24.7.21

[Não sei, senhora, se é canto]

Não sei, senhora, se é canto,
se lamento o seu murmúrio,
toada de desencanto
ou anelante sussurro,
sabendo da relação
aberta a que pôs fim,
do amante abrindo mão,
segredando, até que enfim.
Não sei, senhora, que diga
do desapego que sente,
da liberdade cativa
quando o ciúme inclemente
prende mais do que liberta
e a relação desconcerta.


© Domingos da Mota

14.7.21

A RAPARIGA

A casa está a transbordar de alegria
Como uma bilha cheia de leite ao sol
Uma rapariga à janela ocultamente
Dá os seus seios às pombas.

Repletos palpitam os seios
Espetam-se os mamilos
Titilam-nos as aves
E subitamente o leite transborda.


                                                    De Interior, 1945


Andréas Embirikos


A GRÉCIA DE QUE FALAS... Antologia de Poetas Gregos Modernos
, de Manuel Resende, Recolha e organização de Rui Manuel Amaral, Posfácio de Tatiana Faia, Língua Morta, Fevereiro de 2021

10.7.21

ESTORVO

Podes sempre pensar que foi o comboio que se pôs debaixo de ti.

Paula Sinos



O Meu Livro de Cabeceira É Um Revólver, Dezassete Suicidas (Poetas de Língua Espanhola), Selecção e tradução de Jorge Melícias, Língua Morta, Julho de 2020

7.7.21

AO CONTRÁRIO DE NEWTON

Enchi um copo de água e pu-lo
em contraluz. Depois, devagar,
tirei o vidro de volta da água
e deitei-o fora. A água formou
um cilindro suspenso no ar,
a contraluz. Através da sua
transparência pude ver o céu,
o branco das nuvens, a linha
abstracta de um voo de ave;
e depois a própria água, limpa
de tudo o que os meus olhos
tinham visto através dela. Por
fim, sorvi devagar essa água,
como se ainda estivesse dentro
do copo; e no seu sem sabor
provei o céu, o branco das
nuvens, e o voo dessa ave que
me levou até ao horizonte,
como se a água se pudesse
tirar de dentro de um copo
e ficar suspensa.


Nuno Júdice


Nervo/11 colectivo de poesia  (maio/agosto de 2021)

5.7.21

És como uma terra

És como uma terra
que nunca ninguém disse.
Não esperas nada
a não ser a palavra
que brotará do fundo
como fruto entre os ramos.
Um vento que se aproxima.
Coisas secas e mortas
embaraçam-te e vão no vento.
Membros, palavras antigas.
Tremes no verão.


29 de Outubro de 1945

*

Tu sei come una terra
che nessuno ha mai detto.
Tu non attendi nulla
se non la parola
che sghorgherà dal fondo
come un frutto tra i rami.
C'è un vento che ti giunge.
Cose secche e rimorte
t'ingombrano e vanno nel vento.
Membra e parole antiche.
Tu tremi nell'estate.

29 ottobre 1945


Cesare Pavese

Virá a morte e terá os teus olhos, Traduções de Rui Caeiro e Rui Miguel Ribeiro. Posfácio de Rui Caeiro, edições saguão, Lisboa, Abril de 2021

3.7.21

Ó MUNDO BELO E PERDIDO!



Oh, mia patria si bella e perduta
                          VERDI, Nabucco

Ó mundo belo e perdido,
outrora vivo e garboso,
hoje, da peste mordido,
por descaso criminoso
de quem pensa fabricar 
- com fim de enriquecer
e outros aniquilar -
micróbios de estarrecer!
O mundo está hoje nas mãos
de loucos enraivecidos,
que andam pelos desvãos,
do mundo, empedernidos,
tentando acumular
montes de obscena riqueza
e aos pobres triplicar
uma já grande pobreza!
Esta gente vai à missa,
esta gente quer o céu
e nem sequer desperdiça
o mais pequeno troféu.
Querem Deus e o Dinheiro,
o gozo e o perdão;
para eles, o mundo inteiro,
para os outros, nem um pão.
Neste mundo em desconcerto,
onde infames empresários
congeminam desacertos
e bizantinos cenários,
pondo em risco o mundo inteiro,
mas enchendo as algibeiras,
- vale tudo prò embusteiro,
fértil só em bandalheiras!
Ó mundo belo e perdido,
noutro tempo tão formoso
e agora corroído,
devastado e perigoso!
Possas tu erguer-te, belo,
de novo, forte e seguro.
Possa todo este flagelo,
saindo, deixar-te puro!

24.05.2020


Eugénio Lisboa,

depois de ouvir, mais uma vez, o «Coro dos escravos», da ópera Nabucco, de
Verdi, num momento emocionante da vida italiana.

Poemas em Tempo de Peste
, Guerra e Paz, Editores, S. A., Lisboa, Setembro de 2020

 

13.6.21

Sol nulo dos dias vãos

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

Fernando Pessoa

Obra Poética [Cancioneiro], I Volume, Círculo de Leitores, 1986

11.6.21

Amigo, até sempre!

Mais um que se foi,
e subitamente;
partida que sói
dizer-se, pra sempre,

do amigo que agora
nos deixa mais sós;
mais perto da hora
em que iremos nós.

© Domingos da Mota

1.6.21

CÃES


Cães batidos
ganindo guinando
correndo atrás dos seus latidos
como de ossos

Daniel Jonas

Cães de Chuva, Assírio & Alvim, Porto, Fevereiro de 2021