu
for mau demais para poder cuidá-lo:
saber no fundo que ignora muito,
quem muito sabe de saber fortuito.

Domingos da Mota

[inédito]

30/12/2017

Petúlia

Alonga-se a fila
ao sol ou à chuva
e ninguém refila
impede ou perturba
a força do hábito
que ruma eu sei
em busca do dito
melhor bolo-rei
Sendo a fila longa
e a procura tanta
nem mesmo a delonga
demove ou quebranta
o passo a caminho
do bolo real
pão-de-ló e vinho
etc. e tal

Domingos da Mota

[inédito]