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20.2.26

NEM O FIO DA ESPADA

Nem o fio da espada o atravessa,
o fogo não o queima mesmo forte,
a água embora muita não o molha,
o vento violento não o seca

e poderão trocar-se o sul e o norte,
destruírem-se enfim o este o oeste,
uma forma qualquer ficar disforme,
terra tornar-se mar e mar a terra,

tudo o que é ser e faz parte do mundo
saber que vai viver breves segundos,
que os polos andarão enlouquecidos -

perene sobre mim não vou esquecer
o teu olhar: sinal de uma certeza
que a morte ignora e para sempre existe.



António Salvado

Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A.23 Edições, 2014: 114



5.3.24

RAIZ SEMPRE PRESENTE

Raiz sempre presente, e do futuro
mistério aventurado    mal ou bem
e sopro imaculado p'la manhã,
da árvore pendido um doce fruto

que derramado embora a ela     puro
volta de novo, e que é voz e silêncio
dum canto renovado    permanente
que para ser existirá sem música,

zumbido duma brisa acolhedora,
corrente d'água límpida    a fluir
até ser a miragem do meu sonho,

princípio da beleza    mavioso,
luz radiante em raios onde põe
a certeza de nunca ela o cobrir.


António Salvado

Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda., - A.23 Edições, 2014

20.2.23

Alba

Que alegria de Maio
os olhos das crianças
respiram tão vivíssimos
que só eles nos dizem
os imensos segredos
das certezas escondidas...

Que sopro audaz quebrou
o nevoeiro denso
que nos confunde os passos
pelas estradas do mundo
onde a metralha soa
e a solidão é lei...

Que alegria de maio
nos olhos das crianças...


Tropos, 1969

António Salvado

in DiVersos - Poesia e Tradução, n.º 34 | outono 2022:34, Edições Sempre-em-Pé, Águas Santas

20.2.22

DA PRIMAVERA

(imitado de Sículo)


Da primavera   uma constância incerta:
umas vezes   sorri   encantadora
serenamente o rosto juvenil,
outras vezes cobrindo só com névoas,
com chuvas e relâmpagos terríveis
a terra inteira   numa aterradora
confusão entre coisas, gentes, bichos.


António Salvado


ECOS DO TRAJECTO seguido de PASSO A PASSO, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A. 23 Edições, 2014

20.2.21

ERRANTE VAGUEAR

Errante vaguear
d'o que nem chega a ser
presença que se veja,
ausência a adivinhar:

a desolada teia
sem tear que a complete
com força que a enleie
em uma trama certa.

Ânsia que se deseje
e transformada em fado,
uma ramo que floresça
sem nada recear,

imagem que alivie
porém que m'enegrece
quando julgo que é dia
e já tudo anoitece.

António Salvado

ECOS DO TRAJECTO seguido de PASSO A PASSO, Edição Ricardo Neves Produção, Lda. - A.23 Edições, 2014

20.2.20

SE BEM QUE SEJA OUTONO

Se bem que seja outono
e véspera d'inverno,
eu canto a primavera,
nela o meu estro ponho,

que és tu, ilimitada
tão constante presença,
o ar purificado
que sempre de ti vem.

E ali estamos ardendo
sempre desencontrados,
num benéfico espaço
com tão desiguais tempos.

António Salvado

ECOS DO TRAJECTO seguido de PASSO A PASSO, Edição Ricardo Neves Produção, Lda. - A.23 Edições, 2014

20.2.17

AMOR FORTUITO

Seduziu. E levou
naquele rubro olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.

Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silêncio
e quietude de assomo.

E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaído
que não teve percurso.

António Salvado

Essa Estória, Portugália Editora, Junho de 2008

20.2.16

Aguardarás o tempo...

Aguardarás o tempo da vindima:
que as uvas sofram, como bem-fazeja
dádiva férvida, o calor de enlevos
que aproximar vai o verão do fim.

E só depois as poderás colher,
e só depois tu poderás fremindo
esmagá-las sem dor     com a leveza
com que se beija um corpo em cio unindo-se.

Aguarda pois. E faz da tua espera
a certeza insuspeita de que um dia
há-de num copo rutilar o vinho -

e nos teus dedos   em papel modesto
fugirá o mistério da vindima
transformado nos versos que nutriste.

António Salvado

Um fio de água, Antologia mínima I, Organização Nicolau Saião, Sirgo, Castelo Branco, 2012

20.2.15

COMUNS

Criaste e destruíste:
o que nasceu   morreu
o que morreu   nasceu:
um círculo cresceu
de um outro círculo
e a linha recta fez-se
no tempo labirinto
e o perdido no ermo
ganhou luz no destino --
e todo o recriado
e todo o destruído
foram ambos à face
comuns da tua vida.

António Salvado

Essa Estória, Portugália Editora, Junho de 2008