Sublevas a luz: macia de veludo tua pele desprende aromas subtis e o fulgor alucina leve desenvolto num sorriso de sol e sal quase feliz: odores que latejam sensuais translúcidos apascentam promessas (meneias os quadris) e brilham as retinas que o rubor seduz: sublevas o lume a túmida raiz Domingos da Mota Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
Depois de muitos anos, muitas lutas, direitos e deveres, contratos mil, arroga-se um poder de vistas curtas com força para impor uma lei vil de trabalho de graça (como outrora os servos da gleba prós senhores), cujo banco de horas, hora a hora, engorde mais e mais exploradores. A súbitas decretam a corveia, o trabalho forçado, o confisco, sabendo que armada a tensa teia desenvolve tentáculos, e o risco de cevar a avidez com a torpeza duma austera, apagada e vil tristeza.
Em ritmo acelerado o coelho pisa a relva, e manda o seu recado ao prostituto na selva que ajudou a criar e gostaria de ver mais agreste, dura, densa. O ambiente larvar que anima o populismo alimenta-lhe a crença de um dia executar o seu projecto adiado, com manifesto
um rio precisa de muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez. João Cabral de Melo Neto Falo de Abril, da torrente breve: do rio grande, quase nu: revolto galgou as margens, inundou. (Rebelde resiste ainda num riacho rouco). Falo de Abril, de Maio, do verão, do verão cheio, sublevado, vivo nas fontes sequiosas deste chão: deste chão de pé: jamais cativo. Domingos da Mota Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
no principio era o beijo envolto pelo abraço que ateou o desejo com lesto desembaraço entre a língua e os dentes em busca da outra língua deixando as duas frementes a saciar-se da míngua tal a fome a sede louca da volúpia boca a boca
bebe vinho, ele te devolve a alegria da juventude; a estação divina das rosas, dos amigos sinceros, a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta desse fugidio momento que é a tua curta vida.
Omar Khayyam
versões de José Queiroga
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025