3.2.26

Fotografia à la minuta

Emprega a facúndia
por tudo e por nada,
conversa redonda
que a língua afiada
tende a alvorotar

onde quer que esteja,
comente, disserte,
prescreva. Sagaz
dispõe a cereja
em cima do bolo,

usando o solerte
talento de apóstolo
assaz loquaz.
É vê-lo na missa
atento ao sermão.

(E entra na liça
a contradição:
sendo o estado laico,
deve o do timão,
sem ser farisaico,

ir ao beija-mão
do bispo, do papa
ou do cardeal?)
Do flash não escapa,
etc. & tal.

© Domingos da Mota

1.2.26

Ad nauseam

Dão-lhe espaço, tempo, corda,
propalam a verborreia
com que o chefe da horda
tece o canto de sereia,

e matraqueiam até
à náusea os soundbites,
dando vazão à má-fé
com que arrebanha os incautos.


© Domingos da Mota

25.1.26

Peregrinatio ad loca abjecta

     

     Estão podres as palavras - de passarem
     por sórdidas mentiras de canalhas
     que as usam ao revés como o carácter deles.

     Jorge de Sena



Quem aclama e dá palco
a tanta velhacaria?
Quem no fundo, lá no alto
da tocada soberbia,

incentiva o insulto,
acicata a picardia,
porventura de teúda
e manteúda perfídia?

Mas que polvo financia
as mentiras e trapaças,
e engorda enquanto cria
uma teia de ameaças?


© Domingos da Mota

22.1.26

Tubo de ensaio

Um galo de crista
airada de ódio,
o fogo de vista
de um facho serôdio

num tubo de ensaio
de laboratório?
Não sigo nem caio
no seu relambório.

© Domingos da Mota


1.1.26

Um de Janeiro

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá

A. M. Pires Cabral


Não venhas com directrizes,
azimutes, direcções:
o tempo, como as raízes,
não precisa de sermões,
de decretos e alvitres
e nem sequer de parábolas,
de conselhos e palpites,
mnemónicas ou cábulas.
Não me indiques qualquer ponto
cardeal, como destino:
encontros e desencontros
farão parte do caminho
sinuoso, porventura
bem pior do que se augura.

Domingos da Mota

[revisto]

29.12.25

o tempo

o tempo como um cavalo
galopa a toda a brida:
ah, quem pudesse domá-lo
e refrear-lhe a corrida.


Domingos da Mota

15.12.25

Poema de aniversário

Malgrado o discurso autoritário
de quem põe e dispõe de poderio,
como se dono do mundo, temerário
com guerras e agressões, num desvario
que impele o pior que possa haver
de furor e terror e morticínio,
menosprezando quem se opuser
e resista ao infame latrocínio;
malgrado ser visível o viés
do mando em favor dos poderosos,
com as leis cozinhadas através
de ajustes a preceitos ominosos;
malgrado tudo isso e muito mais,
bem-vindos sejam os teus setenta e tais


Domingos da Mota

24.11.25

Moscas

As moscas mudam, e o mau cheiro é tanto
que tresanda a mil léguas de distância:
se o risco de fedor não causa espanto,
olhando a ambição, vendo a arrogância
de moscas que voltejam em redor
do pote e do poder, fica a noção
de ser a impostura, sem pudor,
o germe da voraz propagação.
As moscas vão mudando e a picardia
contamina o ar que se respira
e alimenta bem mais do que soía
a ameaça diária que transpira
por sob o fingimento, cuja insídia
respalda a avidez da moscaria.


© Domingos da Mota

18.11.25

A corveia

Depois de muitos anos, muita luta,
direitos e deveres, contratos mil,
arrogam-se alguns filhos-da-puta
com força para impor uma lei vil
de trabalho de graça (como outrora
os servos da gleba prós senhores),
cujo banco de horas, hora a hora,
engorde mais e mais exploradores.
A súbitas decretam a corveia,
o trabalho forçado, o confisco,
sabendo que armada a tensa teia
desenvolve tentáculos, e o risco
de cevar a avidez com a dureza
duma austera, apagada e vil tristeza.

Domingos da Mota

13.11.25

Ad libitum

Amigos, uns quinhentos, virtuais,
são tantos, mas tão poucos os citáveis
que utilizam as redes sociais
em debates abertos, memoráveis
com doutos comentários que ademais
exijam uma aguda autocrítica.
De tantos e tão poucos, gosto mais
dos amigos frontais e não politica-
mente correctos, que aprofundam as
questões com perspicaz acutilância,
cabalmente, sem mas nem meio mas,
que mesmo quando em franca discordância,
a forma como os vejo é de modo
a não tomar a parte pelo todo.


