Perdi a veia, ou melhor, se a tive,
alguma vez teria de a perder;
se uma veia com tónus sobrevive,
uma veia poética a valer
exprime-se do jeito de quem vive
de modo a dizer o indizível,
por muito que jamais se perspective
a forma de torná-lo atingível.
Perdi a veia, isto é, perdi
aquilo que se ganha em se perder,
esse modus que tanto persegui
com a pobre toada a condizer,
sem saber, todavia, se a matéria
sangrava pela veia ou pela artéria.
Domingos da Mota
[revisto]
23.5.15
21.5.15
[em boa verdade houve tempo em que tive uma]
em boa verdade houve tempo em que tive uma
ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
sua própria profundidade
Herberto Helder
Poemas Canhotos, Porto Editora, Maio, 2015
ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
sua própria profundidade
Herberto Helder
Poemas Canhotos, Porto Editora, Maio, 2015
10.5.15
ENDECHA DOS MAIS NOVOS
Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.
Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.
Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.
Luiza Neto Jorge
A LUME, Texto fixado e anotado por Manuel João Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.
Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.
Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.
Luiza Neto Jorge
A LUME, Texto fixado e anotado por Manuel João Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989
2.5.15
MANUAL DE INSTINTOS ASSASSINOS
Veneno
fui teu escravo
e tu minha dona
hoje ofereço-te
um cocktail
de beladona...
Eduardo Roseira
Manual de Instintos Assassinos, Versbrava Editora, Porto, Maio de 2015
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