26.4.16

Que fazer?

Que fazer?, que fazer
quando o vazio nos envolve
e devora devagar?,

o algor nos aquece,
e aceso o frio esfarela o fulgor
do nosso olhar?

Domingos da Mota

[revisto]

25.4.16

CANTATA, OP. 25

    Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
     era morada e instrumento de alegria.

     Eugénio de Andrade


Conjugavas as palavras 
transparentes num rio
caudaloso de águas roucas.
Simples, tão ousadas,

tão ardentes soltavam
as paixões de boca em boca.
Palavras limpas, levantadas,
densas, a galope no dorso

do verão. Inteiras? Ateadas?
Ternas? Tensas? -- Traziam
o futuro pela mão. (Tantas
palavras por aí pisadas.

.-- À procura de voz, quantas
estarão? Semeadas na terra?
Agasalhadas? -- Vê o chão
em pousio: este chão).

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

20.4.16

RETRATO DE UMA SOMBRA

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

[sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,]

sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,
eu, sentado a este papel, escrevo
que o perdão sem piedade,
não pelos actos, mas
pelas palavras,
nunca me será dado, e rejubilo,
porque o perdão enfim veria os nomes anulados
pelo falso entendimento
coisa a coisa
-- e eu não quero mais perdões de nada

Herberto Helder

Letra Aberta, Porto Editora, Março de 2016

13.4.16

a cada passo

passa por mim aquele poemático que diz eu
sou o senhor dos gritos passa a galope ope ope ope
leva a musa no lombo e a musa leva nos al
forges um bombo


eu pus a minha musa no cavalo de pau e só de
longe a longe é que vou por trás a musa le
vanta-se um bocadinho e eu com o de
dinho vejo se tem ovo
pró menino papar todo

Alberto Pimenta

O LABIRINTODONTE, 7 nós, Porto, 2012

11.4.16

O offshore da minha rua

    O Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia
     Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia

     Alberto Caeiro


O offshore da minha rua é o mais secreto offshore da minha aldeia,
mas o offshore da minha rua não é o mais secreto offshore da minha aldeia,
porque na minha aldeia não há offshore.

No offshore da minha rua o segredo é a alma do negócio
e as contas são caladas, anónimas, discretas.
Quanto bato à porta do offshore da minha rua,
ela é aberta por um sujeito de nariz absorto,
com cara de porteiro, mas que não é porteiro
nem segurança e, pelo questionário em riste,
deve ser agente do paraíso fiscal, especialista
na arte demolidora da crítica e sempre disposto
a ignorar os papéis da minha conta.

Perguntei-lhe há dias se os poemas concretos,
as metáforas, os oxímoros e outras figuras de estilo,
em desuso, permanecem resguardados da procura
obsessiva dos coleccionadores de inutilidades
e, sobretudo, das arremetidas do fisco,
e ele jurou, pela alma de todos os mercados,
que a minha conta (salvo a excepção de que nem vale
a pena falar, dada a total indiferença que sobre ela

recai), continua seguramente anónima e não
aguça o mínimo interesse dos caçadores
de novíssimas estéticas. Na minha rua,
quem procura raridades desse quilate,
bate quase sempre com o nariz na porta.

Saio do offshore da minha rua com a consciência
tranquila dum anónimo sem rosto, e sem a angústia
de ser denunciado por uma fuga
de informação ou vítima dum ataque 
cibernético.

Domingos da Mota

[inédito]

10.4.16

[Tudo é jogo e música, afinal pouca coisa.]

Tudo é jogo e música, afinal pouca coisa.
O paraíso cede há muito à cilada das máquinas,

e não há origem reconhecível no que dizes.
Debruças-te sobre os fragmentos

amontoados à saída de casa. Consegues ainda respirar,
consegues? Afinal consegues. Vê como os teus braços

Luís Quintais

O VIDRO, poesia, Assírio & Alvim, Porto, Março de 2014

2.4.16

(po)éticas

das artes e dos ofícios
das virtudes e dos vícios

e das aspas elegantes
que não são uns elefantes

e até cabem num poema
mais leves que uma pena

do perfil de quem o faz
da matriz da sua fonte

e de não se andar a monte
a roubar com tanta paz

e das palavras em riste
e dum tal desassossego

e da arte que resiste
e não põe o amor no prego

e de ser só vertical
apesar de haver maiores

e bem melhores por sinal

Domingos da Mota

[revisto]