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19.12.24

A Leitura

Não te deixes enrolar!
És tu quem tem de pagar...
Põe o dedo em cada letra;
pergunta: «Por que está 'qui?»


Alexandre O'Neill


ANOS 70 poemas dispersos, Assírio & Alvim, Outubro 2005

21.8.24

MÁ CONSCIÊNCIA

O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?

Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo,
não por ilusão.


Alexandre O'Neill

DE OMBRO NA OMBREIRA
, publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

21.8.23

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

Alexandre O'Neill


DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Setembro de 1969:75


21.8.22

AZUL AR

azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu


Alexandre O'Neill

ANOS 70 poemas dispersos
, Assírio & Alvim, Outubro de 2005




19.12.21

PEDRA-FINAL

Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!

Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção.


Alexandre O'Neill



DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

21.8.21

EM TODO O ACASO

Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p'la certa.

Não há «p'la certa», poeta!

Mas em todo o acaso acerta
Nem que seja a um verso por ano...


Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007

19.12.20

«NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!»



«Ninguém se mexa! Mãos ao ar!» disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
«Mãos ao ar!», repetiu para convencer-se.

Mas ninguém se mexeu, como ele queria...
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas-Festas da gerência

escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão). Ali estivemos

um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.

Alexandre O'Neill


POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Maio 2007

21.8.20

UMA LISBOA REMANCHADA

APROVEITANDO UMA ABERTA

«Ó virgens que passais ao sol-poente»
com esses filhos-família,
pensai, primeiro, na mobília,
que é mais prudente.

Sim, que essa qualidade,
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos a vida

que levais.
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos, por dó...

E o dó dói como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.

Eu quando digo mobília,
digo lar, digo família
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,

retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.

Assim, sim, virgens sensatas!
(Nos telhados só as gatas...)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
e aceitai respeitos mil
do vosso
              Alexandre O'Neill!

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS [Poemas com Endereço]  Assírio & Alvim, Maio de 2007

19.12.19

RIR, ROER

E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,

Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor
Que o homem se veja.

Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...

E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

19.12.16

ENTREVISTA

diz-lhe que estás ocupado
a entrevistar-te a ti mesmo
mesmo porque se não
o pões desde já porta 
fora tás quilhado vai
espiolhar-te apalpar-te
meter-te o dedo no cu
querer saber a quantas
quais mulheres ofereceste
teu recortado coração (pelo picotado)
em quantos quais sonetos meteste
o catorze e quantas quecas
te saíram pela ejaculatra
e ainda que livros levarias
para uma ilha deserta
se lá tivesses de empinar
o talo e fazê-lo florir sem a ajuda de ninguém
sequer de sexta-feira
apenas com os cinco dedos
que deus te deu para isso mesmo
mesmo porque tens de o pôr
já porta fora

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

21.8.16

OS LAGARTOS AO SOL

Expõe ao sol a perna escalavrada, 
no Jardim do Príncipe Real,
uma velha inglesa. Não há nada
tão bonito (pra mim), so natural.

E conversamos: «Helioterapia
medicina barata em Portugal».
Accionista do sol, ajudo à missa:
«But, não muito, que senão faz mal».

Gozosos, eu e a velha, ali ficamos
à mercê de meninos e marçanos.
Ela, a inglesa, de perninha à vela;
e eu, o português, à perna dela.

Talvez que, se o Briol nos conservara,
alguém um dia nos ajardinara.

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007

21.8.15

A TRAIÇÃO

quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007

19.12.14

DE PORTA EM PORTA

-- Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito 
estar entre gente.

-- Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.

-- Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho...

-- Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

-- Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele não tem mãe
e não é do Norte...

-- Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, 5.ª Edição, Lisboa, Maio 2007

21.8.14

QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a  fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço a rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Sr. O'Neill! E... as varizes?

Alexandre O'Neill

DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

25.4.14

MANIFESTAÇÃO

Manifestantes e avarandados entreolham-se.

O olhar trocou-se.
Não se trocou o cheiro.

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

6.4.13

RESPONSO



Com um  tiro no artelho,
viva o velho!

Com um tiro no abdome,
passa-te  a fome!

Com um tiro no nariz,
«Que é que ele diz?».

Com um tiro no rabo,
podes ir de rabo a cabo!

Com um tiro na cedilha,
terá de ser doutro a filha...

Com um tiro no coração,
oh que sono e que colchão!

Alexandre O'Neill


POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007





2.1.13

BOM E EXPRESSIVO

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: -- Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...

Alexandre O' Neill

tomai lá do O'NEILL! uma antologia [POEMAS COM ENDEREÇO], Círculo de Leitores, 1986