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5.2.22

[Mais cedo ou mais tarde]

Mais cedo ou mais tarde
o silêncio virá
perguntar por ti.

Albano Martins

Com as Flores do Salgueiro, Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995

6.8.21

[E me disseste: vem. E havia]

E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas vermelhas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.

Albano Martins

Uma Colina para os Lábios, Edições Afrontamento, Porto, 1983

6.8.20

PALAVRAS

Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.

Albano Martins

O MESMO NOME, Campo das Letras, Editores, S. A. - Porto, Outubro de 1996

30.12.19

[No inverno, a árvore]

No inverno, a árvore
pede à neve:
- Agasalha-me!

Albano Martins

Com as Flores do Salgueiro,  Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995

24.7.15

[De barro somos, dizem os oráculos]

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rituais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.

Albano Martins

VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Fevereiro de 1990

6.8.14

CEDO OU TARDE

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins

ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras, Editores, S. A., Porto, 1999

28.7.12

[Assim será. Ninguém]

Assim será. Ninguém
virá depois
recolher os ecos, acordar
os sons da flauta
estrangulada. As portas
estarão fechadas mesmo
para o silêncio.

Albano Martins

Di Versos - Poesia e Tradução / n.º 17 - julho de 2012 [de miniantologia realizada por José Carlos Marques com base em As Escarpas dos Dias. Poesia 1950-2010 (Porto, Edições Afrontamento, Maio de 2010), in Cadernos de Argolas, 2000-2010]

11.4.12

DELFOS

Entrarás em Delfos pela porta
secreta - a da serpente. É esse,
e não outro, o caminho
para o templo. Junto
à pedra
da ara colherás
o ouro exausto
do tempo e o sangue
inútil dos sacrifícios. E
saberás que amor
e morte são
a outra face do mito.

Albano Martins

CASTÁLIA E OUTROS POEMAS, Campo das Letras - Editores, S.A., Porto, Maio de 2001