Domingos da Mota


10.11.25

Teatro de sombras



Fosse o começo, mas é quase o fim;
e o fim começa quando principia
o lusco-fusco, a meia luz que o dia
deixa medrar até que a noite, enfim,
derrame a escuridão (o sol deserte
para o lado de lá do oceano),
enquanto deste lado sobe o pano
do teatro de sombras que promete
entrar em cena, sendo o palco o ser
que enche de ilusões o seu vazio
levado pela crença, e ao arrepio
da luz que a razão procure ter
sobre a húbris tocada por demónios
que geram impassíveis unicórnios.


Domingos da Mota

14.10.25

Poeiras

Bem cedo hoje de manhã

mangueira na mão o meu vizinho

a correr com o Sara.


Francisco José Craveiro de Carvalho


Dois Primos Gémeos, Edição: Temas Originais, Lda., 2025

10.10.25

[Passos velhos na escada.]

Passos velhos na escada.
Um cansaço já antigo.
Ave desassossegada
Do caminho percorrido.

Uma raiva acetinada
- o corpo todo estremece -
Vem fria indiferente
Colocar-se a teu lado.

De repente decidida
Avança e triunfante
Te envolve e tortura.

Depois hesita. Recua.
Ficas só vendo passar
«A Senhora Dona Morte».


Liberto Cruz

ÚLTIMA COLHEITA [poesia reunida 1954-2021]
, Edição Carlos Nogueira, Officium Lectionis edições, Porto 2022

20.9.25

ALEXANDRA PIZARNIK ATRAVESSA A ZONA PROIBIDA

A vida impõe-me condições a que não sei
responder, não sei como suportar esta réstia de sol
na minha cama, esta noite obstinada
no meu espírito, a sitiar-me o cansaço
de uma culpa insustentável, despovoada.

Não sei o que faço entre a vitória
e a derrota, desprovida de oblação e realidade,
enquanto nada temo e tudo me fere. Aqui se esgotam
as atribulações da bonança e não sei que tormenta

se seguirá. Ah, não fui profeta nesta terra
e as pequenas elegias que escrevi
foram as únicas conivências a que me permiti,
nesta greve de sangue, total e irrespondível.


Amadeu Baptista

As Sombras Nítidas, Edição RJV - Editores, Lda., Castelo Branco, Junho de 2025

11.9.25

Dies Irae

    o ódio sopra uma bolha de desespero
     na vastidão do sistema do mundo do universo e explode

     e. e. cummings


Falo
agora dos tempos cegos,
surdos, das vinganças
cruéis, dos ódios

roucos, do terror
a bramir, do absurdo
encharcado de fé
até aos ossos. Das torres,

do poder, de tanto orgulho
a ruir das alturas,
bruscamente

(do riso amarelo dos abutres)
e da fúria das águias
e dos ventos.

© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

24.8.25

WhatsApps

Ah, quanto afastamento! agarrados
aos Smarts, iPhones, TikToks,
e tantas, quase todos tatuados
nos mais estranhos sítios, e a reboque
de oblíquas mensagens que destilam
o ódio contra quem não segue os bandos,
as bandas, os clubes, nem desfilam
na cauda de rebanhos ou quejandos;
se no meio dum grupo, em família,
numa roda de amigos, WhatsApps
são o alfa e o ómega, razão
de muita desconversa e de quezília,
nem o toque dos sinos a rebate
sustará a constante obsessão.


Domingos da Mota

3.8.25

IN MEMORIAM

     à minha Mãe


Desaba o sol, o silêncio,
a dor no coração da terra
comovida; na levada

do tempo, no rigor da noite,
para sempre, desmedida.
Desaba a luz, o sentido — a vida.

Domingos da Mota

Agosto de 2003

Pequeno tratado das sombrasedição Busílis, 2018

20.7.25

Os outros

Como falar dos outros sem falar de nós,
nós que somos os outros para outros
e como eles tantas vezes só
em busca de um lugar que nos acoite?

© Domingos da Mota

11.7.25

MORTE

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.

Fernando Guimarães


(Sete poemas, Revista de Poesia relâmpago N.º 29/30, Outubro de 2011-Abril de 2012, Ano XV)

5.7.25

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA

O que é um nome?, um rosto
levantado com o lume dos dias?,
este lume que arde, arrefece,

nos consome, nos devora os ossos
taciturnos? O que é um nome
cinzelado a fogo?, esculpido

num rio de águas vivas?,
da pulsão das águas ao tumulto
das veias dilatadas, abrasivas?


Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas
, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

2.7.25

O VELHO ABUTRE

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas


Sophia de Mello Breyner

Grades, publicações Dom Quixote, Novembro de 1970