24/04/2018

KOLYMBÍTRIA

O absoluto não é ter muitas coisa juntas,
Mas o quase nada que vibra no fim da tarde,
Quando as pedras se iluminam de dentro,
Com já saudades do sol que vai partir.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

23/04/2018

SO(U) NETO

SONETO
SOU
      NETO.
SOU
     U
     NETO
DO
SONETO.

Fernando Aguiar

Estratégias do Gosto, Palimage, Terra Ocre - unip. Lda., Coimbra, Março 2012

22/04/2018

Abril

De Abril recordo o ano, o mês e o dia
Que demarcaram o antes e o depois:
Se antes muita sombra nos traía,
Logo após a urgência tinha dois
Ou mais caminhos a fazer, trilhando
Por vezes o mais curto, tal a febre
Nos píncaros da pura agitação,
Do natural contágio, onde e quando
A fome de mãos dadas com a sede
Acicatavam a revolução.
De Abril recordo Maio e o seu primeiro
Dia de imensa multidão que sonhava
Ser livre o tempo inteiro e pedia
Trabalho, paz e pão.

Domingos da Mota

[inédito]

18/04/2018

Futurou Fernando Pessoa

Futurou Fernando Pessoa
em Durban ou em Lisboa
que os ossos dos seus heterónimos
seriam depositados nos Jerónimos?

Domingos da Mota

[inédito]

17/04/2018

Bernardo Soares

Quando o Bernardo Soares
de desassossego tinha ares,
pedia ao Álvaro de Campos
um cabaz de figos lampos?

Domingos da Mota

[inédito]

14/04/2018

Pois eu gosto de favas

Pois eu gosto de favas, mas também
de mandar à fava quem me agasta
com risos e soslaios de desdém
ou condutas piores. Chega! Basta
quando a fava me sai no bolo-rei
ou julgo que serão favas contadas
os factos e os feitos que sonhei
e as contas, vendo bem, estão furadas.
E uma vez que não vejo a fava-rica,
peço favas guisadas com chouriça
(não há migas de favas na botica)
e ao bacalhau com favas digo, chiça!,
pois há favas e favas -- e favelas
como espinhas cravadas nas goelas.

Domingos da Mota

[inédito]

11/04/2018

QUEDA NA IMPOTÊNCIA

Lemos napalm e imaginamos napalm.
Como não conseguimos imaginar napalm,
lemos sobre napalm, até conseguirmos
imaginar melhor o que é napalm.
Então protestamos contra o napalm.
          Após o pequeno-almoço, emudecidos,
          vemos fotografias do que o napalm é capaz.
          Mostramo-nos retículas grosseiras 
          e dizemos: Estás a ver, napalm.
          É isto que eles fazem com napalm.
Em breve haverá volumes ilustrados
baratos, com melhores fotografias,
em que mais nitidamente se vê
do que o napalm é capaz.
Roemos as unhas e escrevemos protestos.
         Mas há, ao que lemos, 
         pior que napalm.
         E logo protestamos contra pior.
         Os legítimos protestos que a toda a hora
         nos deixam redigir  dobrar franquear têm impacto.
Impotência, testada em fachadas de borracha.
Impotência que põe discos: canções impotentes.
Sem poder, com guitarra. --
Porém, de malha apertada e tranquilo
o poder lá fora mostra a sua força.

Günter Grass

Às Vezes São Precisas Rimas Destas/Manchmal braucht man solche Reime (1914-2014), Edições Tinta-da-china, Setembro de 2017

08/04/2018

[Uma ideia não se prende]

Uma ideia não se prende
nem se fecha a sete chaves,
por muito que se pretenda
contê-la atrás das grades.

Domingos da Mota

[inédito]

05/04/2018

Desdobrar a sombra

Desdobrar a sombra
para que da escuridão se faça ainda
o amplo passo da luz
nos nomes que há
por dentro da matéria.

Maria João Cantinho

Olga Revista de poesía galega en Madrid, n.º 4| Decembro 2017


04/04/2018

Simplesmente

Raramente estivemos lado a lado,
Quase sempre ficámos frente a frente,
Tu na mesa, no palco ou no estrado
E eu na plateia, simplesmente.

Domingos da Mota

[inédito]

31/03/2018

Uma coisa esquisita

Não é furúnculo nem quisto
nem verruga nem um cravo
nem tão-pouco um panarício
nem sequer uma borbulha;

apenas algo de insólito,
dado o aspecto invulgar
do corpo estranho e anómalo
sobre o dedo polegar.

É uma coisa esquisita,
ouço alguém diagnosticar,

mas nem pomada, unguento
nem a crioterapia
impedem o crescimento
desse nódulo, diria.

Domingos da Mota

[inédito]

28/03/2018

ALGUNS POEMAS PORTÁTEIS

3.

um estudioso de munch
depois do roubo de «o grito»
criticou noutros historiadores da arte
a preocupação em restaurar o quadro
que não tinha voltado intacto
das mãos de ladrões

este estudioso defendia
que munch não ia querer saber de restaurar o quadro
nódoas negras e escoriações
eram apenas a marca de mais uma viagem
e munch ficaria contente em manter o quadro como estava

o estudioso pensava que munch não ia querer saber
porque o pintor amava coisas baratas
e pintava as suas obras com materiais baratos
e mantinha os seus cães perto da sua arte

Tatiana Faia

Um Quarto em Atenas, Edições Tinta-da-china, Lda., Janeiro de 2018

25/03/2018

As palavras são coisas, 2

Se a tua boca as diz
e no teu rosto as vejo,
as palavras são coisas
quando as fere o desejo.

E quando dizes mar,
ou quando dizes norte,
não sei se não me acerco
de um bocado de morte.

Quando dizes barco,
ou quando dizes esfera,
há águas que transbordam
e inundam a terra.

As palavras são coisas,
as palavras são um perigo,
se acaso as pronuncias
quando não estás comigo.

E quando tu adormeces,
muda num sonho fundo,
tudo se desvanece
e deixa de haver mundo.

Bernardo Pinto de Almeida

A Ciência das Sombras, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018

19/03/2018

[constrói só o fim]

constrói só o fim
do poema

para o resto
é tarde demais

José Anjos

somos contemporâneos do impossível, abysmo, Lisboa, Dezembro 2017

14/03/2018

LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar meta-estável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.

Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.

Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham de deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.

É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.

Abençoado profeta, só eu não sei  por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história,
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor no universo.

Armando Silva Carvalho

A SOMBRA DO MAR, Assírio & Alvim, Julho 2015

12/03/2018

Suite sem vista

V


Era o tempo das cerejeiras agressivas a avançar
pela rapariga dentro.

As paredes falavam, na suite sem vista,
palavras a avançar

pela rapariga dentro.

A rapariga cobriu-as com papel, folhas
arrancadas ao grande livro fechado

à chave
na gaveta da palavra.

Inês Fonseca Santos

Suite sem vista, Abysmo, Lisboa, Janeiro 2018

04/03/2018

desagradeço

batem palmas. agradecem
os seus feitos e feitios
(sofreram pouco ou padecem
na coluna de desvios

vertebrais de quem se curva
e recurva ao passadismo
ou branqueia a mente turva
com manifesto cinismo).

não apoio o retrocesso
nem louvo: desagradeço.

Domingos da Mota

[inédito]

03/03/2018

01/03/2018

[Quem esculpiu o Amor]

Quem esculpiu o Amor
e o colocou junto
desta fonte, pensaria
que poderia subjugar
com água, tal fogo?

Zenodotus

POEMAS DA ANTOLOGIA GREGA versões de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Porto Editora, Fevereiro de 2018