Quando perguntas por alhos
e recebes em resposta
meia dúzia de bugalhos
ou outra coisa que arrosta
uma carga de trabalhos
para opores que a questão
não tem a ver com bugalhos,
mas com os alhos, então,
por muito que possa haver
acuidade e cortesia,
suportas, é bom de ver,
juntamente com a azia,
um sério aperto do nó
que agudiza o quiproquó.
© Domingos da Mota
A espessura do tempo
«Tudo é semente.» Novalis
3.7.26
A corveia
Depois de muitos anos, muitas lutas,
direitos e deveres, contratos mil,
arroga-se um poder de vistas curtas
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a torpeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
direitos e deveres, contratos mil,
arroga-se um poder de vistas curtas
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a torpeza
duma austera, apagada e vil tristeza.
Domingos da Mota
1.7.26
26.6.26
Mosca varejeira
Fosse abelha, desse mel,
mas é mosca varejeira
numa guerra sem quartel
contra a abelha-carpinteira.
mas é mosca varejeira
numa guerra sem quartel
contra a abelha-carpinteira.
Domingos da Mota
21.6.26
Ofício
Ofício de verão -
a sede abrasa o canto
insurrecto das cigarras
a sede abrasa o canto
insurrecto das cigarras
Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, edição Busílis, 2018
14.6.26
SUBLEVAÇÃO
Sublevas a luz:
macia de veludo
tua pele desprende
aromas subtis
e o fulgor alucina
leve desenvolto
num sorriso de sol
e sal quase feliz:
odores que latejam
sensuais translúcidos
apascentam promessas
(meneias os quadris)
e brilham as retinas
que o rubor seduz:
sublevas o lume
a túmida raiz
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
macia de veludo
tua pele desprende
aromas subtis
e o fulgor alucina
leve desenvolto
num sorriso de sol
e sal quase feliz:
odores que latejam
sensuais translúcidos
apascentam promessas
(meneias os quadris)
e brilham as retinas
que o rubor seduz:
sublevas o lume
a túmida raiz
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
17.5.26
O PINTOR BÊBADO
Noite. Bebo. Pinto.
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
(colhido aqui)
Tudo que na noite é negro
vai cirando tinto.
Antonio Carlos Secchin
Desmentir, Patuá Editora, 2026
(colhido aqui)
28.4.26
ESTALACTITE
VII
O pulsar
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
das palavras,
atraídas
ao chão
desta colina
por uma densidade
que palpita
entre
a cal
e a água,
lembra
o das estrelas
antes
de caírem.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem, Publicações Dom Quixote, 3.ª edição, Setembro de 1969
27.4.26
vita brevis
a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
e tenta deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, 1997
25.4.26
ELEGIA
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
para refazer o fio antigo que o fez.
João Cabral de Melo Neto
Falo de Abril,
da torrente breve: do rio
grande, quase nu: revolto
galgou as margens, inundou.
(Rebelde resiste ainda
num riacho rouco).
Falo de Abril, de Maio,
do verão, do verão
cheio, sublevado,
vivo nas fontes sequiosas
deste chão: deste chão
de pé: jamais cativo.
Domingos da Mota
Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010
24.4.26
Abril
De Abril recordo o ano, o mês e o dia
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.
© Domingos da Mota
Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025
21.4.26
TEIA-TRELA
Um poeta senta-se
passa um outro poeta
passa um outro poeta
O poeta levanta-se
diz-lhe "bom dia!"
O outro
diz-lhe "bom dia!"
O outro
simplesmente passa
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
- é assim a vida de um poeta
com medo de desfazer o poema
que nele trazia?
Aurelino Costa
Cinzas & Sudário, The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026:39
12.4.26
ESTRATÉGIAS
1.
Água
pedras (sem arestas)
artefactos de cerâmica
espátulas de madeira
tersórios
esponjas marinhas
folhas de couve
conchas
pescoços de ganso
(os preferidos de Rabelais)
rolos de papel
2.
