29.5.15

Não sei

Não sei
se tens um nome,
um corpo, um rosto,

um corpo imaterial
de essência pura;
se és a fonte da luz,

do som, do sopro;
ou a raiz do silêncio
sem costura.

Domingos da Mota

[revisto]

23.5.15

A veia

Perdi a veia, ou melhor, se a tive,
alguma vez teria de a perder;
se uma veia com tónus sobrevive,
uma veia poética a valer
exprime-se do jeito de quem vive
de modo a dizer o indizível,
por muito que jamais se perspective
a forma de torná-lo atingível.
Perdi a veia, isto é, perdi
aquilo que se ganha em se perder,
esse modus que tanto persegui
com a pobre toada a condizer,
sem saber, todavia, se a matéria
sangrava pela veia ou pela artéria.

Domingos da Mota

[revisto]

21.5.15

[em boa verdade houve tempo em que tive uma]

em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                 ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                   e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                      a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                        estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                        sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                 sua própria profundidade

Herberto Helder

Poemas Canhotos, Porto Editora, Maio, 2015

18.5.15

Poética

O verso deve ser duro
como fio de navalha
um relâmpago no escuro
uma faúlha na palha

o verso deve ter lume
mas sem fogo-de-artifício
o verso que acera o gume
o verso que apura o vício

Domingos da Mota

de Tríptico e outros poemas, publicado em Triplov

13.5.15

Lugar ao sol

São raros os poetas, meu amor,
por muito que se mostrem os que ousam
o seu lugar ao sol enganador
por sobre a multidão dos que repousam
nessa vala comum do esquecimento
que se abre debaixo das ruínas,
totalmente apagada com o tempo,
de quem não resta um verso nas esquinas
marcadas do presente, onde a poesia
tuteia de mãos dadas com bem poucos,
malgrado os que a perseguem, dia a dia,
de nariz convencido, que os loucos
sensatamente apontam como a fonte
da cega presunção que anda a monte.

Domingos da Mota

[revisto]

10.5.15

ENDECHA DOS MAIS NOVOS

Enquanto o nosso coração voraz
bate a descompasso com o da Terra,
não queremos ripostar demais à guerra,
fugimos de apostar demais na paz.

Compêndios de nojo, actas de festa,
são escrita tremida para nós,
mas não se lembrem autores de erguer a voz
a dizer o que purga e o que molesta.

Só a voz do sangue ouvimos bem
quando ao leme do ventre almareámos;
fomos inocentes, já nos naufragámos,
corpos de delito, almas de refém.

Luiza Neto Jorge

A LUME, Texto fixado e anotado por Manuel João Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989

2.5.15

MANUAL DE INSTINTOS ASSASSINOS

Veneno



fui teu escravo
e tu minha dona
hoje ofereço-te
um cocktail
de beladona...

Eduardo Roseira

Manual de Instintos Assassinos, Versbrava Editora, Porto, Maio de 2015