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6.7.26

A meia adriça!

De um país tocado a ver a bola,
os olhos na pantalha ou no relvado,
que discute as jogadas, mata, esfola,
escalpeliza o jogo e o resultado,
e cumpre piamente essa função
e assiste com fervor à nova missa,
ao debate acirrado ou ao sermão
(e esconjura a bandeira a meia adriça);
de uma nação assim, arrebatada
que se julga a melhor entre as melhores,
e quando joga mal e é derrotada
vitupera os seus, e diz horrores
dos antigos heróis a quem verbera
com ferrenha paixão, o que se espera?

Domingos da Mota

2.8.25

Só quando os incêndios

Só quando os incêndios
forem naturais:
relâmpagos, raios,
rajadas de vento
que os acendam
e soprem e alastrem

(sem mãos escondidas,
fogachos e fósforos)
e as trovoadas
súbitas 
e secas
acaso culpadas
forem descobertas;

e nem a montante
do fogo que arde
sequer a jusante
soprar com alarde
o rol de granjeios,
de ganhos, proventos,

promessas, enleios,
desculpas, lamentos;
só quando os incêndios
depois do sol-posto
não derem estipêndios,
nem mesmo em Agosto.

© Domingos da Mota

23.8.13

Ode aos amigos

Canto os amigos: bem poucos, amigos 
do seu amigo. Não os amigos fortuitos. 
Mas os que enfrentam perigos, e cada um 

com seu jeito, contados e recontados 
pelos dedos da mão, são valiosos
guardados no lado esquerdo do peito.

Dos amigos dessa lavra, tão singulares, 
incomuns, amigos, numa palavra,
couberam-me em sorte alguns.

Canto os amigos de modo a não cair 
mais no erro de tomar a parte pelo todo, 
ou de esquecer quem não devo.

Já não falo dos da infância, das escolas, 
dos liceus, de armas, de muita errância, 
de tertúlias, de saraus, dos amigos 

de trabalho que labutam por aí, 
ou que perdi nos atalhos 
da vida que percorri.

Canto os amigos, e a voz que sobe 
num canto assim abraça alguns de vós.
Quem dera que pouse em mim.

© Domingos da Mota