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5.6.16

PRELÚDIO

Partem os altos choupos, 
mas deixam o seu reflexo.

Partem os altos choupos,
deixando apenas o vento.

O vento na sua mortalha
jaz debaixo do céu.

Mas não levou os seus ecos,
que flutuam sobre os rios.

O mundo dos pirilampos
invadiu minha lembrança.

E um coração pequeno
vai-me brotando nos dedos.

Federico Garcia Lorca

TRINTA E SEIS POEMAS E UMA ALELUIA ERÓTICA, Tradução de Eugénio de Andrade, Editorial Inova Limitada, Porto, Janeiro de 1970

19.8.15

CANÇÃO DA MORTE PEQUENA

Prado mortal de luas,
sangue debaixo da terra.
Prado de sangue velho.

Luz de ontem, luz de amanhã.
Céu mortal de relva.
Luz e noite de areia.

Encontrei-me com a morte.
Prado mortal de terra.
Uma morte pequena.

Há um cão sobre o telhado.
Só uma das minhas mãos
atravessava sem fim
montanhas de flores secas.

Catedral de cinza apenas.
Luz e noite de areia.
Uma morte pequena.

A morte e eu, um homem.
Um homem sòzinho, e ela,
uma morte pequena.

Prado mortal de lua.
Trémula a neve geme
atrás de qualquer porta.

Um homem, e quê? Já disse.
Um homem sòzinho e ela.
Prado, amor, luz e areia.

Federico Garcia Lorca


TRINTA E SEIS POEMAS E UMA ALELUIA ERÓTICA, Tradução de Eugénio de Andrade, Editorial Inova Limitada, Porto, Janeiro de 1970