18.11.17

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011

14.11.17

Ouvem-se os cães a ladrar

Ouvem-se os cães a ladrar,
quando passa a caravana,
raramente a cuincar;
mas observa o que abana

a cauda atrás do séquito,
por abanar, simplesmente,
sem outro qualquer intuito
que não seja o estar contente

de ver a turba passar
como se fosse um rebanho
sem pastor - e farejar
as ovelhas, como antanho.

Domingos da Mota

[inédito]

13.11.17

Cenotáfio

Chocará no Panteão
haver banquetes de arromba?
Essa não é a questão,

dizem alguns, pois a tumba
dos maiores que lá estão
não é esquife, é cenotáfio.

E os banquetes de arromba
não profanam
o epitáfio?

Domingos da Mota

[inédito]

8.11.17

Antes que morda

Quando o assédio
causa aversão,
provoca tédio
mesmo que não

seja opressivo,
desabusado
nem agressivo,
mas simulado,

e faz a corte
a quem não quer
ser cortejado
onde estiver;

quando o assédio,
para a ferida,
não é remédio
e dobra a dúvida,

há que domá-lo,
não lhe dar corda
e açaimá-lo
antes que morda.

Domingos da Mota

[inédito]

6.11.17

A FONTE

Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo Sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva

Sophia de Mello Breyner

11 POEMAS, movimento poesia, distribuições movimento, lda., Lisboa, Maio de 1971

4.11.17

POEIRA

A poeira que a noite levantou
enquanto ardia
ainda anda no ar e é seca como
uma pistola disposta a disparar.

E tarde assentará
essa poeira.

Só espero que quando repousar
sobre o tampo da mesa
seja tão espessa que eu possa escrever nela
à ponta do dedo
alguns madrigais.

Ou então heresias, se estiver
para aí virado.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

2.11.17

Eis a questão

    Ser ou não ser, eis a questão

     William Shakespeare


Gosto ou não gosto,
eis a questão:
a contragosto,
tomara não;

e se não gosto
disto ou daquilo,
do indisposto
som do sibilo,

não replico
no mesmo tom,
mas não me fico
só por ser bom

ou de bom-tom.

Se o tom brandir
o vitupério,
há que zurzir 
no despautério.

Domingos da Mota

[inédito]

30.10.17

Afectos

Tanto afecto não afecta
quem de afectos mais carece?
Tanta bondade indiscreta
será mesmo o que parece?
E se houver por trás do acto
a presença de um segundo
sentido pouco abstracto
que utiliza o facundo
discurso por tudo e nada,
metafísico ou real,
para dar uma banhada
ao poder conjuntural?
E o poder acusa o toque
e repara ou fica em choque?

Domingos da Mota

[inédito]

29.10.17

24. Agarrámos o tempo

24. Agarrámos o tempo
Com cordas
De esticar memórias
Solavanco branco
Na retina de uma idade
Insubmissa
Tenho por bússola
A inquieta sede
Vapor de cinzas
Na claridade transparente
De águas límpidas

Leonora Rosado

A FENDA NO SANGUE, Editora Licorne

28.10.17

Com a pulga atrás da orelha

Uma pulga atrás da orelha
pode acentuar a dúvida
sempre que olhe de esguelha
outra pulga

que à mesa de um restaurante
salte do lombo de um cão
para uma perna ambulante
e da perna para o chão

e do chão dê outro pulo
em busca de um mamilo,
sem pudor e sem escrúpulo,
sabendo ela que aquilo

que persegue com o salto,
além da ferida aberta,
é causar o sobressalto,
com a pulga em parte incerta.

Domingos da Mota

[inédito]

26.10.17

Até dói

De si para consigo
o poema flui:
realça o umbigo
do poeta e, ui,

é vê-lo na origem,
no meio, no fim,
entregue à vertigem
do ritmo assim

centrado no ego,
no eu desmedido,
soberbo conchego
do som e sentido;

de si para consigo,
enfim, como sói
mirar o umbigo,
expor-se. Até dói.

Domingos da Mota

[inédito]

16.10.17

Pirómanos

De pirómanos
reais e virtuais
que ateiam e propagam
os incêndios

até que quase tudo fique
em cinzas;
e das cinzas renascem
com as línguas de fogo

mais ávidas
de achas
que deitam na fogueira

impunemente,
de pirómanos reais
quem nos defende?

Domingos da Mota

[inédito]

14.10.17

Grosso modo

Deixa o tempo maturar
numa gaveta os poemas,
e corta, volta a podar
pretensos filosofemas,
já que muitos, quase todos
são apenas um esboço
mal parido, grosso modo,
muita banha e pouco osso;
apura os ossos do ofício
até que a banha derreta,
ainda que o sacrifício
seja duro e a gaveta,
cheia de mofo e de traças,
multiplique as ameaças.

Domingos da Mota

[inédito]

12.10.17

[Deu por si]

Deu por si
(arranjar um adjectivo para aqui)
no fundo da vida.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017

4.10.17

VARIAÇÃO

Depois da morte que realidade
é a de termos existido? Há

porventura um passado para a morte?
O que é ter existido quando o real

se moveu para o mundo seu contrário?
Vive ainda a linguagem

quando os órgãos da fala que produzem
o canto se perderam e os lábios

vivem só na memória de por eles
passarem as palavras?

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro 2017

1.10.17

Areia movediça

     (a partir da leitura da Ode à Mentira, de Jorge de Sena)


Mais fundo que a fundura dos abismos
Desceis, descereis sempre, descereis,
Usando e abusando de eufemismos,
A areia movediça que sabeis
Ser o campo minado da mentira,
Lavrado como tendo a seu favor
A verdade absoluta, que delira,
Rodeada de pasmo e de estupor;
Mas soterrado o chão, perdido o pé,
O halo da certeza cai a pique
E arrasta consigo o que até
Aparentava ser o muro, o dique
Da verdade absoluta, insofismável,
Agora numa queda inexorável.

Domingos da Mota

[inédito]

30.9.17

A estação impossível

O poema exprime-se em frases entrecortadas
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir

José Tolentino Mendonça

Teoria da Fronteira, Assírio & Alvim, Maio de 2017

25.9.17

Diz-que-diz-que

     Desceis, descereis sempre, descereis

     Jorge de Sena


Mais fundo que a fundura dos abismos
desceis, descereis sempre, descereis,
usando e abusando de eufemismos
que fazem das palavras que dizeis
a areia movediça onde se atola
a mentira maior que a perna curta
e que mesmo atascada, desenrola
a trama venenosa e corrupta,
diz-que-diz-que de línguas viperinas,
mais fundas que a fossa das Marianas
ou que as bocas-do-lixo, sibilinas,
que propagam calúnias levianas
e fazem do embuste o santo-e-senha
do ataque viral que mais convenha.

Domingos da Mota

[inédito]