19/06/2018

10/06/2018

Bolapé

Há quem diga que a bola
é a alegria do povo,
sempre que rola e rebola,
bolapé que sobe à tola,
com mais valor que o ovo

de Colombo, a descoberta
que arrasta multidões
e arrebanha, e desperta
a cegueira que liberta
as mais incríveis paixões.

Domingos da Mota

[inédito]

04/06/2018

Nocturno

Pelas duas da manhã o gato leva-me
à cozinha para 
me dar de comer. Hoje à noite atrasa a hora -
é esta a noite ideal para
a ilusão dos amantes (o que acontecer nessa hora
jamais 
aconteceu). Acordado o
pensamento é a minha geografia -
o que fazer às imagens que nenhum poema
reclamou (a
gota que cai da torneira é sempre
a mesma gota? O
mar que um búzio contém é
o da praia onde estava?) Às duas
torna a ser uma e
o gato leva-me ao quarto
(se a noite não traz respostas é
sempre o silêncio quem fala)
o gato que escreve com as patas tem decerto
algo a dizer.

João Luís Barreto Guimarães


nómada, Quetzal Editores, Lisboa, Maio de 2018

30/05/2018

de Sousa

M R de Sousa,
vivacíssimo, repousa
sempre que usa e abusa
de retórica profusa?

Domingos da Mota

[inédito]

27/05/2018

10. ANEL DE MOEBIUS À LAREIRA

                (É PRECISO REGAR O AMOR)


Se fosses uma árvore eu chegava lá pelas onze
com um cesto de vime para colher as tuas sombras
e dizias - olha amor, este mar no inverno
é uma lareira onde trocamos palavras de fogo e ar.
E assim dentro das palavras íamos crescendo um
para o outro, os nossos ramos dardejavam em vogais
sonantes e eu sabia de cor a luz entre os teus ramos
como tu aprendias a soletrar os meus pequenos frutos.
Se fosses uma árvore não era preciso dizeres-me
que não há fora ou dentro na topologia dos beijos
como se não tivesses olhado o manto irreversível
dos meus olhos, o meu corpo ondulando até mesmo
ao lugar onde respira. Só dizias - caminho por ti sem
princípio nem fim. Acho que querias dar-me todos os
poros do tempo, tocar-me em palavras macias que
nada esperam. Ficávamos a ver o ar quente subir
pleno de graça, talvez nos beijássemos porque o amor
gosta de lábios e saíamos sempre junto ao mar.
E dizias: - chega-te a mim, as formigas são vorazes
de água e não quero que este amor murche de estio.
Sacudíamos as crinas, o dorso, o quadril redondo como
deus o fez e sabias que o meu corpo só se deita no teu
corpo com aves esvoaçando pelo anel de Moebius:
objecto magnífico em que nascemos cada dia.

Rosa Alice Branco

Traçar um Nome no Coração do Branco, Assírio & Alvim, Porto, Maio de 2018

26/05/2018

Chanfana

Pois eu gosto de chanfana:
a cabra velha cozida
outrora em lume brando 

estimula-me as papilas
gustativas - e as glândulas
agora salivando. 

Domingos da Mota

[inédito]

25/05/2018

COMENDO UMA CEREJA

Como uma cereja e,
Comendo a cereja, o meu corpo
Pede as cerejas todas do mundo,
Mas não posso comer as cerejas todas do mundo,
Pois faltam-me as cerejas que comeram
Sócrates, Hipasos de Metaponto
E os velhos camponeses da Gália,
Ou até os escravos de Roma.
Assim, como uma cereja
E deixo o gosto de a comer
Ficar em mim pelo gosto
De todas as cerejas que possa haver.
Uma cereja como todas as cerejas,
Uma cereja por todas as cerejas.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril de 2018

24/05/2018

[Sobre o musgo escuto]

          4.

Sobre o musgo escuto
Pedras, digo

- estranha voz esta,
a do surdo.

Aurelino Costa

GADANHA [Sol & Locus], Modo de Ler - Centro Literário Marinho, Porto, 2018

Despojos de um ditador

Retalhos do esqueleto:
fragmentos do crânio (do 
lado esquerdo, um buraco)

cinco dentes na mandíbula,
vestígios de cianeto
e de tártaro.

