E me disseste: vem. E havia alguns despojos sobre a areia, algumas ressentidas grinaldas no limiar das têmporas. Havia alguns gestos suspensos, um cofre de esmeraldas vermelhas, um torpor nos membros retardados. E havia um colar para as mãos, uma colina para os lábios e uma flor intacta perfumando o silêncio, à beira de indizíveis planícies.
Albano Martins
Uma Colina para os Lábios, Edições Afrontamento, Porto, 1983
De barro somos, dizem os oráculos, solícitas vozes do crepúsculo ou das manhãs solenes, rituais. De heróis e deuses falam mitos e salmos, dou tos compêndios de subtil doutrina. Assim de urtigas e de musgo se alimentam as parábolas, escreve a ciência os seus epitáfios. Albano Martins VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional- Casa daMoeda, Fevereiro de 1990
Devias saber que é sempre tarde que se nasce, que é sempre cedo que se morre. E devias saber também que a nenhuma árvore é lícito escolher o ramo onde as aves fazem ninho e as flores procriam. Albano Martins ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras, Editores, S. A., Porto, 1999
Assim será. Ninguém virá depois recolher os ecos, acordar os sons da flauta estrangulada. As portas estarão fechadas mesmo para o silêncio.
Albano Martins
Di Versos- Poesia e Tradução / n.º 17 - julho de 2012 [de miniantologia realizada por José Carlos Marques com base em As Escarpas dos Dias. Poesia 1950-2010 (Porto, Edições Afrontamento, Maio de 2010), in Cadernos de Argolas, 2000-2010]
Entrarás em Delfos pela porta secreta - a da serpente. É esse, e não outro, o caminho para o templo. Junto à pedra da ara colherás o ouro exausto do tempo e o sangue inútil dos sacrifícios. E saberás que amor e morte são a outra face do mito.
Albano Martins
CASTÁLIA E OUTROS POEMAS, Campo das Letras - Editores, S.A., Porto, Maio de 2001