Na falta de papel
até um poema serve
Jorge Sousa Braga
A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024
11.4.26
Oliveira
Venho da Palestina
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
fundo do mundo
oliveira é meu nome
casa de resistência e liberdade
onde nasce a luz
e o sol se põe.
José Efe
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Árvores são Casas de Pássaros, Seda Publicações, Novembro 2025
Do vinho elixir da vida
33.
bebe vinho, ele te devolve a alegria da juventude;
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
a estação divina das rosas, dos amigos sinceros,
a eterna beleza da mulher. bebe, e desfruta
desse fugidio momento que é a tua curta vida.
Omar Khayyam
versões de José Queiroga
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
RUBAIYAT de OMAR KHAYYAM, versões de José Queiroga, Edições Húmus e Autor, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2025
6.4.26
Onfaloscopia
O seu umbigo é o centro
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
do mundo do universo
visto por fora e por dentro
do direito ou do avesso:
e sendo o centro do mundo
sempre que gira rodando
soberbamente rotundo
onde quer que esteja e quando
é sem dúvida o maior
dos umbigos e tão grande
que o universo em redor
do seu umbigo se expande
© Domingos da Mota
Pequeno tratado das sombras, Busílis, Dezembro 2018
29.3.26
Tentar perceber um poema
Tentar perceber um poema
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
é como olhar para um deserto sem bússola.
Um poema é uma pedra duríssima
que ninguém explica.
Sérgio Ninguém
ATROFIA PERENE, edição do autor, 2025, Leça da Palmeira, Exemplar n.º 30/60 exs.
20.3.26
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar,
quatro quadrados vermelhos onde, de tanto olhar,
vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse
porque os dias passam sobre os dias
e de perscrutar a essência de deus nas geometrias
ainda se podem encontrar alguns vestígios.
às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas,
e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam
que alguém vindo do vento os denomine:
um selim, maçãs, tílias, mulheres,
um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
vislumbramos os quatro cavaleiros do apocalipse
porque os dias passam sobre os dias
e de perscrutar a essência de deus nas geometrias
ainda se podem encontrar alguns vestígios.
às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas,
e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam
que alguém vindo do vento os denomine:
um selim, maçãs, tílias, mulheres,
um concerto para flauta e canivete suíço.
Amadeu Baptista
Concerto para flauta e canivete suíço, Edições Fantasma, 2026
18.3.26
[Em tudo o que fui ou que não soube]
Em tudo o que fui ou que não soube
Ou não pude ser
Procuro as palavras exactas para esta manhã
De um domingo de inverno
Ou não pude ser
Procuro as palavras exactas para esta manhã
De um domingo de inverno
Em que a luz tem a transparência
Do verão
Procuro uma carícia que possa dizer
Que venho de muito longe
Para este gesto
Tão breve
E de repente
Todas as coisas
Se tornaram claras
Simples
Ou
José da Cruz Santos
José da Cruz Santos: O poeta disfarçado. Entrevista e poemas inéditos
Autor: Francisco Duarte Mangas, Fotografia, Carlos Cunha, Edição, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Novembro de 2025
Do verão
Procuro uma carícia que possa dizer
Que venho de muito longe
Para este gesto
Tão breve
E de repente
Todas as coisas
Se tornaram claras
Simples
Ou
José da Cruz Santos
José da Cruz Santos: O poeta disfarçado. Entrevista e poemas inéditos
Autor: Francisco Duarte Mangas, Fotografia, Carlos Cunha, Edição, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Novembro de 2025
17.3.26
Fora de horas
não declines
nem te ausentes
em subjectivos lastros
cantemos de voz túrgida
mas cantemos
os nossos mortos
não perdoam a cobardia e o silêncio
que teima em algemar-nos
Domingos Lobo
quotidianos e outras noites, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Junho de 2020
nem te ausentes
em subjectivos lastros
cantemos de voz túrgida
mas cantemos
os nossos mortos
não perdoam a cobardia e o silêncio
que teima em algemar-nos
Domingos Lobo
quotidianos e outras noites, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Junho de 2020
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