Domingos da Mota

[revisto]

20/05/2018

Melros

Emigrados do campo,
deixaram-se ficar no burgo,
desde as primeiras casas
do tempo dos romanos.
Foram-se juntando outros
com o crescer dos lares e da gente,
perseguidos por fogos da floresta
e pela gula de bagas doces.
Frutificaram,
multiplicando-se, à imagem do nosso
Génesis, 1:28.
Na primavera fazem o ninho
entre as camélias,
e cantam, assobiam e saltitam,
e, velhacos, vão-me às cerejas todas.

Nuno Dempster

NA LUZ INCLINADA, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014

15/05/2018

14/05/2018

CRISE DE FÉ

Quebrou-se-me um mealheiro.

Dentro de mim
já não tilintam
as moedas
dos teus olhos.

Ana Paula Inácio

ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno | 2016

11/05/2018

Indiferentes

Há os que gostam
e os que não.
Indiferentes
quantos serão?

Se os que gostam
se manifestam,
e os que não gostam,
falam, protestam,

os indiferentes
não dizem nada:
nem sequer mordem
pela calada.

Domingos da Mota

[revisto]

07/05/2018

Da presunção de inocência

Até que se julgue
assim se dirá:
ajudas, empréstimos
sem juros, quiçá,

que a vida airada,
de fausto, de luxo,
provinha da fonte
e tinha um repuxo

de onde jorrava
o fluxo vivo
que se avigorava,
até ser cativo.

Se não for assim
e se for assado,
que fazer então 
deste arrazoado?

Até que se prove,
não vou desdizer,
malgrado a vergonha
ou coisa pior.

Domingos da Mota

[inédito]

05/05/2018

Provérbios

A boda e a baptizado
Não vás se não fores rogado;

Nem sequer a um festival
Literário ou funeral

Se não conheceres ninguém,
Nem o morto nem alguém

Da família ou dos amigos
Mais recentes ou antigos;

Sem convite, mesmo que
A entrada seja livre,

Não te deixes agarrar, 
Muito menos ofuscar

Pelo anúncio que houver,
Seja de homem ou mulher:

Será melhor que não chores,
Batas palmas, rias, cores,

Em caso de funeral 
Ou de grande festival

Da canção, da cançoneta,
Com negaças de opereta,

Quando tens o futebol
Mais a pino que o sol.

Domingos da Mota

[inédito]

03/05/2018

das perguntas

tuteias, indagas,
perguntas em que penso,
aqui e agora.

será só coscuvilhice
ou trabalhas
para fora?

não farás do algoritmo
outro moço
de recados

que destrambelha
o ritmo e manipula
os dados?

Domingos da Mota

[inédito]

02/05/2018

da opinião

dizer que sim ou que não 
ou que talvez, de que vale 
súbita opinião
de quem esperam que se cale?

Domingos da Mota

[inédito]

30/04/2018

o algoritmo

dizes: pim!
e o algoritmo
extrapola e solta:
pum!

e acelera 
o ritmo
e provoca
um trinta-e-um

Domingos da Mota

[inédito]

29/04/2018

Da sua relação com a poesia

Quando  Koslowski, após  um  dos seus  inúmeros  acidentes de
carro, está outra vez  preso  à  chapa, acontece  que  a  primeira
pessoa  a  chegar  ao  local  é  um  bem  conhecido  poeta   lírico
frustrado,  o  qual,  em  vez  de  lhe     administrar    os  primeiros
socorros, insiste  em ler-lhe, rapidamente, alguns dos seus mais
recentes  poemas, garantindo  que não  tomaria  muito tempo do
seu tempo. "O resultado disso", comentou Koslowski mais tarde,
"é que não só o meu  fémur, três costelas  e a minha clavícula se
quebraram, como também  se quebrou   a minha  relação com a
poesia".

Michael Augustin

UM TAL DE KOSLOWSKI, Tradução de João Claudio Arendt e João Luís Barreto Guimarães, edição do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Abril de 2018

28/04/2018

BURBURINHOS

14


Não sabe rezar,
estranhamente,
o louva-a-deus.

João Manuel Ribeiro

BURBURINHOS | RUMBLES, Edição Busílis (Tropelias & Companhia - Associação Cultural), Maio de 2015