14.12.17

Como se ervas daninhas

Se as doenças são raras,
incomuns, até raríssimas,
que pensar das aves raras,
com as penas vulgaríssimas,

que fazem pela vidinha
à custa dessa rareza,
como se ervas daninhas,
como se ervas daninhas,

como se ervas daninhas
nefastas, por natureza?

Domingos da Mota

[inédito]

12.12.17

A melga

Quem a vir ali pousada,
sem sibilar, sobre o vidro
da velha porta empenada,
a melga que mal diviso,
poderá interrogar-se
por que razão o insecto
não volteia nem se mexe
nem esvoaça para o tecto
nem amotina o zunido
num voo a pique, estridente,
nem exacerba o ouvido
nem azucrina?
Entrementes,
não estará a melga morta,
colada ao vidro da porta?

Domingos da Mota

[inédito]

9.12.17

[Tantos amigos para quê e quantos]

Tantos amigos para quê e quantos
entre os amigos virtuais serão
desassombrados, destemidos? Quantos
desses amigos reconhecerão
o outro algures se, por mero acaso,
se encontrarem um dia, em carne e osso,
e surgir um momento que dê azo
a que se diga, olá, será que posso
cumprimentá-lo, visto que o seu rosto
parece ser de alguém que não me é estranho,
e seria um prazer, seria um gosto
conhecê-lo melhor: de que tamanho
poderá ser o elo que nos liga --
se valerá a pena que prossiga?

Domingos da Mota

[inédito]

2.12.17

AUSÊNCIA

Uma semana depois,
chego a casa, conto
os gatos, o número
confere. Não mais

dispéptico, nem com
bílis menos escura,
retomo o ritmo de arrotear
a vida; alguém com maior

convicção poderia castigar
aquilo por que espero --
a mesma dança, a mesma
música, na esperança

inglória de ignorar a morte.

José Alberto Oliveira

Telhados de Vidro, N.º 21 . Averno, Lisboa, Agosto. 2016

30.11.17

[Tem o cheiro do pão]

Tem o cheiro do pão
acabado de cozer
no forno de lenha

Sobre a mesa
aninhados
os frutos acabados de colher

Em silêncio
as mãos
seguem essa luz

Manuel Silva-Terra

SER CASA, Editora Licorne

29.11.17

OS BÁRBAROS

Nós é que éramos os bárbaros.
Pensando em nós é que vocês tremiam nos vossos palácios.
Era por estarem à nossa espera que o vosso coração batia desordenadamente.
Das nossas línguas é que vocês diziam:
talvez se componham só de consoantes, 
de frufus, sussurros e folhas secas.
Nós é que vivíamos nas florestas negras.
De nós é que tinha medo Ovídio em Tomi,
Nós é que adorávamos deuses com nomes
que vocês não conseguiam pronunciar.
Mas também nós conhecemos a solidão
e a angústia, e desejámos a poesia.

Adam Zagajewski

Sombras de Sombras, Selecção e tradução, Marco Bruno, revisão, Jorge Sousa Braga, prefácio, Adam  Kirsch, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Novembro de 2017

23.11.17

Toada do queixume

Queixa-se a ti, porque sim;
queixa-se a mim, porque não;
queixa-se aqui, porque, enfim,
de queixar-se faz questão;
queixa-se mesmo no fim
de qualquer conversação,
ora não, só porque sim,
ora sim, só porque não;
faz do queixume que deixa
por onde passa a clamar
a arma que não desleixa
sempre pronta a disparar,
tiro a tiro ou de rajada,
contra tudo ou contra nada.

Domingos da Mota

[inédito]

18.11.17

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011

14.11.17

Ouvem-se os cães a ladrar

Ouvem-se os cães a ladrar,
quando passa a caravana,
raramente a cuincar;
mas observa o que abana

a cauda atrás do séquito,
por abanar, simplesmente,
sem outro qualquer intuito
que não seja o estar contente

de ver a turba passar
como se fosse um rebanho
sem pastor - e farejar
as ovelhas, como antanho.

Domingos da Mota

[inédito]

13.11.17

Cenotáfio

Chocará no Panteão
haver banquetes de arromba?
Essa não é a questão,

dizem alguns, pois a tumba
dos maiores que lá estão
não é esquife, é cenotáfio.

E os banquetes de arromba
não profanam
o epitáfio?

Domingos da Mota

[inédito]

8.11.17

Antes que morda

Quando o assédio
causa aversão,
provoca tédio
mesmo que não

seja opressivo,
desabusado
nem agressivo,
mas simulado,

e faz a corte
a quem não quer
ser cortejado
onde estiver;

quando o assédio,
para a ferida,
não é remédio
e dobra a dúvida,

há que domá-lo,
não lhe dar corda
e açaimá-lo
antes que morda.

Domingos da Mota

[inédito]

6.11.17

A FONTE

Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo Sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva

Sophia de Mello Breyner

11 POEMAS, movimento poesia, distribuições movimento, lda., Lisboa, Maio de 1971

4.11.17

POEIRA

A poeira que a noite levantou
enquanto ardia
ainda anda no ar e é seca como
uma pistola disposta a disparar.

E tarde assentará
essa poeira.

Só espero que quando repousar
sobre o tampo da mesa
seja tão espessa que eu possa escrever nela
à ponta do dedo
alguns madrigais.

Ou então heresias, se estiver
para aí virado.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

2.11.17

Eis a questão

    Ser ou não ser, eis a questão

     William Shakespeare


Gosto ou não gosto,
eis a questão:
a contragosto,
tomara não;

e se não gosto
disto ou daquilo,
do indisposto
som do sibilo,

não replico
no mesmo tom,
mas não me fico
só por ser bom

ou de bom-tom.

Se o tom brandir
o vitupério,
há que zurzir 
no despautério.

Domingos da Mota

[inédito]

30.10.17

Afectos

Tanto afecto não afecta
quem de afectos mais carece?
Tanta bondade indiscreta
será mesmo o que parece?
E se houver por trás do acto
a presença de um segundo
sentido pouco abstracto
que utiliza o facundo
discurso por tudo e nada,
metafísico ou real,
para dar uma banhada
ao poder conjuntural?
E o poder acusa o toque
e repara ou fica em choque?

Domingos da Mota

[inédito]

29.10.17

24. Agarrámos o tempo

24. Agarrámos o tempo
Com cordas
De esticar memórias
Solavanco branco
Na retina de uma idade
Insubmissa
Tenho por bússola
A inquieta sede
Vapor de cinzas
Na claridade transparente
De águas límpidas

Leonora Rosado

A FENDA NO SANGUE, Editora Licorne

28.10.17

Com a pulga atrás da orelha

Uma pulga atrás da orelha
pode acentuar a dúvida
sempre que olhe de esguelha
outra pulga

que à mesa de um restaurante
salte do lombo de um cão
para uma perna ambulante
e da perna para o chão

e do chão dê outro pulo
em busca de um mamilo,
sem pudor e sem escrúpulo,
sabendo ela que aquilo

que persegue com o salto,
além da ferida aberta,
é causar o sobressalto,
com a pulga em parte incerta.

Domingos da Mota

[inédito]

26.10.17

Até dói

De si para consigo
o poema flui:
realça o umbigo
do poeta e, ui,

é vê-lo na origem,
no meio, no fim,
entregue à vertigem
do ritmo assim

centrado no ego,
no eu desmedido,
soberbo conchego
do som e sentido;

de si para consigo,
enfim, como sói
mirar o umbigo,
expor-se. Até dói.

Domingos da Mota

[inédito]