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24.4.26

Abril

De Abril recordo o ano, o mês e o dia
que demarcaram o antes e o depois:
se antes muita sombra nos traía,
logo após a urgência tinha dois
ou mais caminhos a fazer, trilhando
por vezes o mais curto, tal a febre
nos píncaros da pura agitação,
do natural contágio onde e quando
a fome de mãos dadas com a sede
acicatavam a revolução.
de Abril recordo Maio e o seu primeiro
dia de imensa multidão que sonhava
ser livre o tempo inteiro e pedia
trabalho, paz e pão.


© Domingos da Mota

Tempestade seca e outros poemas, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto de 2025


13.3.26

MOAB

Que filhos há-de
parir a mãe de todas
as bombas?

Que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?

Que mostrengos do
seu ventre aguardaremos
que expludam

fulminados pela
fúria da loucura
altipotente? 

© Domingos da Mota

Tempestade seca e outros poemas, Edição Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto, 2025





18.2.26

Quarta-feira de cinzas

É quarta-feira de cinzas
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,
não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.
O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho
que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.


© Domingos da Mota 

Tempestade seca e outros poemas


8.5.14

Elegia animal

Tantas vezes procuravas
um afago no teu pêlo,
roçagavas e miavas,
pedias colo e ao vê-lo
para o colo me saltavas
e ronronavas feliz;
outras vezes afiavas
as unhas, como quem diz,
nos dedos e mordiscavas
a ferida e a cicatriz;

muitas vezes vigiavas,
com o teu olhar agudo,
a varanda onde as aves
te provocavam, e tudo
com os seus voos rasantes,
instigantes, sobretudo.

Agora não mias mais,
ou se mias é no céu
dos gatos e dos pardais,
mas deixaste aqui um breu
cerrado cujo negrume
não há lume que ilumine,
por muito que outro gato
apareça e nos fascine.

© Domingos da Mota

(poema dedicado ao nosso gato que hoje entrou no ciclo do carbono)



13.1.12

O SENÃO

Afia a faca do vento,
corta os pulsos ao senão,
dá largas ao pensamento,
desoprime o coração,
pois o senão que sufoca
e se adensa como breu
e ameaça com a forca
e põe as garras ao léu
pede a faca no pescoço,
pede o fio da navalha
desde a pele até ao osso
(ou o diabo que o valha):
mesmo sendo dura a vida
vale mais do que perdida.

© Domingos da Mota