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18.8.21

[Poema]

para lá da cortina além da porta errada
silencioso e só está sentado
e lê num livro velho
a sua própria história


Manuel de Castro


EDOI LELIA DOURA antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa,
organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, Janeiro de 1985

18.8.12

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco       gasto       frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi feto       que foi um peixe
que foi o ar    que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio

Manuel de Castro

EDOI LELIA DOURA antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, Janeiro de 1985