7.8.22

'O Som que os Versos Fazem ao Abrir'

                    a Ana Luísa Amaral


Nunca falei
Com ela:
Vi-a, li-a,
Ouvi-lhe apenas

O Som que os
Versos
Fazem ao

Abrir os poemas.



Domingos da Mota

6.8.22

ELECTRICIDADE

Mal fechada a torneira
e no silêncio
o ruído invasor: uma gota
pequena, regular

Como um prego mental
dilacerando: agudo o som
da água. Em tortura a memória,
o espaçamento de aguardar
outra gota

outro chicote azul
na tempestade


Ana Luísa Amaral

E TODAVIA
, Assírio & Alvim, Abril de 2015

4.8.22

HERACLITO

'Os estorninhos nunca voam duas vezes
no mesmo céu', poderia ter dito Heraclito,
se o ouvíssemos


Amadeu Baptista

Escrito na Grécia, Edições Afrontamento, Porto, Junho de 2022

31.7.22

Teleologia

Tudo por dizer sempre
Nunca chegaremos ao cerne das medusas
à nervura das pedras
o esforço suga o coração
embranquece a luz impalpável das folhas da parreira
no ardor de Agosto
um gato adormece sobre o peito
a esta hora melancólica - a sombra da catedral
no interior da Terra algo se prepara sempre
surgirá o outro dia e os presságios
são talvez de treva de névoa
de musgo ou salitre
o silêncio canta no ouvido dos bichos
(os bichos ardem nas locas do crime)
nunca chegaremos ao local das brisas
mas é na Terra o único envolvimento
da açucena


27/8/91
(à memória de Ruy Belo)

Levi Condinho

Colheita serôdia -
inéditos e dispersos, Edição Húmus, 2020, Vila Nova de Famalicão

24.7.22

NÃO SEI

Não sei
se tens um nome,
um corpo, um rosto,

um corpo imaterial
de essência pura;
se é a fonte da luz,

do som, do sopro;
ou a raiz do silêncio
sem costura.


© Domingos da Mota

Pequeno tratado das sombras, Edição Busílis, Dezembro de 2018

21.7.22

génios

Quantos génios haverá hoje em Portugal

Todos sabemos: legiões
Só no mundo literário por exemplo

Basta abrir o JL
Cada 15 dias 15
autores ou obras geniais

Portugal vai precisar cada vez mais
de importar pessoas
normais.


Arnaldo Saraiva

TÃO CEDO PASSA TUDO QUANTO PASSA!   12 poetas de agora, ilustrações Manuel Cargaleiro coordenação Arnaldo Saraiva, Jornal do Fundão Editora, Junho de 2022:15

17.7.22

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA

O que é um nome?, um rosto
levantado com o lume dos dias?,
este lume que arde, arrefece,

nos consome, nos devora os ossos
taciturnos? O que é um nome
cinzelado a fogo?, esculpido

num rio de águas vivas?,
da pulsão das águas ao tumulto
das veias dilatadas, abrasivas?


© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

6.7.22

Esgotadíssima

A doutora está esgotada,
com burnout, que é mais fino.
Quer mudar para a privada
e dar a volta ao destino.


© Domingos da Mota

2.7.22

Esboço para um retrato

Dedicado à Mara


É tão leve a tua voz,
oh mulher
sustentada a fogo
e olhos esvoaçantes

- é tão leve
a tua voz,
que o próprio ar se suspende
como sombras de lua
na palma encantada das mãos!

in Noite Vertical, 2017
Zetho Cunha Gonçalves

DiVersos, Poesia  e Tradução | n.º 33 outono-inverno de 2021-2022, Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas 

29.6.22

Previsão meteorológica

- Até ao último fôlego.
- Até à total rendição.

E mal passaram do prólogo
da devastação.


© Domingos da Mota


28.6.22

Nessora

Nessora, quem levar para a vigília
o q.b. de lamento, condoído,
e travar com amigos, a família,
a conversa usual: terá sofrido,
como foi?, despediu-se de quem estava
ou partiu sem poder dizer adeus?,
arquejava, sorria, lamentava-se?,
quis enxugar as lágrimas dos seus?,
terá fechado os olhos sem soltar
um gemido final, subitamente?,
ou passou longamente até esgotar
o derradeiro fôlego?: - que atente
no rigor, pois, mais dia menos dia,
também repousará na lousa fria.


© Domingos da Mota

25.6.22

verão

gosto do cheiro  a sargaço da 
palavra; outras vezes é a sua
sombra que procuro.


Francisco Duarte Mangas


devocionário, Edição Húmus, Vila Nova de Famalicão, Fevereiro de 2022

23.6.22

Quadra sanjoanina, 2

Quem quiser ir à Ribeira
na noite de São João,
bastará seguir na esteira
do bruaá da multidão.


© Domingos da Mota

20.6.22

GUERRA TOTAL

Guerra: e na guerra
quantos falcões,
bombas, obuses,
valas comuns:
devastações.

Pombas da paz
há que abatê-las
e fuzilá-las,
ou demovê-las
de levantar

um simples voo:
dissuadir
quem alimente
esse pombal.
Guerra e mais guerra

só com milhafres,
corvos, abutres
e gaviões,
guerra total:
ovos lançados

lá das alturas
e que expludam
fora do ninho
e arrebentem
com tudo em baixo.

Guerra: e a guerra
mais duradoura:
há quem augure,
force e prospere
sem sobressaltos.


© Domingos da Mota

Quadra

Que façam dele parvo desse modo
não me deixa absorto na ledice:
ao tomarem a parte pelo todo
poderão falsear a parvoíce.


© Domingos da Mota