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24.3.25

[Não toques nos objectos imediatos]

Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.


Herberto Helder

ÚLTIMA CIÊNCIA, Assírio & Alvim, Cooperativa Editora e Livreira, CRL, Lisboa, Novembro de 1988

7.8.24

— Glória —

(Malcolm Lowry)


A glória é como uma terrível catástrofe,
pior que a casa incendiada; enquanto
se abate a trave-mestra, o fragor
da destruição repercute-se cada vez mais depressa;
e tu contemplas tudo aquilo, inane
testemunha da danação.

Como uma bebedeira a glória devora
a casa da alma, revela que trabalhaste
para coisa pouca: para ela -
ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse
molhado a minha face: queria
fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.


1987 e 1996-97

Herberto Helder 

OUOLOF Poemas Mudados para Português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997

13.8.21

[eles estão a morrer de todas as maneiras]

eles estão a morrer de todas as maneiras
mas diga-me: não há apenas uma só maneira:
a maneira cega?


Herberto Helder



Poemas Canhotos, Porto Editora, Maio de 2015

11.6.20

(Dincas, Sudão)

No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

Herberto Helder

AS MAGIAS ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português, Assírio & Alvim, Outubro 2010

20.4.16

[sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,]

sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,
eu, sentado a este papel, escrevo
que o perdão sem piedade,
não pelos actos, mas
pelas palavras,
nunca me será dado, e rejubilo,
porque o perdão enfim veria os nomes anulados
pelo falso entendimento
coisa a coisa
-- e eu não quero mais perdões de nada

Herberto Helder

Letra Aberta, Porto Editora, Março de 2016

21.5.15

[em boa verdade houve tempo em que tive uma]

em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                 ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                   e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                      a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                        estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                        sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                 sua própria profundidade

Herberto Helder

Poemas Canhotos, Porto Editora, Maio, 2015

24.3.15

Herberto Helder (1930-2015)

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

DO MUNDO, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro de 1994

11.6.13

- O coração - (Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

AS MAGIAS  ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010

2.6.13

[nada pode ser mais complexo que um poema,]

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora

Herberto Helder

SERVIDÕES, Assírio & Alvim, Porto, Maio de 2013

23.11.11

[abrupto termo dito último pesado poema do mundo]

abrupto termo dito último pesado poema do mundo

Herberto Helder


A FACA NÃO CORTA O FOGO súmula & inédita, Assírio & Alvim, Setembro de 2008