26.4.16

Que fazer?

Que fazer?, que fazer
quando o vazio nos envolve
e devora devagar?,

o algor nos aquece,
e aceso o frio esfarela o fulgor
do nosso olhar?

Domingos da Mota

[revisto]

20.4.16

RETRATO DE UMA SOMBRA

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

[sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,]

sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,
eu, sentado a este papel, escrevo
que o perdão sem piedade,
não pelos actos, mas
pelas palavras,
nunca me será dado, e rejubilo,
porque o perdão enfim veria os nomes anulados
pelo falso entendimento
coisa a coisa
-- e eu não quero mais perdões de nada

Herberto Helder

Letra Aberta, Porto Editora, Março de 2016

13.4.16

a cada passo

passa por mim aquele poemático que diz eu
sou o senhor dos gritos passa a galope ope ope ope
leva a musa no lombo e a musa leva nos al
forges um bombo


eu pus a minha musa no cavalo de pau e só de
longe a longe é que vou por trás a musa le
vanta-se um bocadinho e eu com o de
dinho vejo se tem ovo
pró menino papar todo

Alberto Pimenta

O LABIRINTODONTE, 7 nós, Porto, 2012

11.4.16

O offshore da minha rua

    O Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia
     Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia

     Alberto Caeiro


O offshore da minha rua é o mais secreto offshore da minha aldeia,
mas o offshore da minha rua não é o mais secreto offshore da minha aldeia,
porque na minha aldeia não há offshore.

No offshore da minha rua o segredo é a alma do negócio
e as contas são caladas, anónimas, discretas.
Quanto bato à porta do offshore da minha rua,
ela é aberta por um sujeito de nariz absorto,
com cara de porteiro, mas que não é porteiro
nem segurança e, pelo questionário em riste,
deve ser agente do paraíso fiscal, especialista
na arte demolidora da crítica e sempre disposto
a ignorar os papéis da minha conta.

Perguntei-lhe há dias se os poemas concretos,
as metáforas, os oxímoros e outras figuras de estilo,
em desuso, permanecem resguardados da procura
obsessiva dos coleccionadores de inutilidades
e, sobretudo, das arremetidas do fisco,
e ele jurou, pela alma de todos os mercados,
que a minha conta (salvo a excepção de que nem vale
a pena falar, dada a total indiferença que sobre ela

recai), continua seguramente anónima e não
aguça o mínimo interesse dos caçadores
de novíssimas estéticas. Na minha rua,
quem procura raridades desse quilate,
bate quase sempre com o nariz na porta.

Saio do offshore da minha rua com a consciência
tranquila dum anónimo sem rosto, e sem a angústia
de ser denunciado por uma fuga
de informação ou vítima dum ataque 
cibernético.

Domingos da Mota

[inédito]

10.4.16

[Tudo é jogo e música, afinal pouca coisa.]

Tudo é jogo e música, afinal pouca coisa.
O paraíso cede há muito à cilada das máquinas,

e não há origem reconhecível no que dizes.
Debruças-te sobre os fragmentos

amontoados à saída de casa. Consegues ainda respirar,
consegues? Afinal consegues. Vê como os teus braços

Luís Quintais

O VIDRO, poesia, Assírio & Alvim, Porto, Março de 2014

2.4.16

(po)éticas

das artes e dos ofícios
das virtudes e dos vícios

e das aspas elegantes
que não são uns elefantes

e até cabem num poema
mais leves que uma pena

do perfil de quem o faz
da matriz da sua fonte

e de não se andar a monte
a roubar com tanta paz

e das palavras em riste
e dum tal desassossego

e da arte que resiste
e não põe o amor no prego

e de ser só vertical
apesar de haver maiores

e bem melhores por sinal

Domingos da Mota

[revisto]