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14.3.23

O BARULHO DE DEUS

I


Ergo na cabeça a catedral da noite:
as pedras do pensar, os arcos do sentir,
as escassas frestas do meu ser vitral.
Quando a luz chega o ruído começa. Pode ser a guerra,
ou a matéria a clamar por clemência.
Mas é sempre um duelo
pela sobrevivência.


Armando Silva Carvalho

Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando Silva Carvalho TRÊS VEZES DEUS, Assírio & Alvim, Dezembro 2001

14.3.22

FASTO E NEFASTO

Aquele ali parado na manhã de outono
de noite fasta e nefasta deixada atrás das costas
pretende salvar os sonhos no lugar da vida.

No lugar da vida aquele ali parado
alimenta a noite na manhã de outono
e desafia a morte.

Na manhã de outono aquele ali perdido
deixou para trás das costas no lugar da vida
a salvação dos sonhos.

Perdido na manhã no outono da vida
aquele ali tão fasto a salvar os sonhos
alimenta só a nefasta morte.


Armando Silva Carvalho

A SOMBRA DO MAR
, Assírio & Alvim, Julho de 2015

14.3.21

LIGA PATRIÓTICA

Que homens tão sublimes em assembleias, repuxadas
As suíças,
Meticulosos, solenes, esses gestos
Redondos e ridículos,
Que envolvem o som de um mundo tão pequeno
E soleníssimo.

Madeiras enceradas com o bafo
Amarelento da respiração nacional do mando.
O país passa nas vozes, as casacas estremecem nos seus
púlpitos,
Meus amigos, a nação ergue-se
Agradecida.

Sento-me na rasa e desdourada sala do meu corpo,
Já sofri o bastante nos meus nervos doentes.
Apanho o pó das sílabas,
E recolho-me ao chão dos meus castigos:
Amar amargamente a pátria.

De norte a sul, nessa névoa de saudade e fingimento
O povo cala, a burguesia arranha,
A nobreza consente. Sou um civil da ética, falta-me
Provavelmente o baraço ao pescoço, o empenho
Das barbas.

Um gesto de grandeza pode ter a medida inútil
Dum mar árido de peixes,
Dum céu sem uma nuvem sobre o chão
Terrivelmente seco, sedento,
Se não soubermos perdoar a barbárie
À nossa volta.

É como se uma onda de vento se erguesse
Lenta mas fulminante contra o nosso perfil sonhado por outras
          vozes
Quiméricas
E a nossa própria voz não tivesse de súbito
Resposta
E tudo e todos fossem sempre só
Uma pergunta.


Armando Silva Carvalho

ANTHERO, AREIA & ÁGUA, Assírio & Alvim, Junho 2010

1.6.20

QUADRA

A erudita fala dos poemas lentos
A escura idade dos olhares perversos
A clara noite dos santos eruditos
O eco obscuro dos preclaros versos

Armando Silva Carvalho

SOL A SOL, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2005

7.4.20

O AR APENAS

Donde
te vem
o sono
carne
de febre
ainda
não contida
febre
funesta
que ultrapassa
o som
avião vivo
que voa
sob
o peito
das aves
que no vento
dispersam
todo
o pranto?
O ar
apenas
rarefaz
as lágrimas
bebe
o ácido
feroz
que nem
as nuvens
vivas
o algodão
das penas
retém
no tempo
na rigidez
dum corpo.

Armando da Silva Carvalho

OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

14.3.18

LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar meta-estável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.

Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.

Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham de deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.

É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.

Abençoado profeta, só eu não sei  por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história,
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor no universo.

Armando Silva Carvalho

A SOMBRA DO MAR, Assírio & Alvim, Julho 2015

1.6.17

LUGAR EM BRANCO

Eu posso abrir aqui uma simples cratera.
Basta soprar o ar, estender braços e pernas,
dizer que sim ao corpo
e não enlouquecer.

É um lugar em branco, afundado no mundo.
A luz que o ilumina ele próprio
há-de gerá-la.
Por mais negra que seja será dele.

Então a vida vibra.
Os animais virão com músculos e raízes.
O reino vegetal trará as suas crias.
E a mão dura do sol será um bago de uva.

Uma simples cratera,
um poiso para os deuses, um riso sem paredes,
branquíssimo lugar,
uma pedra, um pão, uma só palavra.

Armando Silva Carvalho

A SOMBRA DO MAR, Assírio & Alvim, Julho de 2015

7.8.15

SEM CABEÇA

Até mesmo a manhã custa a perceber.
É como se alguém me decepasse a cabeça a meio da noite
e as horas se enganassem à volta do meu pescoço.

É fácil retratar uma degolação poética
em tempos de barbárie
tecnológica.

Afinal acordei no meio de gente ainda com cabeça
e eu sou aquele avô que os media
sempre ensinam.

Desgraçados dos tais
vestidos de amarelo para melhor serem vistos
com a faca viva encostada à garganta.

Comecei com a manhã imprecisa
meio cego a procurar um verso meu no meio da bruma
com a delicada nervosa faca de papel.

O mundo é um globo de gente ajoelhada,
de cabeças suspensas. E eu ao sair, só, do sono,
decapito o poema.

Armando Silva Carvalho

A Sombra do Mar, Assírio & Alvim, Julho de 2015

22.9.12

CINCO ALMAS TRIVIAIS

5

Eu sou
o mais boquiaberto
dos ministros.

Estas finanças
doem
como um calo.

Estas finanças
devem ser um galo
cantando o ouro
que urinam
as crianças.

Estas finanças
devem ser um falo
ubérrimo brasil
de esquálidas
donzelas.

Armando da Silva Carvalho

OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969